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“Sem limites, sem vergonha”: escrever contra o apagamento



sem limites, sem vergonha
darei
mais um passo em frente e mais outro
em frente
e voltarei
quando
quiser
se
quiser
sem limites, sem vergonha
sempre-e-sempre.

(May Ayim)

I. Um livro necessário no tempo presente

No rescaldo do Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, a publicação de SEM LIMITES, SEM VERGONHA, pela Orfeu Negro, impõe-se como um gesto editorial particularmente feliz. Não por oportunismo de calendário, mas porque este é um daqueles livros que devolvem espessura histórica, política e íntima a uma conversa tantas vezes reduzida a fórmulas gastas, pedagogias da tolerância ou discursos bem-intencionados, mas inócuos. May Ayim escreve noutro registo. A sua voz é límpida, incisiva, poética, e ao mesmo tempo atravessada por uma inteligência crítica rara.

Há muito que não me deparava com uma escrita tão aguçada sobre a experiência da não-pertença e da violência de ser permanentemente lida a partir da diferença. SEM LIMITES, SEM VERGONHA não é apenas um livro de testemunho, nem apenas uma reunião de textos de intervenção. É também um arquivo de consciência, um lugar de formulação política e uma cartografia sensível da experiência afro-alemã. O que aqui se lê não é apenas a história de uma mulher negra na Alemanha: é a exposição de uma estrutura, de um país e de uma cultura que insistem em negar pertença plena a quem não cabe no imaginário branco da nação.

Há muito que não me deparava com uma escrita tão aguçada sobre a experiência da não-pertença e da violência de ser permanentemente lida a partir da diferença. SEM LIMITES, SEM VERGONHA não é apenas um livro de testemunho, nem apenas uma reunião de textos de intervenção.

May Ayim transformou a sua vida em luta. Mas aquilo que impressiona neste livro é o modo como essa luta nunca se fecha na pose da resistência individual. Há nela uma solidão profunda, sem dúvida, mas há também uma procura constante de linguagem comum, de comunidade, de vínculo político. É essa tensão entre experiência íntima e construção coletiva que dá a esta escrita a sua força maior. Ayim não se limita a contar o que viveu; ela desmonta o mundo que tornou essa experiência possível.

II. Família, adolescência e a violência da linguagem

Os textos mais autobiográficos estão entre os mais fortes do livro. A infância passada num orfanato, a adoção por uma família alemã branca, a relação com o pai ganês, a procura das origens e a perceção dolorosa de ter sido socializada num ambiente que a quis afastada da sua negritude compõem um núcleo particularmente duro e comovente. A família surge aqui menos como abrigo do que como lugar de normalização. A tentativa de a construir como branca, ou pelo menos como suficientemente adaptada à norma branca, revela como o racismo não opera apenas através da hostilidade exterior, mas também por meio de formas íntimas de correção, silenciamento e assimilação.

É, porém, na adolescência e juventude que essa fratura se torna ainda mais nítida. Quando regressa ao Gana e é recebida calorosamente pela família do pai, o acolhimento não resolve a questão da pertença: expõe-na com maior intensidade. Nesse encontro, Ayim compreende que não pertence inteiramente nem à África idealizada nem à Alemanha onde cresceu. Esse intervalo, esse desencontro, essa condição suspensa entre geografias e filiações marcam profundamente a sua vida e a sua escrita. O stress identitário que daí decorre não é apresentado de forma melodramática. Pelo contrário, transforma-se em literatura de grande finura emocional, de enorme sensibilidade e, por vezes, de um humor desconcertante, quase súbito, que desarma qualquer leitura simplista da dor.

Outro dos aspetos mais notáveis do livro é a atenção à linguagem. A formação de May Ayim em Terapia da Fala não é uma nota lateral; ajuda a perceber a acuidade com que pensa a dimensão política da voz, da pronúncia, do sotaque e da correção linguística. A língua alemã surge aqui não como instrumento neutro, mas como campo de triagem social e racial. Quem fala “bem”, quem fala “mal”, quem é ouvido como legítimo, quem é imediatamente remetido para a categoria de estrangeiro: tudo isso faz parte da maquinaria da discriminação. Uma vivência idêntica à de muitos brasileiros, cabo-verdianos e angolanos a viverem em Portugal. Como se a língua comum fosse um obstáculo à pertença à comunidade. 

Na Alemanha dos anos 1990, já em contexto de pós-reunificação, esta questão torna-se ainda mais visível. A presença turca ocupa então lugar central no debate público e nas ansiedades identitárias da sociedade alemã. O modo como se fala alemão, a fluidez, o acento, a dicção, o domínio dos códigos linguísticos passam a funcionar como marcadores de suspeição, de hierarquia e de exclusão. Ayim percebe isso com notável clareza: a discriminação não se exerce apenas contra o corpo racializado enquanto imagem, mas também contra a voz, contra a fala, contra o modo como se entra — ou não — na comunidade nacional através da língua. É neste ponto que os seus textos sobre expressões banais, jogos infantis, fórmulas pedagógicas e hábitos discursivos se tornam particularmente incisivos. O que parece inocente revela-se estrutura. O que parece brincadeira revela-se violência entranhada.

III. Redes negras, edição feminista e a permanência de May Ayim

Mas SEM LIMITES, SEM VERGONHA é também um livro sobre encontro e construção coletiva. A importância das redes de mulheres negras, na Alemanha e para lá dela, atravessa a obra de forma decisiva. A ligação a Audre Lorde é aqui incontornável. Não apenas como referência intelectual, mas como presença fundamental na consolidação de uma linguagem afro-alemã, feminista e politicamente afirmativa. Essa relação mostra até que ponto May Ayim pensou sempre a sua experiência em diálogo com outras geografias negras, outras vozes e outras formas de resistência. A experiência afro-alemã não surge, assim, como enclave isolado, mas como parte de uma constelação transnacional de pensamento e luta.

É também nesse contexto que ganha relevo o papel da Orlanda Frauenverlag, editora fundamental na publicação e circulação da obra de May Ayim. A importância desta casa editorial ultrapassa o simples gesto de editar livros: ela funcionou como espaço de inscrição, legitimação e visibilidade para vozes que o campo cultural alemão tendia a manter na margem. Referir esse contexto editorial é essencial, porque ajuda a perceber que a escrita de Ayim não emerge no vazio. Ela nasce de redes, de cumplicidades, de trabalho político e feminista, de uma infraestrutura de publicação sem a qual muitas destas vozes poderiam ter permanecido invisíveis.

A Berlim ocidental onde cresceu aparece, neste livro, como lugar de invisibilização persistente. E a reunificação alemã, longe de surgir como promessa transparente de emancipação, traz novas perplexidades. A narrativa gloriosa da unidade nacional é lida por Ayim a partir das margens, do ponto de vista daqueles que continuam a não caber plenamente na imagem que a nação faz de si própria. É essa perspectiva descentrada que torna o livro tão poderoso. May Ayim escreve contra o apagamento, mas escreve também contra a simplificação. A sua voz não pede apenas reconhecimento; exige transformação.

Ler hoje SEM LIMITES, SEM VERGONHA é perceber como esta escrita permanece estranhamente atual. O livro fala da Alemanha do final do século XX, mas fala também de um presente em que as estruturas de exclusão mudaram de forma sem desaparecerem. A força de May Ayim está em ter conseguido transformar o stress da não-pertença, a violência da linguagem e a ferida da identidade em literatura de altíssima voltagem ética e estética. Literatura que pensa, que dói, que ironiza, que expõe e que convoca.

No final, permanece a necessidade de prolongar esta leitura para além do livro. O filme construído a partir do arquivo de May Ayim, disponível na Freie Universität Berlin — vídeo abaixo — funciona como extensão visual e memorial desta obra. Ali, a voz de Ayim ganha corpo, ritmo e presença, permitindo-nos compreender ainda melhor a densidade de uma escrita que nunca foi apenas literatura, mas também gesto político, memória viva e recusa persistente em desaparecer.

May Ayim faleceu em 1996, em Berlim, por suicídio.

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