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Erlingur Óttar Thoroddsen: “O género de terror tem muitas conexões com um público LGBT” (com vídeo)

 

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Está quase a chegar mais uma edição do MOTELX. Entre outros filmes LGBT, este ano será apresentado, “Rökkur” de Erlingur Óttar Thoroddsen. O dezanove conversou com o jovem realizador islandês sobre a sua relação com o cinema, o cinema de terror e o cinema LGBT.

 

A competir para o Prémio Melhor Longa de Terror Europeia / Méliès d'Argent em mais uma edição do festival de Lisboa, “Rökkur” (“Rift”, 2017, Islândia) conta-nos a história de um relacionamento acabado e cujos sentimentos ainda persistem, num ambiente desesperante de sobrevivência, numa atmosfera finita.

Em “Rökkur”, Gunnar recebe uma chamada estranha do ex-namorado, Einar. Gunnar mete-se no carro e vai ao encontro da casa isolada onde Einar se refugiou. Ao reencontrá-lo, depressa se apercebe de que algo de mais sério se passa. Enquanto os dois homens tentam remediar a relação, um estranho parece estar a rondar a casa, com vontade de entrar. Erlingur consegue sintetizar os elementos de vários géneros tendo como pano de fundo as paisagens belas e sombrias da sua ilha natal, criando uma experiência cinematográfica intensa. O filme é exibido, quinta-feira, 7 de Setembro, às 21h35, no Cinema São Jorge, Sala 3, e repete no dia seguinte, às 16h45, na mesma sala, com a presença do realizador.

 

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dezanove: "Rökkur" é a tua segunda longa-metragem. Porquê um filme de terror novamente? E porquê uma história gay?

Erlingur Óttar Thoroddsen: Os filmes de terror têm sido a minha paixão desde criança. Em miúdo, nos clubes de vídeo, percorria todas as capas de filmes de terror, mas por ser ainda muito novo para os alugar, inventava histórias sobre o que aconteceria nos filmes. E agora, 25 anos depois, ainda invento histórias de terror na minha cabeça! Também gosto de todos os tipos de filmes ... mas o horror é o meu primeiro amor. Eu queria contar uma história gay por várias razões. Uma das principais foi não haver muitos filmes gay na Islândia. Queria mudar isso, contando uma história sobre dois homens adultos já fora do armário e que tiveram um relação entre si, em vez de uma história de "coming out". Eu próprio sou um cineasta gay e mesmo que tenha havido muito progresso em termos de representação LGBT no cinema, sinto que não há ainda a suficiente – especialmente no género de terror. Como este era um filme muito pessoal para mim, queria fazer algo que eu próprio adoraria ver.

 

A propósito do teu filme, o site do MOTELX refere que "filmes de terror LGBT não aparecem todos os dias". Porque achas que isso acontece?

Uma das razões pode ser pelo facto de haver menos pessoas LGBT a realizar filmes de terror do que pessoas heterossexuais, embora eu tenha a certeza de que há muitas pessoas queer a fazer filmes de terror hoje em dia. Outro motivo é que ouvimos muitas vezes que as histórias gay não são suficientemente mainstream, e que não conseguem atrair uma grande audiência. Não acho que isso seja necessariamente verdade. Sinto que tivemos vários filmes gay muito populares no passado, mas tem sido um processo de aprendizagem relativamente lento. Na verdade, acho que o género de terror tem muitas conexões com um público LGBT – é tudo sobre impulsos reprimidos, monstros no armário, medo do desconhecido, etc. É também um género que celebra o desconhecido e o estranho – muitas vezes os "marginais" acabam por ser os heróis do filme. E às vezes os monstros são os heróis. Eu acho que o cinema de terror em geral gosta de brincar com as suas próprias regras: as surpresas e os eventos inesperados são encorajados. O que me parece ser também um factor definidor da cultura LGBT.

 

Como é que o facto de ter um casal do mesmo sexo nos papéis principais desta história pode ser visto? Vês nisso um factor estruturante para o argumento ou, pelo contrário, poderia ser um casal de pessoas de sexo diferente?

É uma questão interessante, até porque, em conversas com outras pessoas, já deu azo a respostas nos dois sentidos. Algumas pessoas pensam que poderia ser "qualquer casal", e que ser gay não é importante. Mas também há outros que pensam o contrário – num festival, um senhor disse-me que sentiu que o filme era "particularmente gay". Pessoalmente, acho que há mesmo coisas sobre Gunnar e Einar e o seu relacionamento que são "particularmente gay", e que talvez escapem a alguns espectadores heterossexuais. Mas, ao mesmo tempo, é uma história sobre um amor que esmoreceu, algo que é uma coisa universal e que todos podem entender, independentemente da sua sexualidade ou género. Os personagens foram muito inspirados por alguns dos meus próprios relacionamentos, de modo que são muito especificamente gay. Mas uma regra sobre os filmes é que, quanto mais específica for a história, mais universal é a sua mensagem.

 

Como é que neste momento a cena LGBT na arena cultural da Islândia?

A vida LGBT na Islândia é, em geral, fantástica. Desde a década de 1990, a Islândia tem sido um dos principais países quando se trata de mudar leis e regulamentos para incluir pessoas LGBT, pelo que, actualmente, estamos em pé de igualdade perante todos os restantes cidadãos do nosso país. Diria que a maioria dos islandeses são super-abertos na aceitação de todo o tipo de pessoas LGBT. O festival Reykjavik Pride é o segundo maior festival ao ar livre em todo o país. Há sempre quem não entenda, ou não queira entender, mas, em geral, a cena LGBT é muito saudável, aberta e activa. O único problema é que só temos um bar gay em todo o país.

 

Luís Veríssimo