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Os planos da nova direcção da Boys Just Wanna Have Fun

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O dezanove esteve à conversa com Luís Baião, o novo presidente da associação desportiva Boys Just Wanna Have Fun, sobre os objectivos da nova direcção eleita em Junho. Entretanto, arranca esta quinta-feira, 16 de Junho, o Pitch Beach, o único torneio desportivo internacional LGBT a acontecer no país e que junta, todos os anos, mais de 200 atletas de todo o mundo. Fica a par das novidades.

 

dezanove: Luís, antes de mais parabéns pela eleição da nova direcção da BJWHF. Qual foi o teu percurso dentro da associação? E o que te motiva a dar este passo?

Luís Baião: Agradeço o cumprimento em nome da BJWHF. Somos uma equipa motivada e pretendemos dirigir os destinos desta associação para o próximo mandato, que tem a duração de dois anos. Eu estava na já na direcção anterior e também na coordenação da secção de voleibol, a equipa Lisbon Crows, desde 2012. Esta direcção será a continuidade dos compromissos assumidos nos mandatos anteriores mas com muito sangue novo. Do mandato anterior mantemos apenas o secretário-geral, o que é também uma demonstração de uma associação activa e que se rejuvenesce. Encontrámos nesta equipa bastante convergência nos objectivos e modos de trabalhar. Os cargos que ocupamos acabaram por nos chegar depois naturalmente, em função das conversas que íamos tendo para constituir um corpo dirigente para o biénio 2015-2017. Alegra-me particularmente ser o primeiro presidente da BJWHF que tem origem numa modalidade diferente da do rugby, que deu origem à associação. Viramos agora uma página na BJWHF com muita frescura e vigor e não posso deixar de me orgulhar por ser a cara de uma equipa de elevada qualidade.

 

Quais os objectivos desta nova direcção?

A BJWHF ambiciona sempre crescer mas queremos um crescimento sustentado nos seus membros, de modo a que se sintam integrados e parte de uma associação que lhes é próxima. Não vamos esquecer que, de uma associação que se estreou com uma modalidade apenas, passámos para uma associação que tem hoje quatro modalidades. É preciso garantir internamente uma comunicação eficiente e uma organização compassada entre todas as secções. Queremos atrair também novos atletas de modo a que se sintam confortáveis na prática desportiva integrativa, em equipas que assumem o seu pendor não discriminatório. Mas falamos de uma inclusão mais lata do que só a orientação sexual ou identidade de género, apesar de ser essa a trajectória que trazemos.

 

Podes explicar melhor?

Falamos também de combate à discriminação pela idade, pela cor de pele, pela religião professada, pela condição social ou pelo país de origem. No fundo pretendemos assumir os benefícios de ser uma associação desportiva por todas as qualidades do desporto nos seus eixos físico, psíquico e social, mesmo num formato amador. A nível físico, particularmente na área da saúde é uma excelente via de redução do risco de doenças cardiovasculares, combate à obesidade e sedentarismo, ganho de massa muscular e reforço de ossos e articulações, só para citar algumas. A nível psíquico, a prática regular do desporto eleva a auto-estima dos praticantes já que os atletas desenvolvem um conjunto de novas habilidades que melhoram a imagem de si próprios e lhes dão maior autoconfiança. As modalidades desportivas colectivas, e mesmo as individuais quando praticadas como parte de uma equipa, assumem-se como um lugar privilegiado para se realizarem laços sociais de amizade, proporcionando um espaço de partilha e dando aos seus membros o sentimento de pertença a um grupo. Queremos também tornar-nos numa associação mais ligada à sociedade. Queremos multiplicar a visibilidade do desporto com a participação em mais episódios competitivos porque sentimos que isso dá mais foco, propósito e reconhecimento às equipas que integram a BJWHF.

 

A associação conta neste momento com quatro secções: rugby, voleibol, tango e natação. Estão pensadas novas modalidades para integrarem a associação?

Claro. No entanto, para começarmos uma modalidade necessitamos de ter a massa crítica inicial. A maior parte das modalidades que hoje existem começaram por carolice de alguns, numa gestão informal, e foram crescendo a partir daí. Nestes processos iniciais das modalidades nem tudo são rosas e por sabermos disso, pela experiência que temos capitalizado, é que a BJWHF oferece o apoio associativo necessário ao arranque e estabelecimento de novas equipas. A promoção do desporto passa também por pegarmos nos atletas que temos e os expormos pontualmente a outras modalidades ou a actividade física diferente da habitual. Podem vir a ser novas modalidades ou actividades algumas áreas de onde nos tem sido manifestado interesse como sejam os desportos de raquetes ou as artes marciais, por exemplo. Mas mais do que novas modalidades, tenho o forte interesse em que haja mais “girls” na “boys”.

 

Parece que o rugby é a modalidade que maior projecção tem, quer seja na sua representatividade em competições nacionais e internacionais, como no impacto mediático. Porque achas que isso acontece? Os objectivos são diferentes para as diferentes secções?

Existe essa percepção porque o rugby foi a modalidade inicial e de onde partiu a ideia da associação BJWHF. Em termos de comunicação social foram quem rasgou mais com o estereótipo da imagem LGBT+veiculado secularmente pelos media generalistas. Desde então, os Dark Horses têm sido a bandeira da diversidade nos encontros desportivos nacionais em que participam, nomeadamente no Circuito Nacional de Equipas Emergentes. Desde que existem e sem necessidade de grandes apresentações nos meandros do rugby todos sabem quem eles são. São uma equipa federada e marcam um ponto muito importante - é que, mesmo perdendo, vão a jogo e estão lá para ganhar como tantas outras equipas. O rugby é um desporto colectivo com muito menos praticantes informais quando comparado com o futebol ou mesmo com o voleibol que aprendemos na escola.

 

E qual o panorama do voleibol?

Havendo muito mais praticantes de voleibol, há também mais equipas, mais torneios e mais pessoas com um elevado nível de prática desportiva. Também do lado financeiro estão mais agravadas as inscrições nos torneios. Logo torna-se difícil que, num primeiro momento, se possa aspirar a um nível competitivo comparável com o que o rugby atingiu. Seria o mesmo que, no extremo, aspirar a que uma equipa amadora de futebol fosse jogar na 3ª Divisão (hoje Campeonato Nacional de Seniores). É óptimo que tenha havido essa possibilidade com o rugby, o que nos enche o peito, mas é improvável que possa acontecer com outros desportos colectivos de grande projecção.

 

Mas quem vai aos treinos já tem de ter experiência de competição?

Não. Muitos dos membros que entram para qualquer uma das modalidades nunca as praticaram antes e irão estar sujeitos a um percurso técnico e táctico que leva anos a percorrer, sobretudo em pessoas que não são jovens e o fazem num regime pós-laboral e, algumas até, recreativo. O rugby tem uma grande facilidade inicial para aprender a técnica básica, o que não acontece, por exemplo, no voleibol. Claro que depois o aperfeiçoamento custa a todos indiferentemente do desporto. Neste momento, os Lisbon Crows que pudessem eventualmente integrar uma equipa competitiva são aqueles que já tinham integrado equipas de competição no passado e jogam desde tenra idade. Foi aliás essa a necessidade de, desde logo, ter abordagens de treino diferenciadas consoante o nível de prática desportiva. Qualquer competição exige também uma regularidade e um compromisso que se pode tornar difícil de assumir por toda uma época desportiva. Por esse motivo, em particular no voleibol, houve a opção pela competição em encontros desportivos pontuais, competições amigáveis e torneios internacionais LGBT+.

 

A associação promove o combate à discriminação com origem na orientação sexual e na identidade de género, mas nunca marcou presença na Marcha LGBT. Existe alguma razão para isso nunca ter acontecido?

A Marcha do Orgulho LGBT em Lisboa é um momento político de forte impacto e agrada-me, numa nota puramente pessoal, que difira de outras marchas do orgulho de capitais europeias pela sua simplicidade e pelo seu (ainda que episódico) manifesto. A realidade é que esta ausência de participação na Marcha até hoje tem sido motivada pelo facto de sermos uma associação desportiva e de, não obstante a vinculação ao combate à discriminação, estarmos desligados de qualquer cunho político que possa estar presente no manifesto da Marcha. Enquanto associação desportiva faz-se o combate à discriminação de uma forma diária, nos treinos das diferentes modalidades, na inclusão através da prática desportiva e na participação em encontros desportivos. Fazemos o combate à discriminação também em palestras, mesas redondas e eventos para os quais somos convidados a falar da nossa actividade. Os atletas da BJWHF integram, aliás, várias outras associações activistas LGBT+ e muitos deles (e por mim falo também) encontram-se na Marcha em desfile sob outras bandeiras consoante os projectos em que acreditam e com os quais também colaboram. Os “boys”, no fundo, já estão na Marcha mas seria inédito ter uma associação desportiva numa manifestação.

 

Como, quem e quando é que se pode inscrever para se juntar a uma das equipas dos BJWHF?

Para se juntarem aos Dark Horses Rugby, aos Lisbon Crows Volley, aos Lisboa Poolboys Swim Team ou ao Tango4Fun basta passarem na nossa página da internet ou procurarem as respectivas páginas no Facebook e enviarem uma mensagem. Depressa receberão uma simpática resposta a convidar-vos para experimentarem um treino. Depois é só ir na onda!

 

André Faria