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“Flesh Mag”: A nudez masculina sem artifícios

revista Flesh Mag.jpg

A nudez masculina está em voga no Brasil. A “Flesh Mag” é uma revista digital de fotografia e arte erótica que merece a nossa atenção. Não espere encontrar unicamente corpos de ginásio. Photoshop também está fora de questão. A proposta é dar destaque a corpos reais sem qualquer artifício. Quinzenalmente é publicado um ensaio com um modelo e uma proposta diferente porque o mais importante é a diversidade. Estivemos à conversa com o Rafael Medina e João Maciel para conhecer um pouco melhor este projecto que está a ganhar cada vez mais seguidores.

 

dezanove: Como foi o vosso percurso individual na descoberta da paixão pela fotografia?

Rafael Medina: A minha descoberta foi meio por um acaso. Comprei uma câmara digital cerca do ano 2000 logo quando a febre das digitais começaram. Era uma Kodak sem vergonha de 2 megapixels (risos). E ao começar a fotografar deparei me com um mundo novo que me encantou. Comecei a estudar e a pesquisar referências de fotografia. Na época comecei a levar a câmara para as festas onde ia e ali começou tudo.

João Maciel: Minha paixão começou quando ganhei minha primeira câmara digital também por volta do ano 2000, uma Casio e acabei por me interessar em fotografar pessoas na rua, em festivais que eu ia com os meus amigos e nas praias do Rio de Janeiro. Depois comecei a trabalhar como assistente de fotografia e foi quando me decidi profissionalizar.

 

Quando iniciaram essa parceria profissional?

João e Rafael: Iniciamos nossa parceria há aproximadamente 2 anos. Quando um produtor de festas aqui do Rio de Janeiro nos convidou para fotografarmos as festas dele. Nós já nos conhecíamos há mais de 10 anos mas não eramos muito próximos. A parceria acabou se tornando uma grande amizade!

 

Como decorreu o processo de elaboração do conceito do projecto?

João e Rafael: O conceito do projecto nasceu de um incómodo pessoal. Percebíamos que na grande maioria dos trabalhos de fotografia de nu masculino imperava uma certo modelo hegemónico de corpo e de beleza, que acaba por corroborar para a baixa auto-estima de pessoas que tem corpos que não atendam a esse padrão estabelecido. Deste incómodo surgiu o desejo de dar visibilidade a uma diversidade maior de homens e celebrar a pluralidade dos corpos.

Flesh Mag 3.jpg

A “Flesh Mag” foi idealizada para algum público específico? Noto nos comentários a presença de vários homens e mulheres que acompanham este trabalho.

João e Rafael: A Flesh não foi idealizada para nenhum público específico. Naturalmente, como o nosso objecto de interesse é o nu masculino acaba que temos uma audiência predominantemente gay e também mulheres.

 

A nudez feminina sempre foi amplamente divulgada pelos órgãos de comunicação social nas últimas décadas em detrimento da masculina. É difícil despir um homem?

João e Rafael: É difícil despir-se. De maneira geral, mas também em particular no caso do homem, o corpo é interditado ao público. Determinadas partes do corpo são moralizadas, como se o pénis fosse algo mais reprovável do que o joelho. É uma construção social e religiosa que inibe a pessoa de libertar o seu corpo. Tentamos mostrar aos modelos que o corpo é algo absolutamente natural, aliás é a coisa mais natural que você pode ter. Conversamos bastante e tentamos criar um ambiente de conforto para que não se sintam constrangidos em se despir. O relato dos modelos é surpreendente, eles se sentem livres. Ficar nu publicamente é libertador!

 

Abordar um desconhecido para participar num projecto com estas características é fácil? Nunca tiveram uma reacção inusitada?

João e Rafael: Não é fácil! No início chamámos amigos e pessoas próximas. Quando a revista saiu ficou mais fácil porque muitas pessoas se ofereceram para posar. Foi até surpreendente, não esperávamos que isso acontecesse. De qualquer forma quando temos que abordar um desconhecido é sempre uma situação delicada. Precisamos ter muito jeito ao falar para não assustar a pessoa, normalmente convidamos a pessoa a conhecer o projecto antes de chamá-la. Às vezes é engraçado quando abordamos alguns homens que acham que o convite é uma cantada [engate] o que não deixa de ser verdade porque se chamamos é porque vimos alguma coisa interessante e imageticamente nele. (risos)

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Que característica(s) fundamentais um modelo deve ter para participar num ensaio da “Flesh”?

João e Rafael: Que seja biológica ou psicologicamente homem!

 

Não estão presos a um estereótipo imposto pela sociedade de corpo perfeito. A diversidade é o mais importante e todos os corpos podem ser belos.

 

João e Rafael: Para nós dar visibilidade a diversidades de corpos é uma questão política. Pois acreditamos que a hegemonia de determinado modelo de corpo, seja ele qual for, acaba por causar sofrimento para as pessoas que não conseguem se adequar a tais modelos.

 

A recusa em usar Photoshop nos modelos está relacionada com a questão anterior. Assistimos nos últimos anos a uma ditadura dos corpos digitais perfeitos que na realidade não existem.

João e Rafael: Nós não usamos photoshop porque queremos mostrar corpos reais, e porque as alterações digitais agravam ainda mais a questão anterior. As pessoas almejam um corpo que em última análise não existe em parte alguma.

 

Fica muito material dos ensaios por mostrar? O que pensam fazer com essas fotos?

João e Rafael: Sim fica muito material dos ensaios. Parte dele vai para o nosso Tumblr (fleshmag.tumblr.com) que é nosso lado B. E outro material pretendemos usar no futuro. Temos planos de no ano que vem lançar uma revista impressa com material inédito.

A localização geográfica condiciona o projecto? Gostariam de fotografar pessoas de outros estados ou mesmo de outros países?

João e Rafael: Acabámos de fotografar dois modelos em São Paulo e pretendemos fotografar em outros estados do Brasil como Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia. Nosso maior sonho é poder fotografar fora do Brasil. Gostaríamos de, no futuro, viajar fotografando homens pelo mundo.

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Lidando com um tema ainda polémico (nudez) esperavam um retorno tão positivo dos internautas?

João e Rafael: Não esperávamos. Nós estavamos bem apreensivo na época do lançamento. Foi surpreendente a recepção e a aceitação do nosso trabalho. Ficamos muito felizes quando recebemos depoimentos de homens contando que se sentem melhores com o próprio corpo ao ver modelos com corpos semelhantes aos deles.

 

Seriam capazes de trocar de posição e torna-se modelos num ensaio da “Flesh Mag”?

João e Rafael: Sim, sem dúvida! Na verdade cada vez mais ficamos curiosos em saber como é estar do outro lado da câmara.

 

Pretendem diversificar o projecto? Criar novas ideias e conceitos?

João e Rafael: nós já começámos a diversificá-lo Acabamos de inaugurar nossa primeira exposição individual, a Carne-Cor, que expomos um ensaio inédito. A exposição acontece aqui no Rio, no galeria café (Rua Teixeira de Melo, 31 – Ipanema) e fica até o dia 25 de outubro. Como já foi dito anteriormente pretendemos também lançar ano que vem uma revista impressa. Nos interessa transitar por diversos média, compreendemos que a revista digital é um dos muitos braços que o projeto pode ter.

 

 

Átila Moreno

E como será estar do outro lado das câmaras? Desafiamos o jornalista e assessor de imprensa da “Flesh Mag” Átila Moreno e partilhar também a sua experiência.

 

Como reagiu ao convite o Rafael e do João, dois estranhos nessa fase, para algo tão íntimo?

Átila Moreno: No primeiro momento, a minha reação foi de surpresa. Jamais acreditava que um dia isso poderia se concretizar apesar de ter sempre a curiosidade em mente de posar nu.

 

Qual era a sua relação com a nudez antes deste ensaio?

Engraçado perceber que eu fui evoluindo meu olhar íntimo sobre a nudez. Na infância, por exemplo, mal tirava a camisa com vergonha do próprio corpo. Cheguei à adolescência, numa certa a fase de descoberta do sexo, fazer sexo com a luz apagada, para você ter uma ideia. A entrada na faculdade foi início da "liberação libertadora". Acho que meus estudos aprofundados sobre sexualidade me ajudaram bastante. E, claro, quando veio o convite dos meninos da Flesh, já estava com outra mentalidade. Eles ajudaram a dar um empurrãozinho ainda mais, digamos, profano revolucionário.

 

O que sentiu durante o ensaio?

Senti libertação. Abri uma porta que jamais imaginava onde ela ia dar. Mudei muito depois deste ensaio, pra te falar a verdade. Passei a me aceitar mais, a não sentir culpa por ter autoconfiança.

 

Numa entrevista o João e o Rafael falaram que o Átila surpreendeu. Parecia tímido mas revelou-se um excelente modelo e deu boas sugestões.

Acho que isso foi uma contribuição enorme dos meninos. Eles me deixaram muito à vontade. Quando vi já estava totalmente nu e em alguns momentos com o pênis ereto sem vergonha alguma. Acho que foi a naturalidade de como a nossa relação se construiu desde o início. Ninguém ficou representando papel.

 


Qual a sensação de olhar para o ensaio? Como é ver o próprio corpo exposto?

Pude ver coisas que eu realmente não enxergava em mim mesmo. Por exemplo, fiquei meio surpreendido com o tamanho da minha bunda e com os comentários sobre ela. E a reação de algumas pessoas inclusive com o meu pénis. Sempre tive um certo receio por ele não ser grande. Pelo contrário, a recepção foi bem safada, digamos (risos).

 

Qual a sensação quando pensa que milhares de pessoas vão ver o seu corpo despido?

Faz parte. É como você entrar na chuva para se molhar. É incrível notar que é linda a diversidade de gostos. É isso que importa. Acho que a Flesh consegue representar muito bem isso. Ela tem uma contribuição revolucionária nesse ponto.

 

Que tipo de opiniões ouviu depois do ensaio?

Tive a honra de ter uma recepção boa. De cantadas até análises profissionais sobre o ensaio e sobre o meu corpo.

 

Para visualizar o ensaio completo do Átila Moreno e os restantes trabalhos do Rafael Medina e João Maciel visite a página da “Flesh Mag” www.flesh-mag.com.

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Entrevista de Carlos Maia