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Estudo sobre orgias entre homens: “Para participar em orgias tem que ser macho, discreto e puto”

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As orgias entre homens no Rio de Janeiro são o tema de estudo do brasileiro Victor Hugo Barreto. O antropólogo, que está a concluir o doutoramento sobre o assunto na Universidade Federal Fluminense no Brasil, encontra-se actualmente em Lisboa como pesquisador associado ao CRIA - Centro em Rede de Investigação em Antropologia. Em entrevista ao dezanove.pt, explica as regras e princípios destes encontros que podem ter até 200 homens.

 

“Ao contrário do que se imagina, uma orgia não é um lugar ou um evento de desordem, anárquico onde impera o descontrolo. Muito pelo contrário. Existe uma série de normas, a maioria implícitas”, diz. Entre essas normas está a ausência de discurso sobre homossexualidade ou direitos LGBT. “A preferência generalizada é por homens ‘straight acting’, ou seja, homens que, ainda que façam sexo com outros homens, não sejam afeminados, que supostamente passem por heterossexuais”, descreve Victor Hugo Barreto.

 

dezanove: Decidiu avançar com uma tese de doutoramento em Antropologia sobre orgias entre homens no Rio de Janeiro. Porquê o interesse por esta área de estudo?

Victor Hugo Barreto: A ideia de uma pesquisa sobre festas de orgia veio por dois motivos: o primeiro, por ser uma continuidade da minha pesquisa anterior no mestrado sobre prostituição masculina. Há um circuito do sexo que perpassa por qualquer metrópole, nem sempre estabelecido por uma rede de mercado e comercialização, e que se diversifica a depender dos estilos e daquilo que se deseja: sexo anónimo em lugares públicos, cinemas porno, cabines eróticas, saunas de prostituição ou de engate, estacionamentos, parques, casas de banho, clubes, praias, ruas, enfim, a lista é grande. Como até então só conhecia os espaços voltados para a prostituição masculina, quis dar preferência às práticas sexuais que não se estabelecessem a partir de uma troca monetária, foi aí que cheguei às reuniões de sexo em grupo ou colectivo.

 

E qual foi o segundo motivo?

Seria o de entender a necessidade de se perder o preconceito com estudos relativos às práticas sexuais. O sexo é um dos últimos tabus que a ciência ainda se coloca para estudos. Se a prática é tão importante para um considerável número de pessoas, porque não seria algo digno de estudos?

 

Pode explicar um pouco que ambiente é esse das orgias no Rio de Janeiro?

O desenvolvimento desse trabalho deu-se do acompanhamento durante dois anos e meio, do início de 2013 à metade de 2015, de quatro dessas festas de orgia que acontecem periodicamente no Rio. Elas acontecem cerca de uma ou duas vezes ao mês em diferentes locais da cidade como saunas, clubes, prédios comerciais, quintas ou barcos. Dessas quatro festas, duas fazem o que eles chamam de processo selectivo. Há uma escolha ou avaliação do público que pode entrar no evento. As outras duas não, são abertas a quem quiser ir, desde que corresponda à exigência de ser homem e a um perfil desejado. O número de participantes varia muito, mas fica em torno de 150 a 200 homens naqueles eventos que não exigem selecção e no máximo 50 naqueles onde há o processo selectivo. O facto dessas festas serem exclusivas só para homens é algo que chama a atenção. Não encontrei espaços que organizassem eventos assim para públicos mistos ou só para mulheres. Existem cubes com a prática do swing, mas isso é outra coisa, outra prática com normas e regulamentos próprios.

 

O número de participantes varia muito, mas fica em torno de 150 a 200 homens naqueles eventos que não exigem selecção e no máximo 50 naqueles onde há o processo selectivo.

 

Ficou surpreendido com a dimensão desses encontros?

O que mais me surpreendeu foi a extensão dessas festas que acontecem na cidade e ao mesmo tempo a quantidade sempre diferente de participantes. São usos possíveis da cidade e experimentação de práticas sexuais que a maioria das pessoas ignora que aconteçam.

 

É possível identificar quais são as regras de funcionamento das orgias entre homens?
Ao contrário do que se imagina, uma orgia não é um lugar ou um evento de desordem, anárquico onde imperaria o descontrolo. Muito pelo contrário. Existe uma série de normas, a maioria implícitas, que podem ser observadas nesses contextos. Desde o início do trabalho de campo procurei perceber em torno de quais elementos se centralizava aquilo que os participantes da festa tinham como importantes para a prática do sexo coletivo nesses espaços. Foi assim que cheguei naquilo que estou chamando de “princípios” dessas festas.

 

Que “princípios” são esses?

Os “princípios” funcionam como pontos nodais aqui, eles dão directrizes não só de performance, mas da própria ética local, balizando as relações entre os participantes. São eles que potencializam as interacções sexuais, que são fonte de conflitos, que dão conteúdo e expressão a essas festas e que, ao mesmo tempo, podem se apresentar tanto como norma quanto como possibilidade de linhas de fuga. São três: o princípio da masculinidade, o da discrição e o da putaria. Para poder participar nessas festas você tem que corresponder a esses princípios, tem que ser macho, tem que ser discreto e tem que ser puto (esse termo com um significado bem diferente do contexto usado em Portugal). Nesses princípios estão embutidos, entre outras coisas, roteiros de desejo, formas de relação, maneiras de se portar, toda a ética local, etc.

 

Essas regras são de tal forma diferentes que não têm paralelo, por exemplo, com o que se passa em saunas ou em locais de cruising?
Acredito que as festas de orgia têm as suas especificidades. Claro que possuem muitas semelhanças com esses outros espaços de sexo disponíveis nas grandes cidades, mas essas festas não são organizadas para serem eventos quotidianos. São eventos onde um grande grupo de homens se reúnem para se ligarem numa prática de sexo colectivo. Chamam a atenção por diversos motivos. Logo de início fiquei muito surpreendido pela quantidade de homens que se reuniam nesses espaços para se ligarem numa forma de sexo totalmente oposta aos modelos tidos como padrões e onde o que importava era aquele encontro e mistura de corpos anónimos e desconhecidos, o puro prazer que o corpo do outro pode proporcionar. Aqui a palavra falada quase desaparece, a linguagem toma outros meios como os toques e os gestos. A visão é desprivilegiada pelo tacto, e o cheiro e a audição tornam-se mais sensíveis e são estimulados pela multidão de corpos misturados no sexo colectivo.

 

Aqui a palavra falada quase desaparece, a linguagem toma outros meios como os toques e os gestos. A visão é desprivilegiada pelo tacto, e o cheiro e a audição tornam-se mais sensíveis e são estimulados pela multidão de corpos misturados no sexo colectivo

 

Os homens que frequentam essas orgias identificam-se como homossexuais? As questões relacionadas com a identidade gay ou direito LGBT estão presentes nesses encontros?

Esse é um dos pontos mais sensíveis e controversos dessas festas. Ali existe uma busca por uma figura de macho já estereotipada e ao mesmo tempo um afastamento por qualquer coisa que lembre um "jeito afeminado" ou algum activismo político, já que pouco se percebe esses eventos como algo ligado a um universo exclusivo homossexual ou gay. É complexa uma discussão identitária nesse contexto, porque ainda que ela não se faça, no sentido de que não se busca um determinado modelo identitário, esses outros modelos já existentes e possíveis atravessam e convivem nesse espaço causando algumas irrupções de tensão.

 

Pode dar exemplos dessa tensão que a homossexualidade causa nestes homens que têm sexo com homens?

Percebi várias vezes isso com a reprodução de discursos homofóbicos e mesmo misóginos e de discursos de defesa política. O que causaria problema nesse contexto não é o desejo homossexual (o desejo ou vontade erótica com o outro do mesmo sexo), é o medo da homossexualidade (enquanto categoria classificatória e identitária agregada a valores desprestigiados). O que vejo nessas festas é um esforço de desidentificação com essa imagem anterior e mesmo a qualquer imagem gay. Há um esforço por uma apresentação de homem macho e discreto que não perturbe as convenções de género e que não chame a atenção para nenhum tipo de rotulação estigmatizante ou bandeira de luta política, que passe por um “homem normal”. Há um desejo de não ser marcado sexualmente e que só pode ser possível na medida em que se reproduz a generificação heteronormativa. Claro que, ao mesmo tempo, estamos a falar de uma festa de orgia exclusiva para homens e onde essa masculinidade é tão exagerada que chega a ser paradoxal.

 

O que causaria problema nesse contexto não é o desejo homossexual, é o medo da homossexualidade.

 

O que quer dizer com isso? Ficou surpreendido com essa necessidade de hiper-masculinidade?

Já que esses eventos partem da exclusão da figura da mulher, o que incomodaria e a todo momento se esforça por distanciar, seria essa figura ambígua do homem afeminado. A preferência generalizada é por homens “straight acting”, ou seja, homens que, ainda que façam sexo com outros homens, não sejam afeminados, que supostamente passem por heterossexuais, que sejam “palpavelmente masculinos”. Acontece que o princípio da masculinidade como é aqui colocado não é algo muito diferente daquilo que é colocado como no restante da sociedade. E isso foi uma das coisas que mais me surpreenderam, a reprodução de discursos heteronormativos num lugar como esse. Eles diziam-me: “Você até pode ser gay lá fora, mas aqui não”. É um desejo reiterativo pela norma. Não há uma busca transgressora no sentido de procurar formas revolucionárias de ser homem. Muito pelo contrário, há uma busca pela figura normativa de homem, de uma “natureza própria e verdadeira” desse homem, seja ela entendida e chamada de “heterossexual”, de “macho” ou de outros nomes fetichizados. É essa figura que é desejada e que se busca forjar aqui. A questão é que esse valor de masculinidade funciona nesses espaços como uma caixa de ressonância. Ele amplia-se e é elevado a outras potências.

 

Como assim?

Espera-se que você aja ou seja mais homem que a imagem do homem másculo e viril comum no quotidiano. Alguns autores marcam isso como valorização de uma hipermasculinidade ou hipervirilidade. Eu prefiro dizer que aqui, no contexto das festas de orgia, o que se pratica é uma masculinidade exagerada. A escolha do adjectivo de exagero é para que se perceba que o ser macho aqui é tão grande que pode alcançar níveis paradoxais, que essa figura de macho é uma performance exagerada que chega a ser uma paródia. A força da paródia está tanto na reprodução quanto na desconstrução. Não são todos que conseguem ser macho desse jeito ali, até porque essa figura de masculinidade não existe na realidade.

 

No contexto das festas de orgia, o que se pratica é uma masculinidade exagerada. A escolha do adjectivo de exagero é para que se perceba que o ser macho aqui é tão grande que pode alcançar níveis paradoxais

 

Como funcionou o trabalho de campo? É inevitável perguntar que se ficou pela observação ou pela participação…

A Antropologia tem uma tradição de estudos etnográficos, onde é essencial para o pesquisador a fase do trabalho de campo. Ou seja, para saber como funcionam as coisas você precisa estar inserido directamente na realidade estudada onde poderá observar e vivenciar entre seus interlocutores aquilo que é feito, dito, pensado, etc. Eu entendo que uma pesquisa nesses termos sobre práticas sexuais, acabe gerando alguma curiosidade maior, ou mesmo um preconceito e rejeição por parte das pessoas. Isso tem muito a ver com a maneira como lidamos com a nossa sexualidade, de algo íntimo, privado, secreto, ou ainda, como se fosse algo da natureza e que não precisasse ser estudado. Não nos damos conta do quanto a nossa sexualidade e o nosso desejo são sociais e culturais. E para perceber isso, em toda a sua complexidade, é preciso estar lá estudando. Respondendo à sua pergunta sobre a participação: estar ali já é participar, mesmo eu querendo ou não. Esses homens vão para esses lugares pelo prazer de ver e serem vistos a fazer sexo. Para eles eu estou a participar daquela cena, não importa se eu estou ali pela pesquisa. Eu sou só mais um corpo no meio daqueles outros. Eu não me diferenciava, não podia ficar com um caderno anotando ou com um gravador, separado de todos. E nessas festas cada um tem o seu limite, ninguém é obrigado a fazer nada que não queira.

 

Qual foi a reacção ao nível da universidade perante esta proposta de doutoramento?
Para quem estuda temas relativos à género e sexualidade, o deboche e a desconfiança são coisas que você é obrigado a lidar, dentro e fora da universidade. Todas as vezes que comentava sobre a minha pesquisa, durante esses anos, formal ou informalmente, dentro ou fora do ambiente académico, mais do que dúvidas sobre as minhas análises do campo, o que mais ouvia eram questionamentos colocados das mais diferentes formas: irónicas, agressivas, surpreendidas, desconfiadas, etc, sobre as minhas motivações e condições em que foi feito o trabalho de campo e da credibilidade do meu trabalho. Para quem está fora do meu campo, a minha pesquisa é apenas uma desculpa para falar e fazer sexo. Dizem que é um tema menor, fácil, moralmente condenável e em última instância um desperdício de tempo e recursos públicos. Acredito que há alguns motivos estruturais para isso, principalmente tem a ver com um entendimento positivista que se costuma ter sobre o que é “ciência de verdade” e ao mesmo tempo, da forma como nós lidamos com a nossa sexualidade historicamente.

 

Entrevista realizada por Rui Oliveira Marques

 

 

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