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Ângelo Fernandes: "Até nem pareces nada gay"

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“Tu disfarças bem”; “Ninguém diria que eras”; “Nunca suspeitaria de ti”; “Se não me contasses não acreditava que és gay”. Estes são alguns dos comentários que é comum ouvir, seja de alguém heterossexual ou mesmo de alguém gay. Ainda recentemente disseram-me: “Até nem pareces nada gay”, e isso levou-me a reflectir: existirá um modelo gay? A resposta é: não. O que existem são preconceitos.

Em 2016 a ideia de que o gay é um ser efeminado ainda prevalece. Contudo quando um homossexual se comporta de forma masculina e não apresenta maneirismos, a que se parece ele? Com um heterossexual? Com um heterossexual que sente atracção por outros homens? E que tal parecer-se com aquilo que é, um homem? Só isso. Sem necessidade de acrescentar algo mais.

 

Às vezes são pequenas observações numa conversa entre amigos e até proferidas como elogios. E acredito que grande parte das pessoas não o faz por maldade nem sequer com intuito de discriminar, porém é preciso compreender o que está por trás dessas ideias.

Partir do princípio que é preciso disfarçar ser gay é errado. Ninguém deve contrariar a sua forma de estar, nem ser criticado ou discriminado por isso. Disfarçar implica também esconder a verdadeira forma de estar. E porque haveria alguém de querer isso? Por que irá desvendar quem realmente é? Como se isso fosse errado? Por ter medo de ser “apanhado”? A última vez que verifiquei, não existe uma tabela onde relacione o quão gay alguém é com o quão másculo tem de ser. Então porque agimos como se houvesse?

 

Estes papéis e expectativas só confundem a questão de identidade e o desenvolvimento pessoal. Em que circunstâncias é que afirmar a um rapaz “és demasiado feminino*” lhe trará algo de positivo? Que resultado terá quando alguém comenta ”não tenho nada contra os gays, mas não compreendo porque há uns que têm de ser comportar como mulheres” sem passar a mensagem de que ser efeminado não é uma opção sequer. “Um homem só porque é gay, não tem de ser efeminado”, e se for heterossexual já pode?

 

A ideia de que um homem que não seja masculino é menos capaz e menos válido é simplesmente redutora. Ninguém deve sentir-se obrigado a cumprir com uma expectativa e papel social que não se identifique, independentemente da orientação sexual. E quando focamos exclusivamente a comunidade LGBTI, o peso das expectativas pode ter um impacto maior e mais profundo. Para muitos ser homossexual é, já por si, um processo complicado e doloroso, portanto não adianta adicionar mais barreiras como a que ser efeminado é estar abaixo na “hierarquia”. Porque ser gay é uma coisa, mas ter “piquinho à azedo”, já é outra coisa completamente diferente, é um ser que polui a virilidade colectiva masculina.

 

Estas ideias estão erradas e têm de ser desvitalizadas. E o seu desuso passa por compreender e aceitar cada um como é. O conceito de identidade já há muito que deixou de ser binário, portanto está na hora de actualizar as nossas expectativas à realidade em que vivemos.

 

*Por motivos de leitura e economia, fica para um futuro texto abordar outra questão inerente a estes comentários: o feminino enquanto inferior ao masculino.

Ângelo Fernandes, artista 3D, faz voluntariado num grupo LGBT em Manchester, Reino Unido.