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Gender Troubles: Como as representações não hegemónicas de género, corpos e sexualidades podem ajudar a tornar um mundo mais habitável

Cecilia Bengolea e François Chaignaud crédito Emile Zeizig

Começou hoje em Lisboa um ciclo inédito: Gender Troubles dedica vários espectáculos, conferências e workshops às questões do género. O ciclo decorre no Teatro Maria Matos e foi pensado quer para académicos quer para o público em geral interessado nestes temas, aproximando, assim, estas questões da sociedade civil ao teatro. O nome desta iniciativa coincide precisamente com o livro homónimo de Judith Butler uma figura incontornável nesta temática. Judith Butler é, de resto, uma das convidadas do Gender Troubles (conferir programa do dia 2 de Junho)

Para sabermos mais sobre este evento que decorre entre 5 de Maio e 24 de Junho fomos falar com Salomé Coelho, uma das responsáveis por esta iniciativa:

 

dezanove: Começou hoje o ciclo Gender Trouble, uma iniciativa do Teatro Maria Matos sobre performance, performatividade e política de género. Porquê dedicar um festival com espectáculos e conferências ao 25.º aniversário do livro de Judith Butler?

Salomé Coelho: Gender Trouble, de Judith Butler, reconfigura a forma de entender o género, o sexo e a sexualidade, pelo reposicionamento conceptual do género como performatividade. A afirmação de que o género não é uma categoria ontológica, mas que “se faz”, que é performance, conduz a transformações profundas na forma de investigar as questões de género e de sexualidade, de intervir politicamente, de entender a performance. 

Um ciclo como o que o Maria Matos propõe, num espaço que não é o dos movimentos sociais ou das instâncias políticas ou académicas (mas que com eles dialoga), proporciona o alargamento do campo de debate sobre as questões de género, corpo e sexualidade, e a sua articulação com a arte. Este alargamento passa por perguntar não apenas por que existem assimetrias de poder entre homens e mulheres; por que se procura eliminar qualquer ambiguidade de género, em favor de um género binário bem definido (que coloca em segundo plano todos os corpos que não sejam masculinos, brancos, heterossexuais)  mas pensar, com Butler e a partir dela, as maquinarias sociais, legais, médicas, artísticas, económicas, políticas, etc., que produzem e que querem fazer passar por naturais (inevitáveis) as diferenças de género, de sexualidade, classe ou "raça". Se o género não "é", mas "faz-se" na acção - performatividade -, o que é que faz o género, então?

Se os discursos e práticas (políticas, legais, artísticas, etc.) se baseiam em identidades criadas por essas maquinarias, de cada vez que se parte do binarismo homem-mulher/ heterosexual-homossexual para reivindicar igualdade, para reivindicar uma transformação social, é possível que estejamos a contribuir para reforçar essa dualidade e a assimetria de poder que ela acarreta, mais do que a questioná-la. É preciso e é urgente, por isso, pensar o que vem "antes" desse binarismo, como é ele construído, como é ele constantemente reforçado e naturalizado pelos diversos dispositivos sociais, legais, médicos, políticos. É isto que Butler sugere e é essa linha que queremos seguir neste ciclo, privilegiando a performance como prática artística que coloca a nu essas dinâmicas e que a elas pode resistir.

Rosana Cane - Walking:Holding

 

Os criadores, encenadores e coreógrafos do nosso país estão sensibilizados para a problemática da expressão de género?

São vários os criadores nacionais que elegem o género como tema central das suas criações, mas nem todas as práticas artísticas que transformam as representações de género, dos corpos e da sexualidade têm uma intenção explícita em trabalhar o género. Alguns desses criadores estão neste ciclo e os seus trabalhos trouxeram questões relacionadas com o género que outras não trouxeram, mesmo que essa intenção não estivesse presente - e talvez isso seja o menos importante num espectáculo.

 

 Lander Patrick - Cascas d'OvO crédito Zürich Tanzt

 

Pode a arte ajudar a fazer passar mensagens de diversidade, conhecimento e awareness ao público?

 

O género é uma das categorias mais fundamentais que temos para ler o mundo e ele está quase sempre presente num espectáculo; pode é estar presente no sentido de nem sequer tocar a representação dominante, pode questioná-la, pode perturbá-la ou pode dar a ver/ouvir/sentir o que até então não tinha espaço para ser existir ou ser reconhecido. A visibilidade do debate em torno do género e da sexualidade pode contribuir para que esse debate cresça e, com ele ou a par dele, que práticas artísticas subversivas da representação dominante possam emergir. A proliferação de representações não hegemónicas de género, dos corpos e das sexualidades - que a arte tão bem sempre estimulou e proporcionou - abre espaço para formas de ser e sentir menos espartilhadas e, com isso, um mundo mais habitável para todos aqueles que não são ocupam o topo da hierarquia social (ocupado pelo homem branco heterossexual). 

 

As conferências serão transmitidas em directo via streaming no seguinte endereço: live.fccn.pt/tmm/conferenciasgendertrouble

E-card do ciclo e o link do programa completo: http://bit.ly/teatromariamatos-mai-jul-15

Mais informação sobre todo o ciclo: http://bit.ly/gender-trouble

 

 

Crédito das Fotos:

Cecilia Bengolea e François Chaignaud - crédito Emile Zeizig

Rosana Cane - Walking:Holding

Lander Patrick - Cascas d'OvO crédito Zürich Tanzt