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Declarações sobre poliamor geram descontentamento e petição. Manuel Damas responde à polémica

O sexólogo Manuel Damas abordou no último dia 16 de Julho o tema do poliamor no programa Sexualidades, Afectos e Máscaras do canal de televisão de cabo MVM. O programa de televisão pode ser visto na íntegra aqui:

 

 

As declarações do também presidente da associação CASA puseram em polvorosa activistas defensores do poliamor bem como vários colectivos e duas associações portuguesas que defendem os direitos LGBT.  

O colectivo Poly Portugal decidiu iniciar um abaixo assinado online que já reuniu 200 assinaturas e que já foi subscrito por 12 organizações, onde se conta um colectivo brasileiro que defende o poliamor. Esta queixa pública em formato de petição online pode ser lida na íntegra aqui e é dirigida à Entidade Reguladora para a Comunicação Social, Ordem dos Médicos, Canal MVM e à Associação CASA.

 

O dezanove.pt entrevistou o visado Manuel Damas para saber como reagiu às acusações públicas de que é alvo e que estão a gerar nos últimos dias grande decontentamento na internet.

 

dezanove: Os subscritores da petição alegam que as suas declarações "não apresentam sustentação científica ou são contra o state of the art científico que lhes diz respeito". Pode esclarecer o que o levou a afirmar a sua posição face ao poliamor?

Manuel Damas: Vamos lá a falar claro. Que queixa pública? Eu sei que se pretende empolar a questão mas eu não vou por aí. Sabe, nós os médicos somos muito pragmáticos. Vivemos de realidades. Convivemos de muito perto com a morte, diariamente. Uma queixa, assim sendo e considerada como tal, tem que ser remetida para os locais próprios e competentes, como tal deixando de ser, só por si, pública. É uma questão de pormenor, pode pensar mas, mensagens subliminares comigo não colam. E os tribunais de julgamento público e sumário, nas Democracias, não existem. Nem as campanhas de ódio. Nem os atentados ao bom nome. E muito menos as tentativas de assassinato de carácter. Por outro lado as queixas, partamos do princípio que irão ser recebidas nas instâncias próprias, perdem a validade quando subscritas por nomes falsos ou ilegais. E não me peça para citar exemplos, porque não o vou fazer.

Passemos agora para a segunda parte da sua pergunta para eu não ser acusado de fugir à mesma. Falemos, então, de minorias com as quais trabalho há mais de vinte anos. Sim, as minorias com as quais trabalho há mais de vinte anos, repito. Sabe, eu não ando nisto por questões ideológicas ou partidárias ou por conveniência. Eu trabalho com isto. É a minha profissão. Se estamos a falar de minorias, verdadeiras minorias e da defesa verídica dos seus interesses então já estamos a falar de assuntos sérios, muito sérios.

Quando há cerca de dois meses mais de 80 académicos europeus juntaram-se para apresentar um manifesto ao Parlamento Europeu a favor da legalização da prostituição. Quem o subscreveu fui eu até porque considero os trabalhadores e trabalhadoras do sexo uma minoria que urge ser protegida e que lhe seja dada a visibilidade merecida. Onde estiveram esses grupos que subscreveram a tal “queixa”, a maioria dos quais sem sequer existência legal, nessa altura?

Quando há alguns dias a Organização Mundial de Saúde veio recomendar o uso indiscriminado de retrovirais em homossexuais um dos primeiros sexólogos a nível mundial a avançar com uma declaração formal de oposição total, fui eu. Claro que a OMS já recuou em toda a linha assumindo o erro publicamente assim como o enorme potencial discriminatório que tal atitude teria. Seria uma grosseira e animalesca discriminação da minoria que é a população homossexual. Onde estiveram esses grupos que subscreveram a tal “queixa”, a maioria dos quais sem sequer existência legal, nessa altura?

Vamos falar de defesa de minorias, a sério? Mas defesa a sério com medidas concretas? Na última reunião do Conselho da Europa sobre questões LGBT a CASA foi convidada e esteve presente. Onde estiveram esses grupos que subscreveram a tal “queixa”, a maioria dos quais sem sequer existência legal, nessa altura?

Quando estivemos recentemente em Berlim a convite do “No hate speech” a discutir questões sérias e reais que afectam a minoria homossexual a nível europeu, onde estiveram esses grupos que subscreveram a tal “queixa”, a maioria dos quais sem sequer existência legal, nessa altura? E é precisamente a mim é que me vêm falar do discurso do ódio? A CASA foi criada, vai fazer cinco anos, precisamente para defender essas minorias, todas, no terreno, com trabalho diário.Com trabalho consistente, sério e, acima de tudo, com resultados visíveis. Que tipo de trabalho concreto e visível têm esses grupos para além de, nas datas precisas, nas datas que dão visibilidade, virem para a rua cumprir calendário para ficarem politicamente correctos na fotografia e para não serem esquecidos? A CASA está aberta, todos os dias, há quase cinco anos, inclusive na Noite de Natal. Foi precisamente por causa das minorias que organizámos, este ano, pela primeira vez em Portugal a 1ª Marcha pela Igualdade. Em que trouxemos para a rua os 20 temas, repito, os 20 grandes temas da Agenda para a Igualdade. Mas quer que lhe fale relativamente à auto-mutilação e ao suicídio. Eu posso falar até porque trabalho, também, com estas vítimas há muitos anos. Eu sei, porque convivo diariamente com eles e elas, o enorme processo de sofrimento, de angústia, de desespero que pode levar alguém a mutilar-se até genitalmente e, eventualmente, a suicidar-se. Eu sei! Não convivo com eles e elas apenas nas manifestações, não lhes roubo o tema quando interessa ter visibilidade. Até porque, deixa-me que lhe diga, as vítimas destroçadas é no meu consultório e no de outros e outras colegas que choram, que gritam o drama da sua existência. É nos nossos consultórios que as vítimas soluçam pelo apoio, pela protecção, pelo conselho, pela estratégia terapêutica, pela ajuda especializada! Pela ajuda especializada, repito! As vítimas não vão para as manifestações! É no meu consultório e nos de outros colegas que as vitimas, as verdadeiras, reaprendem com técnicas específicas a reerguer-se, a sobreviver, ostentando definitivamente no corpo as marcas das auto-mutilações que estarão, para sempre, presentes nos seus corpos, nas suas mentes, nos seus Afectos e desafectos. Essas vítimas não vão para as manifestações carregarem cartões de fraca qualidade porque não houve vontade sequer de os fazer melhores, nem mesmo em nome das tais vítimas que tantos utilizam, quando convém, única e exclusivamente em proveito próprio!

 

Que comentários lhe suscita quando lhe pedem que se demita da CASA e que a direcção da associação que preside peça desculpa públicas aos vários grupos e colectivos que se sentem afectados?

 

Permita-me que corrija a sua pergunta. Ninguém me pediu que me demitisse. Na realidade foi “exigido”, à direcção da CASA, que afastasse o seu presidente da direcção e fundador. Quero dizer-lhe que, até à data, na CASA ainda não foi recebido nenhum documento escrito sobre essa questão. Enquanto presidente da direcção, espero vir a receber a referida comunicação, já tão anunciada, para então lhe poder dar a devida atitude ou seja, levar a questão a reunião da direcção. Mas relativamente à questão do afastamento compulsivo, que é disso que efectivamente se trata, felizmente para a maioria dos portugueses, em Portugal vive-se em democracia. Eu e a equipa com quem tenho o orgulho de trabalhar, fomos eleitos, democraticamente. Algumas pessoas, poucas, felizmente, parecem ainda não ter percebido que a época dos saneamentos já acabou.

 

Mas faz sentido o pedido de desculpas?

 

Eu sou das pessoas que se orgulham em saber pedir desculpas. Faço disso um ponto de honra. Mas peço desculpas quando falho. E falho muitas vezes. Nesta questão não falhei. Há cerca de quatro anos atrás, noutro canal de televisão fiz, também, um episódio sobre “Poliamor”. Nessa altura fui insultado, grosseiramente, de tudo, desde “criminoso”, a “mentiroso” e outros epítetos. Nessa altura os insultadores eram os mesmos. Houve alguma consequência concreta? Logicamente que não. O tempo de queimar o soutien na praça, com consequências concretas, já passou. Apenas ficou, em mim, a enorme revolta da injustiça e a mágoa…mas essa fica comigo. Creio que se lembra que, também por uma questão desse género fui, há anos, espancado violentamente, por quatro encapuçados, quando saía da televisão no fim de fazer mais um “Sexualidades, Afectos e Máscaras”. Foi um acto de denúncia pública, com documentos oficiais e, comigo, a verdade nunca fica para trás, custe o que custar. Mas já passou. Desta vez a reacção foi muito mais mole… esta repetição do passado já vem requentada. Com o passar do tempo as pessoas ganham outra consistência, crescem e amadurecem. Arranjam emprego, passam a ocupar os seus tempos de forma mais saudável e produtiva, menos irreverente. E deixam de ter tempo para estas questões menores. Mas, claro, sobram sempre os fundamentalistas e esses são sempre os mesmos. E há, ainda, aqueles, em núcleo muito pequeno, que são os directamente interessados e esses, logicamente, saltam em defesa do seu próprio interesse, do seu próprio “establishement”. Mas esses, não têm, sequer, distanciamento afectivo em relação ao tema tão só e apenas, por nele terem interesses óbvios…pelo menos enquanto se conseguirem manter objecto do afecto.

 

Como vê os grupos e colectivos que o estão a acusar?

 

Vamos falar a sério e com frontalidade que é como eu gosto mesmo? Sabemos bem que esses “vários grupos e colectivos” mais não são do que meia dúzia de pessoas, sempre as mesmas, que pertencem, transversalmente, aos diversos grupos em simultâneo. Mas falando desse pequeno contingente…há entre esse pequeno grupo pessoas com formação na matéria e, acima de tudo, com provas dadas no terreno que lhes permita emitir pareceres cientificamente credíveis sobre o tema? É que opinar é um acto de Democracia mas sem qualquer credibilidade científica. Uma outra questão que precisa de ser aflorada…destes “vários grupos e colectivos” quais têm existência legal? Quais são legalmente constituídos? Quais têm personalidade jurídica? Quais existem, efectiva e concretamente? Um? Dois? Mas estes grupos sentem-se afectados porquê? Será desfrute em causa própria. Não. A CASA não pede desculpas a quem não reconhece nem autoridade nem credibilidade… já para não falar em legalidade. Quem poderia ter direito a um pedido de desculpas formal seria eu mas, sinceramente, tenho maiores e mais importantes preocupações em mãos.

Sabe, eu não sou imune às críticas e sou, ainda por cima, o meu mais terrível crítico. Mas não tentem brincar comigo que eu não admito. Nem comigo e muito menos com a minha profissão. Isso não admito a ninguém. A CASA é o sonho de uma vida. Tem 20 anos de sonho e agora cinco anos de existência concreta no terreno. 

 

Recebeu alguma notificação ou alerta por parte do canal MVM ou da Ordem dos Médicos?

 

Obviamente que não. Aliás já fiz mais um programa do “Sexualidades, Afectos e Máscaras” após esta mini pseudo polémica na televisão e tudo decorreu normalmente. Nem outra coisa seria de esperar. Por último deixo uma frase de uma paciente, vítima do poliamor, que me foi enviada ontem para o e-mail como manifestação de solidariedade. “As pessoas gastam demasiado tempo a tentar acreditar nas mentiras que inventam!” 

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