a saber

Rudy: a primeira estrela queer de Lisboa



Antes de a noite lisboeta ter clubes de culto, antes de o Príncipe Real se tornar epicentro LGBTQ+, e mesmo antes de António Variações (1944 – 1984) marcar uma viragem na música portuguesa, já havia um nome que circulava como mito urbano: Rudolfo Pimentel, o Rudy. Em plena ditadura tardia e na transição para a democracia, Rudy existiu como manifesto vivo de liberdade num espaço público ainda hostil à diferença.

«Tem muito de Norma Jean / E muito de Josephine» — cantou António Variações em “Rudy-Rubi”, uma canção (com letra da sua autoria), criada em 1984, que ele registou de forma caseira e experimental num pequeno gravador de cassetes, mas que nunca chegou a gravar em estúdio — resumindo, numa imagem cintilante, a mistura de glamour clássico e desfaçatez moderna com que Rudy atravessava Lisboa.

Um corpo em movimento na cidade
Os registos escritos sobre Rudy são escassos; ficou sobretudo uma memória oral, sedimentada nas ruas da Baixa, do Chiado e da Avenida da Liberdade, onde surgia com gesto performativo e estilização de «flaming queen» — termo com sentido histórico na cultura queer para identificar a exuberância assumida, a pose pública, a teatralidade do quotidiano.

«Passas espampanante / Subindo o Chiado / Muito provocante» — pequenos flashes da canção fixam a cartografia do desfile: Chiado, Brasileira, Avenida, um percurso que era mais do que passeio; era encenação.

Lisboa, então, era uma cidade de ambivalências: liberal no imaginário cosmopolita, mas vigiada por normas morais e pela polícia política até 1974. Depois da Revolução, a liberdade legal não se traduziu de imediato em aceitação social. Nesse interregno, Rudy manteve a coreografia de rua que o tornou reconhecível — e, para muitos, fundador.

Entre a invisibilidade e a cena que estava a nascer
A partir de 1976, com a abertura do “Finalmente Club”, o transformismo ganhou um palco diário, naquele que é o mais antigo clube artístico transformista, e institucionalizou-se um circuito nocturno onde se destacariam Lydia Barloff, Ruth Bryden e muitas outras artistas — uma continuidade pública do que, antes, sobrevivera em códigos de sociabilidade discretos. A RTP assinalou os 40 anos do “Finalmente” (1976 – 2016) sublinhando esse «boom» do transformismo no pós 25 de Abril.

Já nos anos 80, a abertura da discoteca “Trumps” e o adensar de bares no Príncipe Real consolidaram um eixo LGBTQ+ na cidade. Livros de memória cultural, como “Histórias da Noite Gay de Lisboa” (2017), de Rui Oliveira Marques, reconstituem o papel desses espaços na visibilidade queer da capital, cruzando relatos de figuras e episódios que moldaram a cena — a cultura, a festa, mas também o luto da sida e a afirmação política.

Rudy é anterior a tudo isto enquanto figura pública de rua; a noite, quando chega com a sua libertação, encontra nele uma precursão diurna — um antes tornado presença à luz do dia.

Rudy e Variações: homenagem, espelho, cidade
A canção “Rudy-Rubi” cristaliza a relação simbólica entre o artista e a figura urbana — não como reportagem biográfica, mas como retrato poético musical. Variações vê Rudy e escreve um ícone em movimento: «Presta-se ao mirante / Toda a escadaria / Vejam-me o desplante / Mesmo à luz do dia».

O que Variações regista é um ethos: o Rudy que «Fica delirante / Se o trânsito para / Bem desafiante / Mostra bem a cara» e converte a cidade em passarela; que improvisa segurança e ensaia liberdade numa Lisboa que, em 1984, ainda negociava a modernidade. O gesto musical tem leitura dupla: homenagem a um personagem real e cartografia sensível de uma cidade a tornar-se mais plural.

O que significa «flaming queen» em Lisboa (e por que importa dizê-lo)
No léxico queer, «flaming queen» descreve quem assume, de forma ostensiva, códigos de feminilidade, brilho e camp. Em contextos repressivos (ou apenas normativos), a «flaming queen» é um acto político ambulante: a recusa de se esconder, a reescrita do corpo no espaço público. É nessa chave que Rudy se torna legível — e por isso é visto, lembrado e, mais tarde, celebrado em canção.

A cena que se consolidou depois — e o lugar de Rudy nela
Com o tempo, Lisboa afirmou um bairro gay (o Príncipe Real), ligando o ao Bairro Alto e ao Chiado, consolidando um corredor de bares, discotecas, cafés e espaços de sociabilidade; juntaram-se o Queer Lisboa (festival de cinema) e o Arraial Pride, fazendo da cidade um destino LGBTQ+ europeu — discreto, mas consistente. Guias culturais e turísticos sublinham esse arco, de sociabilidade a cidadania.

Rudy pertence à pré história luminosa desta cartografia. A sua visibilidade antecede instituições, programação e políticas públicas; anuncia que o corpo pode ser linguagem e que a rua pode ser palco.

Legado: uma história que se conta com passos
A biografia de Rudy é, inevitavelmente, uma biografia de passos: poucos documentos, muitas testemunhas; poucos recortes, muitas lembranças. Mas o lugar simbólico é inequívoco: ele foi pioneiro da visibilidade — existiu em público quando quase tudo a convidava à sombra; ele foi figura de transição — entre a cidade da prudência e a cidade com bairros, clubes e paradas; ele foi ícone cultural — eternizado na canção de Variações: “Rudy-Rubi” (1984), artefacto pop que o integra no cânone da modernidade portuguesa.

«Ó Rudy-Rubi, / Olha a solidão,» — a canção anota também a ambivalência: existir com brilho, sim, mas numa cidade que nem sempre retribui cuidado. É esse contraponto — luz e vulnerabilidade — que faz de Rudy uma personagem comovente e necessária.

Infelizmente, não existe em nenhuma fonte pública qualquer registo da data ou local de nascimento e de morte, ocupação profissional, vida pessoal… de Rudolfo Pimentel (Rudy), a figura queer lisboeta celebrada por Variações. No ano de 1988 fez parte do elenco, como figura secundária, de dois filmes: “Repórter X”, de José Nascimento, e “Duke”, de Nelson Pinto. Sabe-se que esteve presente num colóquio sobre António Variações, realizado nos dias 5 e 6 de Dezembro de 2024, na Universidade Nova de Lisboa, constando do painel de oradores com o tema: «Rudolfa/Rudolfo, a “Rita Hayworth” do Bairro Alto.» E, a ser real, que possui uma página de Facebook de onde apenas consta o nome Rudolfo Pimentel, uma fotografia e uma data de nascimento (14 de Janeiro de 1960).
O que nos leva a concluir pelo apagamento do ser humano, a favor da exuberância da figura folclórica, o que dirá bastante sobre o Portugal preconceituoso, discriminatório e homofóbico dos anos 70 e 80…

António Fernando Cascais, no seu livro “Estar Além – A Persona Queer de António Variações” (2025), deixa-nos uma descrição preciosa de Rudolfo Pimentel, por ser a única fonte documental que encontrei sobre o protagonista deste texto: «Ainda que sem a sua dimensão nacional, Variações não se encontrava completamente só na notoriedade pública. Algum tempo antes dele, já Rudolfo Pimentel – popularmente conhecida por Rudy – se fazia olhado na comunidade gay e, bem assim, nas ruas de Lisboa, por onde não andava –
pois não: desfilava – em pose permanente de flaming queen. Manequim a tempo inteiro da catwalk da vida, figura “elegantérrima”, “érrima” em tudo, aliás, ultrajantemente insinuante nos seus traços mestiços, de réplica afiada como uma lâmina quando decidia interromper a sua heróica indiferença às saraivadas de chufas, assobios, sarcasmos e impropérios que, fazendo anunciar a sua aproximação, lhe seguiam os passos com que pisava a calçada portuguesa sob os esbugalhados holofotes oculares do tuga atónito. Lá onde Guida era arrojadamente Scarllaty em palco, Rudolfo rutilava como um rubi por toda a parte onde se cruzasse com a mirada basbaque do paisano desprevenido. Testemunho nosso, corroborado por Teresa Couto Pinto e Manuela Gonzaga:

Tal como o António, também o Rudolfo fazia parar o trânsito. Como quando descia o Chiado com a sua amiga Guga, outra personagem incrível, os dois vestidos de igual. Ele, de calça xadrez rosa-choque e preto, no mesmo tom e tecido do tailleur dela. A Guga acrescentava à toilette um adereço inusitado. O seu gato persa, pelo rosa-choque, placidamente enrolado em volta do seu pescoço. Vivo. Os olhos moviam-se. Ou quando ele, Rudolfo, ia às festas do Trumps com um vestido cintado em lamê vermelho que acentuava a sua magreza e o estilizava, dando-lhe uma aparência entre a Rita Hayworth e a Josephine Baker. Também o António descia a Avenida da Liberdade todo vestido de caqui branco, chapéu colonial, com um papagaio de madeira ao ombro. Este traje viria a ser utilizado, mais tarde, no teledisco do seu primeiro álbum.»

Letra da música RUDY-RUBI
«Rudy-Rubi
Tem muito de Norma Jean
E muito de Josephine
Ó Rudy-Rubi
Ouves falar e pensas que é de ti
Ouves chamar, pensas que é por ti
Rudy-Rubi
Tem corpo de James Dean
Tem muito de Janis Joplin
Ó Rudy-Rubi
A inflação sobe, pensas que é por ti
Se vier a guerra pensas que é por ti
Rudy-Rubi
Não tem nada de Ho Chi Min
Tem muito de Charlie Chaplin
Ó Rudy-Rubi
Se o mundo gira pensas que é por ti
Vais de satélite ou de óvni?
Rudy-Rubi
Tens muito mais e é só para ti
E muito menos de Indira Gandhi
Ó Rudy-Rubi
Se os deuses cantam pensas que é para ti
Se eles se calam que será de ti?
Rudy-Rubi
Tem muito de Marylin
And looks like Josephine
Presta-se ao mirante
Toda a escadaria
Vejam-me o desplante
Mesmo à luz do dia
Fica delirante
Se o trânsito para
Bem desafiante
Mostra bem a cara
Passa ao volante
Entre a multidão
Fica arrepiante
Se alguém lhe põe a mão
Anda com o amante da contradição
Ah, és viciante
A cantar no chão!
Passas espampanante
Subindo o Chiado
Muito provocante
Comendo um gelado
E fica irritante
Com tanto arraso
E grande tratante
Daquilo que eu não faço
Com ar dominante
De Lisboa inteira
Passa de rompante
Bem à Brasileira
Fica delirante
É sorte tentar
Ah, isto é tão excitante
Aquilo encontrar!
Passas estonteante
Como quem tropeça
Na estrela brilhante
Que tem na cabeça
Fica insinuante
Todo o intervalo
Em foto tocante
À la Greta Garbo
Passas estonteante
De cintura fina
De cor contrastante
A pedir a sina
Passa delirante
De pala na mão
Ah, é tão estafante
Esta vida de avião!
Passa elegante
A nova coleção
Muito refrescante
Num fato de verão
Fica perturbante
Com a cor do cinto
Ah, é revoltante
Eu cá não estou para isto!
Passa elegante
Busca uma prisão
Ah, é asfixiante
Ter-te a andar pelo chão!
Ó Rudy-Rubi
Olhar que insista,
Quando é que tu pões alguém na tua vista?
Ó Rudy-Rubi,
Amante de todos os espelhos,
Onde é que tu começas a ver-te ao espelho?
Ó Rudy-Rubi,
Olha a solidão,
Mata esse espelho
E vai encher a tua em corpo alheio.»

.

Paulo Marques