opinião

Obrigado pelo cravo verde



Obrigado pelo cravo verde. Não é ironia. Ou talvez seja um pouco. Mas há coisas que vale a pena reconhecer. Há gestos que tentam dizer uma coisa e acabam por dizer outra. Este foi um deles.

Ao trazer o cravo verde para o centro do debate, não se criou nada de novo. Apenas se chamou a atenção para algo que já existia. E que, aparentemente, não foi bem pesquisado.

Porque o cravo verde não começa aqui.

No século XIX, o nome de Oscar Wilde já estava ligado a este detalhe. Um cravo na lapela que funcionava como código entre homens que amavam homens. Discreto, elegante e suficiente. Não precisava de aprovação. Nem de explicação. E não era o único.

As violetas, ligadas à poesia de Safo, atravessaram séculos como símbolo de amor entre duas mulheres. Uma flor oferecida, usada ou mencionada podia dizer exactamente aquilo que não podia ser dito directamente.

Mais tarde, os códigos tornaram-se ainda mais diretcos. Lenços de cores diferentes, colocados no bolso esquerdo ou direito, comunicavam interesses e intenções com precisão. Um sistema completo, sem cartazes, sem autorização e que funcionava na perfeição.

Nada disto é novo. É importante lembrar como funcionava. Não eram símbolos exibidos para todos. Eram sinais partilhados. Pequenos gestos que criavam reconhecimento imediato entre quem precisava deles, sem exposição.

O que é novo é a ideia de que os símbolos podem ser controlados. Que podem ser definidos, limitados, autorizados. Como se o significado fosse fixo. Como se dependesse de quem fala mais alto. Hoje discute-se o que pode ou não pode ser mostrado. Fala-se de bandeiras como se fossem o início de tudo. Mas antes delas já existia uma linguagem inteira, feita de subtileza e intenção.

Um cravo pode ser o que quiserem que seja. Mas também pode continuar a ser aquilo que sempre foi. E é aqui que a ironia fica interessante: Se um cravo verde já entrou num espaço institucional como símbolo de liberdade, então não é fácil dizer que não pode voltar a aparecer noutro contexto. A porta foi aberta. Não fomos nós.

Por isso talvez a resposta seja simples.

Usar…

Usar o cravo verde.

Usar violetas.

Usar códigos que nunca desapareceram, só deixaram de ser necessários.

Agora voltam por escolha.

No dia a dia.

Sem pedir licença.

Sem explicar a ninguém.

E se disso sair uma bandeira, melhor ainda.

Uma bandeira que não nasce de uma decisão política, mas de uma história que sempre existiu. Que não precisa de autorização para ser mostrada. E que não desaparece só porque alguém decide o que pode ou não pode ser exibido.

Porque há símbolos que não se definem.

E há histórias que não se apagam.

E algumas continuam exactamente onde sempre estiveram, à vista de todos…

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