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António Fernando Cascais: "Um crime trágico sobre o qual não se pode fazer silêncio"

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Não é nada fácil escrever sobre o massacre de Orlando. E não por não ser evidente que se trata de um ataque homofóbico, já que o alvo e o propósito o provam sem qualquer margem para dúvida. O problema é que a verdadeira catadupa de explicações contraditórias dos factos e respectivas explorações políticas e ideológicas o complicam num emaranhado extremamente difícil de destrinçar. Pode-se mesmo dizer que cada simplificação só obscurece e piora a compreensão de um crime trágico sobre o qual, por outro lado, não se pode fazer silêncio.

Esforçando-me por aclarar as águas turvas em que cada um pesca para seu lado, eu adiantaria, no mínimo – pois muito mais haveria para esclarecer – três ou quatro coisas:

Primeiro, o crime de Orlando prova que a homofobia, longe de ser coisa do passado, mantém no fundo toda a sua virulência, pronta a desencadear-se com a máxima brutalidade homicida, para tanto bastando que as condições para isso estejam reunidas. Só se quisermos enganar-nos a nós mesmos é que podemos dar-nos ao luxo de acreditar que a injúria, o estigma, a discriminação (Hotel Casa d’João Enes), a piada sarcástica (Sinel de Cordes), a boçalidade autocomplacente (João Malheiro), não contém já em si a possibilidade da agressão física até à morte. Isto leva-me a interrogar se não se puseram muitos de nós a dormir sobre os “adquiridos civilizacionais” como a aprovação de leis do casamento (em Portugal, como em alguns estados dos EUA e muitos outros países ocidentais) e que há quem dissesse que constituem o maior desafio à homofobia, quando o cúmulo da homofobia nunca consistiu em as pessoas não se poderem casar e sim serem – e continuarem sempre a ser – objecto de violência simbólica e de violência física. Um símbolo, sem dúvida. Mas bem mais frágil e precário do que julgava muita gente, agora em estado de choque. O reconhecimento formal de direitos nas sociedades ocidentais não reflecte o facto irreversível de as pessoas LGBTQ terem sido deixadas em paz de uma vez por todas para viverem as suas vidas em segurança. Não foram.

Segundo, um acontecimento que é passível de transformar pessoas como Assunção Cristas numa campeã da luta contra a homofobia ou Donald Trump em “compagnon de route” do homonacionalismo islamofóbico (que até existe mesmo) deveria fazer com tudo quanto é recém-chegado à luta (pelo protagonismo) LGBT+ anti-homofóbico (dentro e fora do activismo LGBT+) enxergasse em que companhias é que se quer para disparar tão indiscriminadamente como Omar Mateen críticas e lições tanto sobre amigos e aliados como sobre inimigos. Depois queixem-se quando Sinel de Cordes apelida as redes sociais de lodaçal.

Terceiro, se a esta mistura explosiva ainda se vem juntar a homofobia internalizada de Omar Mateen, como tudo indica, temos a tempestade perfeita. O pretexto para a desdramatização rejeitante que se dedica a virar o bico ao prego com a ideia que é o folclore típico dos homossexuais, voláteis, desiquilibrados e doentes a matarem-se uns aos outros. Acontece que a homofobia internalizada é o combustível de que se alimentam todos os fundamentalismos (religiosos) e totalitarismos (políticos) para transformar os seus alvos em carrascos de si próprios. As pessoas estão prontas a infligir o mal quando acreditam que é o seu bem que está em causa. Tem-se culpado o patriarcado estrutural da sociedade ocidental, a heteronormatividade constitutiva dela; pois (elas aí estão e sempre estiveram, mas…), enganem-me com as costas largas de um e de outra, que eu gosto. O fundamentalismo islâmico foi a voz que pôs na boca de Mateen as palavras da destruição e nas mãos os instrumentos dela, americano ou não, gay ou não, muçulmano ou não – somos o que de nós fazem e o que fazemos com o que de nós foi feito. Terá Mateen salvo a sua alma? a pureza dela? a masculinidade dela? a humanidade dela? Agora, nem ele próprio saberá. O que, e quem, pode amar alguém (gay ou qualquer outro) se não se ama a si próprio?

Quarto, não há culpa colectiva e a insistência em aliar o combate contra a homofobia e contra a islamofobia está certa. O que já não está certo é branquear o fundamentalismo islâmico, responsabilizando por todos os males a matriz cristã das sociedades ocidentais, quando essa nem sequer é a única matriz, nem a mais antiga, pois elas são três. A matriz originária é grega e a ela se deve a ideia de substituir a violência (bélica, terrorista) pela palavra, isto é, a democracia. A outra matriz é a iluminista moderna, e a ela se deve a separação entre as igrejas e o Estado que permitiu a emergência de sociedades laicas, as únicas a reconhecer igual valor e liberdade a todas as religiões, as únicas dotadas da capacidade de se pôr em causa radicalmente, julgando os seus próprios crimes e reconhecendo sujeitos de direitos, liberdades e garantias, entre os quais os direitos LGBT+. Tanto as torna moralmente superiores às sociedades (não às religiões) incapazes de o fazer, como as islâmicas, o que faz com que a diferença entre elas não seja mera questão de diversidade cultural. Interrogo-me se certas esquerdas e certo activismo LGBT não estão a praticar uma forma de hipocrisia activa que em vez de crítica política impiedosa faz moralismo demissionário beato. Caucionar o activismo queer só se ele fizer juramento anti-islamofóbico exige, pelo menos, reciprocidade: que as sociedades e as comunidades islâmicas que criticam a islamofobia ocidental se comprometam decididamente a recusar a sua própria homofobia. Os muçulmanos norte-americanos que manifestaram publicamente o seu repúdio pelo massacre de Orlando apontam no rumo certo.  

No meio desta confusão de perigos em que tudo está a acontecer ao mesmo tempo, uma coisa permanece simples. Nós não somos amados. Nem bem-vindos. Nem aceites. Porque será que me sinto (outra vez) tão a sós com isso?

 

António Fernando Cascais, Professor na Universidade Nova de Lisboa e investigador queer

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