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Entrevista a Carlos Costa: “A minha família desde o início sempre me apoiou”

Carlos Costa participou nos Ídolos (SIC) e no The Voice (RTP1). A sua prestação não foi indiferente ao público. No último programa, a vida pessoal de Carlos Costa passou para as revistas. O dezanove quis saber um pouco mais sobre o cantor numa entrevista descontraída.

 

dezanove: Como lida a tua família com o tema da tua orientação sexual?

Carlos Costa: A minha família desde o início sempre me apoiou em tudo e em todas as decisões que tomei, sempre com os melhores conselhos possíveis, como qualquer mãe, pai ou irmão. Eles têm sido impecáveis, mas sofrem imenso com os comentários que tecem a meu respeito e com certos ataques que eu sofro directamente. Sempre lidaram bem comigo enquanto pessoa e enquanto artista.

 

Passaste por algum episódio de bullying na escola, no trabalho ou até no The Voice?

Na escola quando era miúdo, porque os miúdos são mauzinhos, mas é simplesmente por ignorância. No trabalho sempre senti um tratamento diferente por parte de algumas pessoas que respeitam pessoas LGBT, mas que não me aceitam e não me compreendem, apenas mantêm um relacionamento mais distante. Porém, nunca senti bullying no trabalho.

 

Já tentaste perceber a razão desse tratamento mais distante?

Várias vezes. Ao longo do tempo tento provar que sou uma pessoa igual às outras e acima de tudo com o meu trabalho para que eles vejam que não têm razão para esse tipo de tratamento.                              

 

Como reages aos comentários homofóbicos e transfóbicos online, sobretudo depois de assumires uma relação de oito anos com um homem?

Em primeiro lugar, essa relação não foi assumida por mim. Tratou-se de um e-mail anónimo que surgiu na altura que estava no The Voice.  Nunca quis falar disso publicamente, mas quando me confrontaram com o assunto, não quis mentir.

 

Então uma revista publicou uma história sem nunca te ter consultado?

Não, as revistas ligaram-me várias vezes, mas eu nunca confirmei. Tentei sempre desviar o assunto. Mas distorceram o que eu disse. E claro que tentaram aproveitar o assunto ao máximo.

 

Como foi a abordagem na rua após ter sido divulgada esta relação?

Na rua, as pessoas evitam perguntar e quem tem à vontade, pergunta algo do género: “As revistas, mentem, não mentem?” Não podemos acreditar em tudo o que lemos nas revistas ou na imprensa cor-de-rosa. O facto que é que isto é baseado na verdade.

 

Mas por que razão nunca decidiste falar publicamente nesta relação no passado? Por que razão teve de acontecer um episódio como esse para te forçar a falar de uma relação?

Porque há o outro lado da moeda. Eu posso querer, mas o outro lado pode não querer tornar o assunto público e ser exposto. Trata-se de uma questão de respeito mútuo.

 

E em relação aos comentários negativos como reagias e como reages agora?

No início ficava muito triste e magoava mesmo. Agora tenho pena. Tenho pena pela ignorância das pessoas. E não estou a dizer isto para parecer indiferente. E lamento que as pessoas não pensem que um dia possam ter na família um filho, um irmão, etc. LGBT.

 

Já viveste em várias zonas do país. Para ti é mais fácil ser gay em Lisboa, Porto ou na Madeira?

Talvez Lisboa, porque as pessoas vivem mais facilmente com isso, porque as pessoas aceitam de forma mais indiferente. É o centro da aceitação do tema.

 

Foram essas as razões da tua vinda para Lisboa?

A razão da vinda para cá foi essencialmente profissional, porque é em Lisboa que existe tudo: estúdios, as grandes produções, os programas, etc. Para crescer no meio tinha de estar cá.

 

Nunca pensaste em interpretar um tema contra a discriminação ou sobre a orientação sexual ou identidade de género?

O meu primeiro álbum, que era mais juvenil e em português, tinha algumas mensagens a esse respeito. Na altura, era mais imaturo e neste álbum falava de igualdade e de sermos livres à nossa maneira. Neste segundo álbum já falo imenso nisso de forma mais directa. O objectivo é transmitir mensagens reais.

 

O que pensas sobre a adopção de crianças por casais de mesmo sexo?

Acho muito importante. Já ouvi muitos argumentos contra e a favor, mas a questão mais importante é que todos temos os mesmos direitos e mais vale uma criança ser amada e ter as mesmas oportunidades do que as outras crianças do que passar a vida num orfanato. Por isso sim, sou totalmente a favor.

 

O Carlos Costa músico é diferente do Carlos Costa fora do palco?

É um bocadinho diferente, não é totalmente. O Carlos é uma pessoa simples, tranquilo, brincalhão, extrovertido, etc. O Carlos Costa é uma personagem mais distante, mais arrogante, é diferente, mas tem pontos em comum com o Carlos. Há uma projecção dos meus gostos pessoais na minha na personagem Carlos Costa.

 

Vais moldando a personalidade segundo os artistas que interpretas e de que fazes covers?

Sinto-me influenciado pelos artistas que interpreto, claro. Não são só os artistas que se sentem influenciados por pessoas que admiram, mas eu tento mostrar o meu gosto pessoal e inovar. Tento seguir as tendências que existem. Se eu gosto de ser diferente dos outros muito bem, mas se as pessoas querem ser iguais aos outros, muito bem também. Cada um deve ser como quiser, isso não tem mal nenhum. O mais importante é sentirmo-nos bem connosco próprios.

 

Que influências teve o álbum que lançaste no ano passado? Que autores te influenciam?

Sou influenciado por vários géneros do fado ao rock e tudo isso me influencia. As referências internacionais são a Rihanna e a Beyoncé. Em termos de autores são imensos. Adoraria tomar um café com vários e conversar para pedir conselhos. Neste segundo álbum junto tudo isso com a minha irreverência pessoal, porque no primeiro foi tudo muito controlado.

 

Participaste num festival de música na Rússia, o Pirogosky Rassvet, que ganhaste com o tema “Sexy”. Como é que isto surgiu?

Fui contactado por um grande compositor cipriota que já participou em inúmeros festivais da Eurovisão e que quis sugerir o meu nome à comitiva brasileira, porque queria um cantor e bailarino, porque tinha visto vídeos meus. Aceitei depois de saber as datas. No início não sabia muito bem ao que ia, mas foi uma experiência muito positiva. A comitiva ia muito motivada para ganhar!

 

E porque não foste a representar Portugal?

Portugal não costuma participar, mas o ano passado por acaso participou com o José Abreu que foi um braço direito na Rússia. Ele apoiou-me imenso porque estávamos num país onde ninguém fala português.

 

Como sabes, a situação na Rússia pauta-se por uma série de restrições aos Direitos LGBT e houve algumas críticas devido à tua presença lá. Como reages a isso? Não tiveste medo?

Acima de tudo tentei demostrar que sou um rapaz porreiro e bacano igual todos os outros. Senti medo em algumas situações, sobretudo no hotel, onde estavam uns desportistas dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi que estavam a decorrer e senti pressão devido ao meu visual. O participante da Polónia desistiu por causa disso. A seguir pensei em desistir, mas não o fiz. Foi na altura que surgiram algumas mortes e ataques de homossexuais. Por isso pensei que a mensagem seria mais forte se participasse.

 

Aqui a questão é que a simples manifestação de afectos pode implicar pena de prisão ou multas.

Mas eu fui para a Rússia cantar e dançar. Não fui para ter posturas ou manifestar afectos.

 

Há diferenças entre o Carlos Costa antes e depois dos Ídolos?

O Carlos Costa no Ídolos era um rapaz que queria provar o seu valor antes de qualquer coisa, mesmo antes de vencer o programa. Não só valor artístico, como bailarino, etc. Era uma Carlos mais meticuloso, mais pensado.  Depois disso, tudo se tornou diferente, mais fluído. O Carlos de hoje, do The Voice é mais natural, mais maduro, mais pausado.

 

O que ficou da experiência de entrar nestes programas de TV?

Do Idolos ficaram os fãs, o carinho dos fãs. Negativamente ficou o cansaço e a pressão dos media. Do The Voice fica uma experiência brutal e humana, ficaram verdadeiras amizades e carinho entre colegas. Não senti uma grande competição o que ajudou a uma grande experiência humana, como disse.

 

Quais são os prós e os contras de um artista se assumir homossexual em Portugal?

Há pessoas que acham que ser homossexual não vende. As pessoas têm medo da discriminação. Houve uma pessoa que me disse no dia que saí do The Voice que as pessoas não estão preparadas para a homossexualidade em Portugal. É uma pessoa importante do meio musical. Mas eu não acredito nisso. 

 

Sofreste discriminação em algum concerto teu?

Entre centenas de pessoas há sempre alguém que gosta de se armar em engraçadinho. Eu próprio já me rio das piadas. Acredito que muitas dessas pessoas querem é atenção.

 

Sentes-te apoiado pela comunidade gay nacional?

Não. Não sou o protótipo gay nacional. Eu não quero que as pessoas pensem que ser homossexual é ser igual a mim. Se nós não queremos ser discriminados, não podemos discriminar. Acho é que os próprios homossexuais são muitos discriminatórios para eles próprios. Li comentários discriminatórios, inclusive no dezanove, de pessoas que se assumem homossexuais e que me criticam porque não gostam do meu visual. Lá está: são pessoas que não me conhecem porque este visual tem um contexto.

 

Então em 2014 ainda assistimos a discriminação com base no vestuário e na aparência, é isso?

Sim.

 

E que atenção dás a esse tipo de comentários?

Não dou. Dá-me pena. 

 

E para fechar, na tua opinião, o que pode a Conchita Wurst fazer pela comunidade LGBT?

Se o Thomas se reduzisse a apresentar-se como um homem, seria apenas mais "rapaz cheio de tiques esquisitos" segundo o povo. Apresentando-se com vestidos e perucas seria um mero "travesti". Assim, com a barba, marca a diferença, chama a atenção para aquilo que é realmente importante: a sua carreira, a sua mensagem e a igualdade. Trata-se de uma jogada extremamente inteligente. É uma personagem muito bem criada. Mas tenho a opinião que  não criou a Conchita como um grito de revolta da comunidade. Apenas o fez para chamar a atenção sobre si mesma, acabando por se tornar num ícone gay inevitavelmente.

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