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Luís Spencer Freitas: Foi um ataque a um porto de abrigo



Notícias sobre um tiroteio nunca são fáceis de engolir. Infelizmente começam a surpreender cada vez menos, tendo em conta a quantidade que temos visto este tipo de notícias aqui nos EUA nos últimos anos. Por isso, ao acordar no Domingo com as notícias de Orlando, a minha primeira reacção não foi de choque, mas de desilusão com a repetição da fórmula: acesso a armas de fogo, uma alma fraca e desestabilizada e ódio. Muito ódio.

Como em acontecimentos semelhantes, as primeiras horas após o evento foram confusas –  mas nada era mais importante para os media do que saber o que os candidatos presidenciais tinham a dizer sobre o assunto. Afinal, o que é um dia de notícias sem ouvir Donald Trump dizer algo completamente absurdo? Enquanto esperávamos pelas declarações, começaram a aparecer mais notícias sobre as vítimas – os nomes, as idades, as origens, as caras, as últimas mensagens enviadas, os últimos posts nas redes sociais. De repente, o que Trump teria para dizer sobre o assunto tornou-se irrelevante. O mais interessante foi assistir à discussão sobre armas – como é que um país permite que civis comprem armas automáticas? E, em alguns estados, com muito pouca verificação do background? Como é que um país passa mais tempo a discutir legislação sobre que casa de banho cada um pode usar do que a discutir a situação dramática de acesso a armas de fogo? A razão é complexa e longa.

Quando os media começaram a desconstruir o assunto, muitos foram os que disseram: “Não importa que tenham sido gays – eram vidas humanas” ou “Foi mais um ataque terrorista por culpa de muçulmanos”. Deixem-me deixar a minha opinião – este foi um ataque dirigido à comunidade gay. Tentar isolar este facto é o mesmo que tentar dizer que o Holocausto foi um ataque à vida humana e não aos judeus. Ignorar este facto e torná-lo num ataque genérico é um desrespeito à comunidade.

Para a comunidade LGBTQ+, os clubes são um porto de abrigo. Foi onde muitos de nós começámos a conhecer a nossa própria cultura. Foi onde muitos de nós conhecemos o amor da nossa vida. Foi, para muitos de nós, a nossa igreja, a nossa sinagoga, o porto de abrigo, um lugar seguro. O ataque ao Pulse não foi só um ataque a um grupo de pessoas – foi um ataque à única segurança que muitos de nós tivemos em certos momentos da nossa vida. É verdade que não foi a primeira vez que tal aconteceu mas, com a evolução dos direitos LGBTQ+, foi um golpe que ninguém estava a espera.

O ataque ao Pulse não foi só um ataque a um grupo de pessoas – foi um ataque à única segurança que muitos de nós tivemos em certos momentos da nossa vida

 

Mas, quando tudo parece escuro e triste, a Humanidade mostra um brilho que nos faz únicos. Por todo o mundo, grupos de pessoas – multidões – juntaram-se para homenagear os mortos. Sem escuridão, sem rancor, sem ódios, apenas com as cores do arco-íris, velas e amor. O Stonewall Inn, marco global do movimento pelos direitos LGBTQ+ em Nova Iorque, encheu-se de todo o tipo de pessoas – heterossexuais, homossexuais, brancos, negros, homens, mulheres – que passaram uma noite de vigília e de cura conjunta. Eu, pela primeira vez desde que ouvi a noticia, chorei. Por aqueles que perdemos. Pelo ataque a um grupo que tem lutado incansavelmente pela aceitação. Mas, acima de tudo, pela bondade que vi na Humanidade e na sua capacidade de curar estas feridas.

Junho é o Pride Month nos Estados Unidos – e este Pride vai ser diferente. Mas posso garantir-vos: será repleto de cor, alegria, música e energia. Porque, no final, nós somos um dos grupos mais resilientes que existe devido a uma verdade que acreditamos com todo o nosso ser: love is love is love is love is love is love.

 

Artigo de opinião de Luís Spencer Freitas, digital director na Pernod Ricard USA, que vive em Nova Iorque

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