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“Os gays católicos não sabem que o Vaticano se ri deles”

 

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Krzysztof Charamsa esteve debaixo dos holofotes nas aquando da sua passagem por Lisboa para promover o livro “A primeira pedra. Eu, padre gay, e a minha revolta contra a hipocrisia de igreja”, editado pela Planeta. Krzysztof Charamsa foi o primeiro padre a trabalhar no Vaticano a declarar-se homossexual e a apresentar o seu companheiro. Agora, em entrevista ao dezanove.pt, analisa o impacto da estadia em Portugal, o papel de associações de homossexuais católicos e o protagonismo das associações de leigos, como é o caso da Associação Portuguesa dos Psicólogos Católicos.

 

dezanove: Já passaram algumas semanas após a sua passagem por Lisboa. Que balanço faz da estadia no nosso país?

Krzysztof Charamsa: Foi uma viagem com uma grande carga de energia, graças à minha editora Planeta Portugal e aos jornalistas com quem pude conversar. O tempo que passei em Portugal para promover o meu livro teve um significado muito pessoal. Em Portugal pude entender a força de uma tradição católica muito semelhante à mentalidade do meu país, a Polónia. É uma mentalidade que infelizmente se implementou muito bem, como também criou alguns ódios nada evangélicos, como a homofobia ou a misoginia. São ódios que continuam a fazer parte da mensagem que a Igreja e a sua sociedade transmitem sem qualquer fundamento bíblico. No entanto, ao contrário da Polónia, em Portugal pude sentir respeito, capacidade de escutar e de dialogar, assim como uma sã curiosidade em procurar entender o outro sem o rejeitar e sem apresentar preconceitos. É o primeiro passo de uma sociedade racional que quer confrontar-se com a realidade. Tem sido um longo processo social e eclesiástico. Em Portugal senti uma abertura intelectual, que é necessária para o desenvolvimento da humanidade e dos direitos humanos. Em Portugal o reconhecimento destes direitos para com os homossexuais foi uma grande ajuda: contribuiu para educar todos e permitiu aos homossexuais terem uma vida normal. Começou-se a entender que os homossexuais são tão dignos como os heterossexuais, e que desejam de igual modo formar as suas próprias famílias. Portugal deu-me a esperança que não se consegue encontrar na Polónia, um país que rejeita os direitos humanos das minorias, não apenas dos homossexuais, mas também dos ateus, das pessoas de outras confissões e das mulheres.

 

O seu livro chegou ao top de vendas nas Livrarias Bertand e já vai na segunda edição, num país maioritariamente de tradição católica. Surpreendeu-o a recepção positiva por parte de tantos leitores? Que leitura faz deste sucesso?

A minha estadia em Lisboa ocorreu uns dias antes do livro chegar às livrarias. Não pude, por isso, ter um encontro presencial com as leitoras e os leitores. Posteriormente tive essa possibilidade graças às redes sociais e à minha página web www.kcharamsa.com. Este êxito foi para mim uma fonte de felicidade. São cada vez mais as pessoas que se dão conta que o conflito que a Igreja Católica mantém com os homossexuais não tem nenhum sentido. As pessoas estão cada vez mais sensibilizadas com as histórias daqueles que são rejeitados e marginalizados pela sociedade sem razão alguma, como é o caso dos gays em muitos países de tradição católica. Senti-me muito acolhido pelas pessoas que me contactaram, algumas delas sacerdotes que me agradeceram pelo meu testemunho.

São cada vez mais as pessoas que se dão conta que o conflito que a Igreja Católica mantém com os homossexuais não tem nenhum sentido

 

Existe em Portugal uma associação de católicos homossexuais, a Rumos Novos, muito inspirada na associação italiana La Fonte, que defende a construção de pontes com a Igreja, isto é, mais integração do que oposição ou confronto. De certo modo, é o oposto daquilo que foi o seu coming out e o seu posicionamento perante a Igreja. Este tipo de postura tem algum sentido já que conhece tão bem as estruturas de poder da Igreja Católica? Teve algum contacto com esta associação durante a sua estadia em Lisboa?

Não. Não tive nenhum contacto com a Rumos Novos, mas teria tido muito gosto em encontrar-me com eles. Estes contactos com as associações de gays católicos são importantes por várias razões. Em primeiro lugar, porque os gays católicos deveriam saber em primeira mão o que o governo da Igreja pensa deles: o Vaticano. Têm apenas acesso às notícias que são preparadas para os media. Não sabem que o Vaticano ri-se deles. Em segundo lugar, porque tenho a impressão que nem os gays nem os heterossexuais sabem o que realmente pensa a Igreja Católica sobre a homossexualidade. A maioria nunca leu qualquer documento da Congregação para a Doutrina da Fé. Se soubessem o que realmente a Igreja ensina, por exemplo quando incita num documento de magistério a não arrendar uma casa a um gay, mudaria a atitude de muita gente perante a Igreja, não se permitiria estas barbaridades. Em terceiro lugar, ao observar estes movimentos de gays cristãos, por exemplo na sua assistência e no apoio a pessoas que estão a perder a fé, reconheço o seu valor e fico-lhes agradecido.

Nem os gays nem os heterossexuais sabem o que realmente pensa a Igreja Católica sobre a homossexualidade. A maioria nunca leu qualquer documento da Congregação para a Doutrina da Fé

No entanto, considero que estes movimentos devem ser mais ambiciosos e fazer um balanço das suas actividades ao longo destas dezenas de anos de existência, para determinar se efectivamente têm influenciado a Igreja ao nível institucional para que esta comece a estudar de forma séria e rigorosa a homossexualidade. Parece-me que nestes últimos decénios a homofobia da Igreja não só não diminuiu como tem crescido de forma preocupante. Voltando à sua pergunta: não tenho a mínima dúvida de que a atitude de integração humilde e paciente não serve de nada para fazer ver à Igreja institucional que deve raciocinar. Só pela revolução da comunidade, tal como aconteceu com a luta pela racismo, ou como serviu com a revolução de Stonewell na comunidade gay. Esta revolução começa com o acto de sair individualmente do armário, o coming out, que é um acto de oposição, de denúncia do sistema homofóbico e de protesto.

Maria José Vilaça, presidente da Associação Portuguesa dos Psicólogos Católicos, disse numa entrevista à revista Família Cristã que ter um filho homossexual "é como ter um filho toxicodependente, não vou dizer que é bom”. Verifica-se que este tipo de associações de profissionais católicos tem cada vez mais posições radicais naquilo que são os temas fracturantes como a homossexualidade, o aborto ou a eutanásia. São posicionamentos que muitas vezes não ouvimos por parte da hierarquia da Igreja. Haverá por trás de tudo isso uma certa instrumentalização dos leigos para apresentar aquilo que verdadeiramente a Igreja Católica pensa e sente?

Li com grande tristeza esta notícia no vosso site. Infelizmente não é uma surpresa para mim. Uma boa parte da comunidade católica tem este modo irracional e estigmatizante de pensar. É vergonhoso que estas falsidades sejam repetidas por pessoas que parecem profissionais, gente culta. A afirmação desta senhora é apenas uma repetição daquilo que afirma o documento do Vaticano Persona Humana de 1975, que nunca foi cancelado ou corrigido, pelo qual obriga todos os católicos à sua aceitação. O documento diz que a homossexualidade é a consequência de uma decisão, um contágio ou de um mau hábito que se tenha apanhado. Esta senhora equipara um homossexual a um toxicodependente que criou uma dependência devido às suas escolhas infelizes. O magistério da Igreja que, recordo, obriga todos os católicos, diz noutro documento da Congregação para a Doutrina da Fé que os homossexuais devem ser tratados como doentes mentais. Gostaria muito que os meus amigos gays católicos lessem atentamente estes textos, afim de tomarem consciência daquilo que são para a Igreja e quais as instruções que esta dá para o seu tratamento, como doentes mentais que considera que somos. Gostaria que os gays católicos tomassem consciência que a Igreja obriga todos os católicos a crer que um gay não é capaz de amar porque a sexualidade homossexual falha na forma humana, tal como é referido no documento. Estas são algumas das barbaridades que a Igreja Católica ensina e que o Papa Francisco, ao não alterar uma única vírgula destes documentos, confirma. Isto é muito mais grave que as afirmações dessa pobre senhora.

 

O magistério da Igreja que, recordo, obriga a todos os católicos, diz num documento da Congregação para a Doutrina da Fé que os homossexuais devem ser tratados como doentes mentais.

 

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Desde 17 de Maio de 1990 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais do Código Internacional de Doenças. Acha que a Igreja continua a cometer os mesmos erros do passado na sua relação com ciência? Olha para a ciência como opositora à fé, quando a mesma deveria ser encarada como um contributo para uma fé cada vez mais esclarecida?

A decisão da OMS é um dos momentos-chave de um processo de consciência científica que começou nos anos 70 e está em constante evolução. Na década de 70 psicólogos e médicos entenderam que não havia nenhuma razão para continuar a considerar a homossexualidade como uma doença ou uma patologia. As razões eram culturais ou religiosas, não eram científicas. A decisão de retirar a homossexualidade da lista de doenças supunha deixar sem argumentos aqueles que continuam a estigmatizar os homossexuais com base num argumento que não é científico. Aqui começa a paranóia da minha Igreja, que em vez de começar a estudar e reflectir sobre esses resultados científicos, se dedicou a iniciar campanhas de difamação contra a ciência, acusando-a de ser ideológica e ser financiada por um suposto lobby gay. Esta atitude irracional não é nova na Igreja. A Igreja está a comportar-se do mesmo modo que fez com Galileu, Darwin ou Lutero. Não entendia nada, mas condenava com arrogância e vaidade. Acredita estar na posse da verdade absoluta e imutável. Finalmente, depois de vários séculos, desculpando-se, como agora está a fazer com Lutero, argumentando que muitas de suas ideias teológicas não foram compreendidas, embora certas. O mesmo se aplica às minorias sexuais, que são mal interpretadas e rejeitadas por medo que destruam algo na nossa visão de fé. A interpretação da Bíblia deve fazer-se de acordo com o desenvolvimento do conhecimento da humanidade. Caso contrário, tornámo-nos fundamentalistas que estão fora da realidade. Estou certo de que, no futuro, a Igreja vai começar a reflectir sobre o tema da homossexualidade, mas pergunto-me quantas pessoas ainda vão sofrer até que ela deixe de ser desumana.

A Igreja está a comportar-se do mesmo modo que fez com Galileu, Darwin ou Lutero. Não entendia nada, mas condenava com arrogância e vaidade como que acredita estar na posse da verdade absoluta e imutável

 

Apresenta-se como padre e activista LGBT. Uma da críticas que é feita ao activismo e associativismo LGBT é de estar demasiado politizado, principalmente por correntes políticas de esquerda, correntes essas profundamente ateias. Como tem sido a sua integração e participação nestes meios? Ser gay e cristão significa uma dupla discriminação por parte dos “seus”?

Há dois mundos que não se encontram: o mundo gay e o mundo católico. Um tem medo do outro. A Igreja tem medo de considerar seriamente os gays, e os gays, com as suas experiências enquanto vítimas de perseguição e discriminação, não confiam naqueles pelos quais foram perseguidos durante séculos. Em Portugal, a perseguição no passado pela Inquisição Católica contra gays continuam de forma escondida por trás da perseguição moral, psicológica e espiritual dos crentes. Aqui está o drama, mas também o apelo e a responsabilidade daqueles que pertencem a estes dois mundos. Não concordo com a acusação de que o activismo LGBT é politizado. A defesa dos direitos relacionados com a orientação sexual deve ser feito por meio da política e da acção social.

Não concordo com a acusação de que o activismo LGBT é politizado. A defesa dos direitos relacionados com a orientação sexual deve ser feito por meio da política e da acção social

Devo ser grato a qualquer movimento político que defenda a dignidade das minorias sexuais. Além disso, as políticas de esquerda muitas vezes parecem mais evangélicas do que as da direita católica. Nos últimos tempos conheci muitos ateus mais preocupados com os outros do que alguns católicos. "Quem não é contra nós é por nós" (Marcos 9: 38-40, Lucas 9: 49-50).

 

É de origem polaca e teve uma longa estadia em Roma, pelo que podemos depreender que toda a sua educação e formação foram assentes numa tradição católica profundamente tradicionalista. Depois do coming out, viveu algum tipo de conflito interior entre o que, durante tantos anos, de certa forma condenou e o que hoje vive abertamente?

Não tenho nenhum conflito interior, mas a experiência de uma plena coerência e satisfação da decisão da conversão mais importante da minha vida. Na verdade o que é essencial na minha vida não mudou: todos os elementos essenciais continua como antes. Necessitava de sair do armário (coming out) para continuar a ser fiel aos meus ideais cristãos e humanos. Eu fui um acérrimo defensor da Igreja e da sua doutrina, que muitos chamam de tradicionalismo. Fui-o por convicção. Eu tinha a certeza de que a Igreja possuía a verdade e eu a defendia. Fui evangelicamente radical. São Paulo é o meu modelo: persegue os cristãos por fidelidade à verdade judaica e converte-se quando descobre a verdade no cristianismo. Quando descobri que a Igreja do meu tempo não se confrontava com uma parte essencial da verdade humana e a rejeita cegamente, eu, com o mesmo radicalismo, disse à minha Igreja que está errada. Isto, os da hierarquia da Igreja não suportam, como não o suportaram os fariseus hipócritas. Eu tive que fazer o meu coming out para permanecer fiel ao meu radicalismo evangélico. Agora, com o mesmo radicalismo denuncio o erro desumano e farisaico da comunidade da Igreja no que diz respeito às minorias sexuais, às mulheres, aos divorciados, etc. Um gay, como eu, para ser cristão, deve fazer o seu coming out e viver abertamente aquilo que é. O conflito não é causado por ser um homossexual crente, mas sim por uma Igreja que não permite a saída do armário e quer continuar a viver na hipocrisia, não aceitando ou respeitando a verdade e a dignidade da orientação sexual nem dos seus respectivos direitos.

São Paulo é o meu modelo: persegue os cristãos por fidelidade à verdade judaica e converte-se quando descobre a verdade no cristianismo

 

Entrevista conduzida por Fernando Santos. Fotos de Eduard Planas. O livro “A primeira pedra. Eu, padre gay, e a minha revolta contra a hipocrisia de igreja” foi editado em Portugal pela editora Planeta.

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