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“I can´t breathe”: a emoção também nos tira o ar

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Um olhar desafiador sobre a aceitação da diversidade humana resgata em cena o valor do mistério

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Uma obra de arte, quando genuína, não apenas na intenção com que é criada, mas na maturação com que o talento e a técnica se vão camuflando, traz na sua essência um embrião de verdade sagrada, e, por isso, capaz de tocar as camadas mais profundas da sensibilidade humana. Não é nem como jornalista e nem como dramaturgo que falo, apesar de esta ser uma crítica. É como público. Como peça da peça; como estrutura desta engrenagem que incorpora a plateia em seu jogo subtil de ficção e realidade. Que caminha pela linha ténue que é toda corda-bamba. Afinal, como no drama estático “O marinheiro”, de Fernando Pessoa, também o texto “I can´t breathe”, do actor Elmano Sancho, com apoio à dramaturgia de Rui Catalão, em cartaz no Teatro Politécnica até 12 de Dezembro, provoca-nos das mais diversas formas, questionando o quanto de realidade há nos nossos sonhos, e o quanto de sonho é necessário para lidarmos com a impossibilidade de uma realidade absoluta.

Em cena com o autor e encenador, a ex-actriz porno portuguesa criada no Brasil Ana Monte Real aceita corajosamente o desafio de se expor como nunca antes diz ter ousado fazer, nas inúmeras entrevistas de quem tem sido alvo (no momento em que iniciava este texto, inclusive, falava eu com ela por Messenger enquanto ela se maquilhava para mais uma aparição mediática, desta vez na RTP). Suspensos pela dialética que se estabelece de maneira quase cruel entre um entrevistador e uma entrevistada, mal podemos definir se estas são de facto as melhores definições dos papéis que eles desempenham. Afinal, desempenham papéis? E além disso, as suas funções cénicas e psicológicas alternam-se imperceptivelmente; estão em comunhão, duas misérias humanas em caleidoscópio, necessitadas uma da outra para não serem tão sós. Talvez a personagem anónima de quem pergunta (representada por Elmano) seja mais frágil até que a aparente vulnerabilidade exposta da que responde (Ana). Porque o homem também responde sem ser inquirido, e em dada altura talvez a sua curiosidade sobre esta mulher seja um mero álibi, gatilho para poder também ele visitar as memórias frágeis da personagem que criou para si. Todo ser humano é um infinito de solidão e desejo de falar de si e ver-se – o Teatro é um espelho!

“Não desejais, minha irmã que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso”, diz a Primeira Veladora no início de “O marinheiro”, de Pessoa. A situação instaurada em “I can´t breathe” é igualmente trágica porque a luz do dia é ineficaz para a definição dos contornos do que seja uma dita Realidade. Elmano e Ana entretém-se/torturam-se/redimem-se/purgam as dores e memórias de suas personagens na penumbra, contando o que foram, como veladores de um corpo (o deles próprios por ser o passado um defunto) que um dia será o de todos nós. Impossível não nos vislumbrarmos na pele de ambos e remetermos-nos ao que na Grécia Antiga as Bacantes consagram como um delírio dionisíaco; o sagrado que nos aproxima mais da nossa essência porque, celebrado nocturnamente, como a penumbra em que as personagens se encontram em cena, como a própria personificação da obscenidade, ele retira o contorno das individualidades e nos devolve assim a uma espécie de comunhão, à dimensão una do cosmos - este sim, infinito -, ao passo que Ana apenas Ana… esta é finita. E deseja morrer cedo para não ter de deparar-se com os estragos do Tempo, também ele divindade - cultuada no panteão dos deuses negros.

Está-se, pois, por meio das memórias de uma ex-actriz porno e da híper-exposição tecida em explosivas palavras, amplificadas pela dor do silêncio, adentrando a zona sagrada do mítico e do ritualístico; o espaço religioso onde nenhum tirso orgíaco ousou antes penetrar. O da menina frágil que chora verdadeiramente quando pensa no pai e no que é para ele o caminho de sua existência criadora de fantasias (talvez por ser, novamente, a realidade uma utopia; impossível, inacessível a todos; e a fantasia, portanto, absolutamente necessária à dimensão onírica do ser humano). Destemor o dela, ter sabido assumir a tragicidade da falta de um sentido para este real mesquinho, e alçar o voo da imaginação na mente humana por meio da representação daquilo a que nenhum ser vivo escapa, que é o instinto sexual de perpetuar-se, imortalizar-se por meio de sua continuidade genética, uma vez impossibilitados de, por outros meios, não termos de morrer tão cedo (afinal, seja quando for, a morte vem sempre “temprana”).

i can't breathe elmano sancho teatro politécnica.

A etimologia da palavra obscena refere-se justamente àquilo o que, no teatro grego antigo, acontecia “obs-cena”, isto é, fora de cena. E a morte nunca se dava a ver nos teatros gregos do século V a.C. A morte é a real obscenidade da Vida. Impedida de ser testemunhada, tendo de acontecer somente na imaginação do público. Talvez ainda como hoje, não obstante a superexposição do erotismo nas novelas, da intimidade dos reality-shows, da morte nos telejornais, da violência no cinema. Ainda assim, a morte é um exercício de abstração que só pode acontecer da dimensão onírica do Homem. Nunca será totalmente conhecida, de modo que de nada adianta pô-la na ribalta. Quando ela se concretiza, já não é ninguém que a vive. Está bem longe da boca de cena. Não à toa Elmano e Ana falam da Vida e do que é nunca estar totalmente pleno ao longo deste percurso de busca de aceitação da nossa diversidade enquanto seres humanos; a busca dramática de um sentido que a vida não tem, e que traz, por isso, um princípio de morte. Mas quase nunca directamente da Morte em si. Não à toa também Fernando Pessoa, ainda em seu drama estático de 1913, publicado na primeira edição de Orpheu em 1915, escreveu: “Com a luz os sonhos adormecem… o passado não é senão um sonho… De resto, nem sei o que não é sonho”.

Sair da sala de espectáculos do Teatro Politécnica com o gosto amargo das lágrimas não arrependidas de Ana e de Elmano, são, ainda agora, o meu passado que não é senão sonho. E por não saber também, de resto, o que não seja sonho, é que o guardo no fundo da minha alma real e agradeço aos Dionisos pela oportunidade de celebrar, com estes grandes artistas da Vida, a força bacanal que é resistirmos em festa ao fado das nossas obscenidade expostas… diante de nós mesmos!

 

5 estrelas em 5

 

Thiago Sogayar Bechara

Poeta, jornalista, dramaturgo, biógrafo brasileiro