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Opinião: “Tenho de morrer para que se reconheça?”

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Recentemente, assisti a um documentário sobre um crime homofóbico que aconteceu nos anos 90: “Matt Shepard is a friend of mine”; um rapaz de 21 anos que foi espancado por dois rapazes ligeiramente mais velhos, de forma brutal, acabando por sucumbir às mazelas dias depois, e morrer.

Assistir a esta história deixou-me revoltado: lembrou-me da transexual Gisberta - a Gis, para quem realmente a conhecia -, que morreu em 2006 na minha cidade natal, o meu Mui Nobre Porto, depois de, durante dias, ser espancada e torturada por um grupo de miúdos, para, finalmente, acabar dentro dum poço dum prédio em obras.

Lembrou-me parágrafos da minha história: a maneira vil como fui torturado durante o meu ensino médio, onde me espancaram e cuspiram na cara diariamente, me bateram com paus nas pernas para me porem de joelhos, me tentaram violar de formas bastante criativas, até que deixei de usar um balneário durante anos.

Lembrou-me da violência que continua a ocorrer diariamente quando sou vítima daquela que considero uma das formas mais cruéis de discriminação, a homofobia informada: aquela em que as pessoas sabem quais são as palavras e acções que não podem usar, então encontram outras estratégias para o mesmo fim: torturar, suprimir, cortar, violar.

Lembrou-me do medo que continuo a sentir e a combater diariamente desde tenra idade.

Eventualmente, escalou-me o pensamento até aos grandes génios, cujos feitos foram só reconhecidos após a sua morte; achei curioso como continua a acontecer na actualidade e dei por mim a fazer uma previsão do meu desaparecimento, caso eu, como muitos outros, fosse brutalizado até ao meu último suspiro:

“Jovem Português, homossexual, assassinado em Inglaterra”

Este seria provavelmente o cabeçalho duma das acarinhadas, sensacionalistas, estações televisivas portuguesas. A minha vida pessoal seria exposta sem escrúpulos e seria louvado por todos os meus feitos pessoais e profissionais:

“Começou como actor e bailarino, foi técnico de acção social, professor, socorrista da Cruz Vermelha Portuguesa como voluntário e enfermeiro: sucumbiu às suas lesões no estrangeiro, enquanto exercia funções como enfermeiro.”

 

Especulações sobre quão seguros seriam o meu sexo e sexualidade vividos iriam certamente ser destacados, e acabaria por ser crucificado por muitos, causando a revolta de tantos outros.

Não iriam importar as verdadeiras razões que me motivaram a abandonar o meu país, a minha casa, porque afinal, a tragédia aconteceu em terras de Sua Majestade.

Seria, provavelmente, acusado de me expor, como todas as mulheres que se “punham a jeito”, e alguns iriam mais longe com o fantástico, “provavelmente até queria! Afinal era paneleiro!”.

Admito que me tenho em alta estima e por isso, acredito que eventualmente, seria homenageado por alguns, onde os factos seriam constatados, e alguns embelezados em prol das causas sociais. Certamente que a minha história iria emocionar os mais sensíveis e com sorte, se carismática o suficiente, incitar a mudança de comportamentos, mesmo que por um curto espaço de tempo. Sorte a minha que poderia finalmente mudar o mundo e torná-lo melhor; azar o meu que para isso, teria que estar morto.

E por falar na ausência de vida, sonhos ou esperança: Em Orlando recentemente perdemos 49 vidas no Pulse: um crime pouco criativo que roubou 49 histórias e todas as que neles se encruzilhavam: tantas melodias que cessaram porque vivemos num mundo que continua cruel, doente, carente de tolerância e amor. Desta vez, o crime aconteceu num porto seguro.

Lembro-me perfeitamente da sensação que tive quando entrei no meu primeiro bar gay: o Boys'R'us. Uma experiência bastante pessoal, que tem simbologia subjectiva, mas que em geral, representa o sítio em que podemos ser quem somos, salvos de olhares alheios, protegidos numa pequena bolha que é a estrutura física dum bar que nos permite sentir e viver. Com este crime, este espaço que se tornou seguro depois de tantos morrerem em prol da causa LGBT, para garantir a nossa segurança e os nossos direitos, tornou-se novamente um pesadelo para todos os que estavam lá naquela noite e acordou os medos de todos os que descansavam por todo o mundo.

Vivemos numa realidade cruel em que não nos é permitido ser cidadãos do mundo porque, politicamente, é demasiado complicado, mesmo que seja o nosso direito enquanto ser vivo. Os direitos humanos, são geralmente mascarados em prol de causas políticas e obscuridades religiosas. Usamos erradamente conceitos como o de Justiça, Respeito, Amor e Solidariedade. Cometemos crimes abertamente, mas custa-nos executar gestos de carinho e viver afectos porque é constrangedor em grande parte dos contextos sociais. É normal caminhar de olhar vazio e expressão pálida, mas livre-nos Deus de sorrir só porque sim, ou seremos carimbados como “tolinhos”. Abandonamos os nossos princípios e alicerces para desenvolver trabalhos precários, isentos de paixão que não nos garantem qualidade de vida. Sobrevivemos em vez de viver e somos relutantes à diferença porque não gostamos do que não compreendemos. Sabemos que está errado, mas continuamos a caminhar nas mesmas direcções e desculpamos os nossos erros com os erros dos outros.

 

Em suma, questiono-me: terei eu de morrer para me ser reconhecido o direito de existir?

 

Hugo Bastos, Enfermeiro

 

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