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Conchita Wurst: “Criatura Geneticamente Modificada” (com vídeos)

Quem o afirma é Angel Dzhambazki, deputado búlgaro recentemente eleito para o parlamento europeu, em entrevista ao One Europe, uma plataforma online informativa sobre assuntos europeus. Dzhambazki foi acolhido pelo grupo de Reformistas e Conservadores Europeus - agora o terceiro maior em Bruxelas - que conta ainda com deputados do Reino Unido, Alemanha e Polónia.

No rescaldo da sétima participação de Conchita em comemorações de orgulho LGBT pela Europa fora, o dezanove.pt quis responder à pergunta que ainda parece andar na cabeça de muita gente: quem, ou o que é Conchita Wurst?

Há dois meses atrás, o alter ego de Thomas Neuwirth, austríaco, 26 anos, era apenas conhecido pelos seus conterrâneos, por entre os fãs da Eurovisão ou por políticos homofóbicos. É provável que todos já adivinhassem a “montanha-russa” (trocadilho intencionado) que seria criada com a vitória de Rise Like a Phoenix, no dia 10 de Maio de 2014 em Copenhaga. Desde então Conchita foi convidada no Graham Norton show da BBC, marcou presença no festival de Cannes, actuou nos festivais de Orgulho LGBT de Dublin, Zurique, Madrid, Viena, Berlim, Antuérpia e Londres (a seguir é Estocolmo), e recentemente defendeu a aprovação do casamento e adopção LGBT.

Ainda assim, Thomas recebe bastante críticas negativas vindas de todos os quadrantes da sociedade, inclusivé da comunidade LGBT, pelo menos em Portugal. De facto, 190 participantes de um inquérito que o dezanove.pt elaborou em Maio discordam que Conchita tenha ajudado a combater preconceitos em relação aos LGBT. O que terá então esta personagem de tão fracturante?

 

 

 

 

A.C. – Antes de Conchita

 Em 2007, o ainda adolescente Tom participa no Starmania (vídeo infra), num programa do tipo Factor X, onde acaba em segundo lugar. Desenvolve pouco anos depois uma personagem feminina, sem seios e com a adição de uma barba que segundo ele seria “um testemunho de que se pode atingir qualquer coisa, não importa quem formos ou como parecermos.” O nome Wurst é inspirado numa frase em alemão que significa “não quero saber”, e Conchita era um nome de uma amiga cubana.

Em 2011 a “mulher barbuda” materializa-se  pela primeira vez noutro programa de talentos (vídeo infra) e um ano a seguir concorre ao festival da canção local, acabando em 2º lugar. Por este altura a personagem já dividia a opinião pública austríaca, particularmente depois da participação em dois reality shows de qualidade contestável.

 

 

 

O início do fenómeno com a proporção actual aconteceu quando a ORF, estação pública daquele país, convidou Conchita para representar o país na edição da Eurovisão deste ano. Pondo à prova a ousadia da escolha, - equivalante em Portugal à escolha de Carlos Costa com a mesma imagem – foi criada uma página Anti-Wurst que arrecadou 30 mil likes no facebook. Ao mesmo tempo, várias petições de países do leste europeu opunham-se à participação do artista.

 

Viva la Diva

Nada fazia prever a vitória de Rise Like a Phoenix, gerada pela ponderação da votação dos telespectadores (50%) com o júri composto por profissionais de música de cada país (outros 50%). Analistas políticos como Clara Ferreira Alves, atribuiram a vitória a factores humanistas e sociais, dos quais Conchita era representante naquela noite, em nome do Oeste, ou da União Europeia, em acesa oposição ao Leste dos países da ex-URSS. A qualidade da canção foi também elogiada, quer pelo seu estilo “bondesco” ou pela cativante letra. A comentadora do programa “O que passa do que Fica”, do canal Q remata: “A Conchita veio dar a isto, outra vez, o velho significado que tinha, que é falar-se do Festival da Eurovisão."

 

Sexo e Género

“Quem diria que apenas uma barba criaria esta confusão toda?”, questiona Conchita. Em 1998 uma transexual – sem barba e com seios – ganha a Eurovisão por Israel, não se qualificando para a final, outra vez, em 2011. Ao longo do anos houve mais actos LGBT, bastantes até: Vera Serduchka, drag queen ucraniana (na foto), fica em segundo lugar em 2007; Marija Šerifović, agora assumidamente lésbica, ganha em 2007 pela Sérvia.

 Porque não houve tanto alarido à volta destes actos? Porque Conchita desejou que a sua representação do feminino fosse levada a sério. Nada na sua actuação naquela noite foi espampanante, excepto a barba, provavelmente o símbolo visível mais viril que existe. O menino torna-se homem quando já tem barba, e é forte quando a barba é rija. E Conchita é um homem gay vestido de mulher bonita. Na sociedade binária do masculino-feminino, Conchita Wurst perturba: ela não é carne nem é peixe; é uma drag queen com “dois corações a bater no meu peito”.


Sobre este tópico, Judith Butler, filósofa e académica americana, começa por separar sexo de género. Segundo ela, sexo é aquilo com que nascemos, enquanto que género é uma representação do mesmo, não sendo por isso estático ou limitado. Ao deixar ficar a barba e não colocar seios postiços, Thomas Neuwirth descontruiu o que é representar o género feminino, porque tal é uma construção artificial. “Não está claro que a construção de “homens” tenha como resultado unicamente corpos masculinos ou que as “mulheres” interpretem só corpos femininos [...] Quando a condição construída do género se teoriza como algo completamente independente do sexo, o próprio género passa a ser um artifício ambíguo, com o resultado de que homem e masculino pode significar tanto um corpo de mulher como um de homem, e mulher e feminino tanto um de homem como um de mulher.”

Respondendo à questão inicial, Conchita Wurst  é e vai continuar a ser uma figura fracturante. Ela desprograma o sistema de género entendido como binário e possibilita a existência de uma multiplicidade de expressões de feminilidade, não associadas à relação sexo-género-sexualidade.  

 

 

  

Documentário do canal público austríaco sobre o fenómeno Conchita Wurst (em alemão):

 
Conferência de Imprensa: Final do Festival da Eurovisão 2014
(Ao minuto 9 a menção a Suzy participante de Portugal e ao minuto 20, a pergunta do repórter do dezanove.pt, Ricardo Duarte, à vencedora):