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Inês Marto: "Gosto de acreditar que podemos amar porque sim, e isso chega"

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Inês tem uma história de vida que decidiu partilhar com os leitores do dezanove. Sem dúvida um testemunho especial e interessante. Decidimos publicar o seu testemunho e, a seguir, entrevistá-la para saber mais sobre ela. Afinal não temos todos algo para dar e receber?

 

 

Close-up & Personal: Inês Marto

21 anos. Uma mão cheia de rótulos, outra da relatividade deles. Não sei bem porquê a necessidade de escrever isto. Tão depressa me parece legítimo como desnecessário. Mas talvez os gritos de alma sejam mesmo essa dualidade.

Bem… dos mais evidentes é o da cadeira-de-rodas. Long story short: 26 semanas de gestação e umas meras 900 gramas renderam-me paralisia cerebral, no meio da tempestade veio a bonança de afectar apenas a parte motora. Desde aí, passamos ao capítulo do filme que se pode chamar persistência e desenrascanço, e cá estamos.

Terá pouco a ver com os restantes que me enchem uma mão, é certo, mas estará sempre subjacente. Quer pelo meu próprio estranhamento do corpo (sim, ainda acontece, a gente, inclusive os apressados em nascer como eu, não nasce com manual de instruções de como o nosso “erro de software” funciona para tudo, chama-se hábito, e tem os seus dias; quer também pela mania completamente absurda de que nós, malta das rodas, não temos libido, não saímos, não vivemos e estamos sempre dentro das nossas cavernas, conformadíssimos. Mentira. Falo pela maioria que tem a sorte do desenrascanço como eu, se não vivemos mais é pelo país que temos, mas isso deixo para outra conversa (das grandes).

Posto isto, siga para bingo.

“Mãe, sou bissexual…”. Mas não, afinal não era isso. Não era bem isso. “Mundo, sou lésbica!”, desta é que… não. É quase, ok, mas também não é bem isto… Calma. Antes de mandar o próximo grito do Ipiranga… O mundo “lá fora” parou nas 3 sexualidades, e ainda se esquecem da do meio vezes demais. Deixa lá isto ficar assim, já é complicado que chegue…

O mundo “cá dentro”? Bem… não se explica sem entrarmos no maravilhoso e colorido vórtice da fluidez de género. Vou abrir-vos a porta. Olhem com mais atenção… no mundo cá dentro, cada um que se identifique como quer, não-identificação é igualmente bem-vinda. Acredito na moeda e no reverso. Quero com isto dizer que me é complicado ver seja o que for como 100% alguma coisa. Masculinidade e feminilidade inclusive.

Acredito que em cada homem haja uma percentagem – quão pequena ou grande seja – de feminilidade, em cada mulher de masculinidade, em cada género não binário a mesma coisa, em qualquer que seja a fórmula de equilíbrio ou desequilíbrio que a verdade do próprio indivíduo dite.

O que é que isto tem a ver com o parágrafo de cima? Tudo.

Não é bem lésbica o termo, porque não é bem a mulher que me atrai. É a feminilidade. Sim, independentemente do género (binário ou não, volto a dizer). E encontrei, não é um bicho-de-sete-cabeças, ao que parece chama-se ginessexual. Portanto mais uma para a minha mão… Fico-me por lésbica todos os dias, porque, por muito que até gostasse (vamos descontar a minha introversão exacerbada) é impossível dar uma palestra cada vez que o tema surge.

E vou aproveitar o embalo da fluidez de género para dizer que, se não fosse a série de situações estranhas (ainda mais do que o resto já me rende) que isto ia causar, que tanto me podia apresentar como “Olá, chamo-me Inês.”, como por “Olá, chamo-me Bernardo.”. Chama-se bigénero (ele é menos predominante que ela), mais uma para bingo. O Bernardo conformou-se à existência de all star e casacos largos, é novinho, ainda nem sabe bem os seus próprios contornos. O Bernardo não se importa com o cabelo da Inês, faz-lhe mais confusão a voz fininha, mas que remédio. O Bernardo não tem ataques de choro por não lhe chamarem Bernardo, já não era mau que percebessem que de vez em quando é ele que lá está, não é ela, e que se pudesse expressar, nem lhe importavam os pronomes dela, já que lhe usa o corpo, só não queria que fosse estranha a simples existência, lá porque é confuso perceber quando é que é quem. Mas também não sabe como deixaria de ser confuso.

Bom, e resta referir como é que isto tudo se processa, ou processaria talvez quase utopicamente (se o mundo “lá fora” entendesse o “cá dentro”), num contexto relacional. Poliamor. Parece que sou daquelas que teima em crer que o amor não é como uma botija, com capacidade suficiente apenas para se entregar a uma pessoa. Parece que sou daquelas a quem importa mais ser e que sejam felizes, do que se isso acontece única e exclusivamente pela entrega a mim. Parece que sou daquelas que teima que para amar e entregar não tem que se ter uma relação monógama. Gosto de acreditar que podemos amar, entregar, cuidar e fazer bem, e ficar na vida, só porque sim, sem isso ter que ter imposição; de forma aberta e consentida, porque afinal, se estamos cá para ser felizes, e se há várias formas disso, e se há várias pessoas capazes de contribuir, cada uma no seu lugar, cada uma diferente da outra, cada uma insubstituível, se não temos no peito uma plateia finita… Gosto de acreditar que podemos amar porque sim, e isso chega.

Então, bingo! Prazer, Inês.

 

Foto de: Denisa Vaz

dezanove: As pessoas fazem de imediato uma série de assumpções erradas quando vêem uma pessoa numa cadeira de rodas. O que gostarias de dizer a essas pessoas?

Inês Marto: Passam-se muitas situações diferentes no que toca a essas assumpções. Demasiadas para conseguir generalizar essa resposta facilmente. Mas essencialmente, mais do que dizer alguma coisa, gostava que eu e as pessoas que usam cadeira de rodas valêssemos por nós mesmos, ponto. Que isso não fosse visto de forma diferente de outra característica qualquer. Simples assim. Não seria preciso dizer nada. Era isso que gostava e é nesse sentido que direcciono a minha expressão do tema. Já bem bastam as nossas batalhas internas. O mundo (incluo-me) precisa de ser mais mundo. Virá o dia em que não preciso de dizer nada, nem a mim mesma. 

Gostava que eu e as pessoas que usam cadeira de rodas valêssemos por nós mesmos, ponto. Que isso não fosse visto de forma diferente de outra característica qualquer. Simples assim. Não seria preciso dizer nada.

 

A tua escrita é bastante frontal e assumes com clareza a tua fluidez sexual. Sempre foi assim?

Não... Quer na sexualidade quer na identidade de género, tanto é fluido, penso eu, que nunca é um resultado, é um processo cumulativo. Demorei a entender quais eram os pontos do espectro dos quais mais me aproximava. E não descuro a hipótese de ainda mudar de perspectiva, como já aconteceu.
Quanto à minha abertura em relação ao tema, podia dar a mesma resposta aqui: gostava que não fosse preciso dizer nada, um dia. Mas é. Limito-me é a dar-lhe tempo de antena, na minha esfera, neste caso escrita, para quem a quiser conhecer. E para quem o soube fazer nunca foi novidade nenhuma destas coisas… Vou-me descobrindo. E a minha escrita tem sido tanto um caminho para essa descoberta como um reflexo (às vezes mais, outras vezes menos estilizado) dessa descoberta. Isso alimenta-me.

Quer na sexualidade quer na identidade de género, tanto é fluido, penso eu, que nunca é um resultado, é um processo cumulativo.

 

Como lidas em ser uma minoria (viver com uma cadeira de rodas) dentro de uma minoria (LGBT)? A escrita é um teu refúgio? Que boas surpresas tens encontrado através da escrita?

Não sei se lido, realmente. Vivo, só isso, acho que vivo. Tento, pelo menos. A escrita é um ex libris. E o meio preferencial pelo qual sobretudo me processo. Surpresas boas, já me trouxe algumas. Pela nudez que lhe está inerente, muitas vezes quebra o gelo e compensa a minha timidez. É um facilitador e um catalisador de relações com pessoas do mesmo comprimento de onda que o meu. Tive a prova viva em Março, no lançamento do meu livro Combustão. E sou eternamente grata por isso. Além do mais, em relação à defesa LGBT+, é uma ferramenta, para mim. Porque, pela capacidade de expressão e de argumentação que me dá, mais do que me daria por exemplo um colóquio ou um discurso (para isso não tenho o mínimo jeito, mesmo), acho que consigo aos poucos ir deixando um rasto de ideias que se implementem. Também para isso é que tento desenvolver espaços como o Breathing on wheels (breathingonwheels.blogspot.com) , que criei recentemente. Ambas essas minorias têm muito que se lhe diga, às vezes, outras vezes não querem dizer nada, querem dizer só que estamos a ser nós. Quis provar isso. E tenho tido um feedback extremamente positivo, muito mais do que esperava.

 

Tens um vasto currículo profissional na área da produção de espectáculos e ainda estudos na área da Psicologia e em Letras. Num país como Portugal sentiste muitas dificuldades para vencer essas etapas? A tua sexualidade é assumida nos teus locais de estudo/trabalho? Que reacções obtiveste?

Tenho já alguns aninhos de tentativas, sim. Profissionalmente ainda estou a dar os primeiros passos, na produção de espectáculos, embora já tenha colaborado em vários projectos. Mas também não escondo que gosto mais de criar do que de produzir propriamente.

Fiz um ano de Psicologia e neste momento estou em Letras, em Artes do Espectáculo. Houve e há algumas dificuldades, não nego. Mas mais propriamente relacionadas com a minha desadequação generalizada em relação aos sistemas de pensamento vigentes, do que relativamente a diferenças físicas ou a algum tipo de lgbti-fobia. Como escrevi uma vez: “Quem vive para criar ainda ouve vezes demais que não sabe o que é a vida. Que é de manhã que se começa o dia, que só quando começarmos a entrar às 9h da manhã é que vamos ver “como elas mordem”. Quem vive para criar, quem se deixa a divagar até às 6h da manhã porque se sair o rascunho de um poema, esse dia valeu a pena, é – aos olhos do sistema – um lírico, um utópico e um preguiçoso. Porque viver ao contrário das horas do mundo há-de ser sempre um disparate. Porque, no sistema normativo, eles nunca hão-de saber o que quer dizer sentir uma onda maior do que nós que compense tudo.”. Mas tento sempre contornar da melhor forma que encontro. E tem dado resultado. Às vezes é uma questão de perceber que, talvez onde não pareça haver lugar para alguém como eu, terei que ter a capacidade de ser eu a criá-lo, se me valer esse esforço. A ideia de vir a produzir também tem a ver com isso. Poder construir um espaço para as minhas ideias, quando tiver bagagem e solidez suficiente para isso. No entretanto, as colaborações que tenho encontrado ajudam-me a crescer, que é sempre o meu foco principal. Relativamente à minha sexualidade nunca tive reacções, pelo menos não de frente para comigo. Talvez por, lá está, defender que me vem ler e entender quem quiser. Penso que também se deva à forma como o fiz e faço.

 

A tua cidade, local de estudos/trabalho são acessíveis? O que mudarias para melhorar a vida de quem tem maiores dificuldades de locomoção?

Lisboa dá pano para mangas. Mas amo esta cidade e é onde prefiro viver. É complicada nos transportes, no pavimento, na arquitectura, nas colinas... As novas obras que se têm visto em sítios como o Saldanha ajudam muito, é um começo. Essencialmente mudava talvez indo mais por aí. E pela adaptação e manutenção dos transportes, e regulamentação da acessibilidade de edifícios públicos, claro. E de resto, questões de humanismo e entreajuda, essencialmente. E no fim de contas também me mudava a mim. Mudava os meus dias não. Mudava a minha capacidade de auto-aceitação. Mudava a minha intermitência em estar certa de que ser feliz é o que mais importa. Atirava-me mais de cabeça ao mundo. Escrevia menos e vivia mais se isso fosse dissociável (até agora não foi). Mas se calhar se estalasse os dedos e fizesse isso tudo, os dias perdiam o sal. Pensando melhor, se calhar ficava-me pela adaptação dos espaços e pela abertura das mentalidades em relação aos estereótipos ocos que existem. O resto são os meus fantasmas. E, apesar do nosso amor-ódio, sem eles não era eu.

 

Entrevista: Paulo Monteiro

Fotografia: Denisa Vaz

 

Acompanha o trabalho da Inês aqui:

inesmarto.com, facebook.com/inesmarto e breathingonwheels.blogspot.com