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Que histórias tem para contar Gonçalo Diniz, o primeiro presidente da ILGA Portugal?

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No ano em que se assinalam os 20 anos da criação da associação ILGA Portugal, o dezanove foi ouvir o seu primeiro presidente, Gonçalo Diniz. Agora a viver em Londres, Gonçalo Diniz é um nome histórico do associativismo LGBT português, ou não estivesse na origem do Arraial Pride, da Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa, do centro comunitário e do festival de cinema gay, agora Queer Lisboa.

“Durante as inúmeras reuniões na Assembleia da República lembro-me que os únicos partidos que se mostraram (timidamente) simpatizantes à nossa causa foram os Partidos Socialista e Comunista. Tanto o PSD como o CDS, conservadores das estruturas de poder estabelecidas, sempre resistiram, com argumentos de que nós ameaçávamos o núcleo da família”, recorda em entrevista. Gonçalo Diniz, agora com 42 anos, foi presidente da ILGA entre 1995 e 1999. Eram tempos em que os aliados dos direitos LGBT em Portugal eram apenas as organizações de luta contra a sida e o então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, João Soares.

 

dezanove: Ainda segue com atenção a actualidade LGBT de Portugal?

Gonçalo Diniz: Ainda sigo com interesse a actualidade LGBT em Portugal. Embora não seja o mais assíduo a pagar as minhas cotas, também continuo associado da ILGA Portugal recebendo as comunicações oficiais. Ao mesmo tempo, o Facebook, a leitura diária do Público online e o contacto regular com os meus amigos e família asseguram um fluxo regular de notícias LGBT.

 

Quais as pessoas que foram determinantes para a criação da ILGA?

Houve muitas pessoas que foram determinantes para a criação da associação. É claro que houve um núcleo de pessoas que foram instrumentais naqueles tempos, frutos de estarem no sítio certo à hora certa, no entanto, a meu ver, foi toda uma conjuntura social, económica e política que proporcionou a oportunidade e alimentou as vontades (individuais e colectivas) para nos organizarmos em associação. Sem o apoio público (LGBT e não-LGBT) a associação não teria sido possível. Desde os voluntários, passando pelas pessoas que escreviam cartas de apoio/pedidos de ajuda, jornalistas, políticos, até às pessoas que estiveram politicamente mais activas no núcleo administrativo, todas elas – juntas – tornaram a ILGA Portugal numa realidade. Seria injusto da minha parte atribuir responsabilidades determinantes apenas a certos indivíduos.

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O que vos levou a criar a associação ou da comunidade LGBT?

Tal como no resto do mundo ocidental, julgo que o surgimento do problema do VIH enquanto uma ameaça à saúde pública, curiosamente, em Portugal impulsionou o movimento LGBT. Não é difícil entender porquê. Em países como o Reino Unido ou os Estados Unidos onde já existiam movimentos LGBT estabelecidos, a crise do VIH iniciada em 1983 forçaram essas comunidades a lutar contra um estigma e pela sobrevivência, consolidando e fortalecendo as suas organizações associativas. Em Portugal e outros países com movimentos tímidos ou inexistentes foram as organizações de luta contra a sida que serviram de incubadoras para os movimentos emergentes. No nosso caso, a associação Abraço e as pessoas ligadas a essa organização, nessa altura, foram preponderantes na criação da ILGA Portugal.

 

No início da ILGA, quais eram as reivindicações principais da associação?

Julgo que serão as mesmas de hoje. Enquanto minoria, o trabalho nunca está concluído. As nossas prioridades eram lutar pela igualdade de direitos, aumentar a visibilidade/perfil da comunidade, criar figuras de referência que combatessem preconceitos sociais, resistir à homofobia activa e passiva. Mas talvez, igualmente importante, criar espaço e oportunidades para o estabelecimento e fortalecimento do sentido comunitário entre pessoas LGBT, algo que até esse momento existia, mas apenas fechado 'no armário' ou círculos sociais bastante circunscritos.

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Que dificuldades se recorda de enfrentar como primeiro presidente da ILGA?

Tendo a possibilidade de analisar tempos passados com outra perspectiva, diria que a maior dificuldade que enfrentei foi a falta de experiência e escassez de referências nacionais. Algo que procurei colmatar seduzindo pessoas que respeitava para me ajudar de forma directa e indirecta. Vontade e inspiração oriunda dos movimentos nos Estados Unidos e na Europa nunca me faltaram. No entanto, na altura, a nível pessoal a maior dificuldade foi reconciliar o meu desejo de dedicar esforço e tempo à causa, com a necessidade de exercer a minha actividade profissional de forma a tornar-me financeiramente independente. Apenas consegui fazer o que fiz durante tanto tempo (quatro anos na ILGA Portugal e cerca de mais quatro na Abraço) com o apoio da minha família.

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No final dos anos 90, quais eram os aliados dos direitos LGBT? De onde vinham as vozes que queriam impedir que as pessoas LGBT tivessem novos direitos?

Nessa altura a nível da sociedade civil houve um grande apoio por parte das organizações de luta contra a sida, e pouco mais. A curiosidade gerada pelos meios de comunicação social catapultaram inadvertidamente o assuntos LGBT e de igualdade de direitos para a agenda política. Mas julgo que isso foi mais um efeito secundário e menos uma jogada calculada de apoio por parte dos meios de comunicação social. A nível oficial houve um apoio do então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, dr. João Soares e do seu Gabinete, particularmente o dr. Tomás Vasques. Sem a cumplicidade e coragem de remar contra a maré por parte dessa equipa na CML julgo que não estaríamos onde estamos hoje. Foi a CML que nos cedeu o primeiro espaço do centro comunitário na rua de São Lázaro e financiou a sua remodelação, que apoiou incondicionalmente os primeiros festivais de cinema gay e lésbico de Lisboa, que permitiram e financiaram os Arraias Pride e as Marchas do Orgulho.

 

E a nível político?

A nível politico-partidário durante as inúmeras reuniões na Assembleia da República lembro-me que os únicos partidos que se mostraram (timidamente) simpatizantes à nossa causa foram os Partidos Socialista e Comunista. Tanto o PSD como o CDS, partidos de direita, conservadores das estruturas de poder estabelecidas, sempre resistiram, com argumentos de que nós ameaçávamos o núcleo da família. Essa posição era reflectida nos debates televisivos onde os convidados da contra-argumentação eram pessoas como a falecida Maria José Nogueira Pinto.

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Como vê o associativismo LGBT de Portugal neste momento? Quais as diferenças face ao tempo em que foi presidente?

Sinto um orgulho enorme do actual movimento, das suas conquistas e do trabalho que tem vindo a desenvolver. Defender uma posição contra-corrente nunca é fácil e requer alguma maturidade. Nem sempre conseguimos aquilo que queremos quando o queremos, no entanto a sabedoria reside numa estratégia de escolher os assuntos mais importantes para a comunidade e despender maior energia onde possamos fazer maior diferença. É natural que com o passar do tempo haja um realinhamento de prioridades, e como consequência, os desafios também mudam.

Na minha óptica, o nosso maior desafio era ganhar a simpatia do maior número de pessoas que estivessem expostas à nossa mensagem. O apoio das pessoas que se identificavam LGBT era quase garantido, o nosso maior desafio era conseguir o apoio das pessoas não-LGBT. Isto era fundamental para o nosso sucesso. Hoje creio que de uma forma geral esse objectivo foi conseguido, particularmente tendo em conta que as gerações mais novas são substancialmente mais abertas e expostas às realidades LGBT. Creio que o grande desafio hoje seja um de sustentar um 'momentum' que alargue a questão da igualdade e direitos iguais para além do foro legislativo para sectores da sociedade que até agora não estavam directamente ligados com a igualdade de direitos: a escola, a polícia, a empresa, as forças armadas, etc.

 

Quais considera que foram os “momentos históricos” dos anos em que foi presidente da ILGA?

Houve muitos, e para ser sincero, julgo que seria injusto isolar um ou dois, no entanto todos os 'primeiros' marcaram-me bastante. O primeiro debate televisivo, o primeiro dia do centro comunitário, o primeiro festival de cinema, o primeiro Arraial Pride e a primeira Marcha são memórias que nutro com particular afecto de saudade.

 

Era uma presença frequente na televisão a defender os direitos LGBT numa altura em que muito pouca gente o fazia. Como era ir à TV? Que reacções tinha a posteriori?

As minhas aparições na televisão eram uma mistura de grande nervosismo com uma inabalável convicção de necessidade e sentido de propósito. Como em tudo na vida, julgo que quanto mais acontecia, mais confortável me sentia. Lembro-me de tomar consciência do sentido de responsabilidade. Sem prejuízo para as pessoas que conformavam com a imagem de homossexual, tomava particular satisfação de entender bem cedo que estava a desmontar a ideia que o público em geral tinha sobre pessoas LGBT.  Talvez o comentário mais frequente que ouvia fosse: “Mas ele não parece homossexual”. Para mim era importante que todos tivessem a noção da diversidade das pessoas LGBT. Nunca fui, nem continuo a ser uma pessoa que gosta de conformar.

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Esteve também na origem do primeiro festival de cinema gay e lésbico de Lisboa. Pode contar resumidamente qual a génese?

A ideia do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa nasceu no primeiro Ciclo de Cinema Positivo que a Associação Abraço organizou na Cuturgest. Eu queria que houvesse um espaço e um evento cultural aberto que não fosse exclusivo e proporcionasse uma oportunidade para expor a diversidade de narrativas das realidades LGBT. O cinema é um meio abrangente e inclusivo que preenchia esses requisitos. O Celso Júnior aceitou o desafio e fez um trabalho notável com o Festival. Desde a primeira edição tornou-se claro que viemos preencher um espaço que contribuiu de uma forma incalculável ao movimento em Portugal. Por diversas razões tornou-se necessário que o Festival se tornasse independente da Associação. O Festival (mais do que a associação ILGA Portugal) foi uma ideia que cresceu e ganhou 'pernas para andar' muito rapidamente e tenho um enorme orgulho de ter tido um papel na sua génese.

 

É frequente ouvir-se que o Gonçalo foi para Londres amargurado com o associativismo LGBT. Porque é tão difícil pôr as associações a lutar no mesmo sentido?

Lamento, porque é falso. A razão pela qual me mudei para Inglaterra foi por amor: conheci o meu parceiro da altura (que era inglês) e foi essa a razão pela qual saí do activismo. É verdade que nem sempre havia uma sintonia entre associações, mas isso nunca foi uma razão para desistir ou abandonar a causa. Aliás o surgimento de outras associações foi sempre um motivo de grande orgulho para mim. Mesmo havendo pontualmente desentendimentos: isso faz parte da celebração da diversidade que me impulsionou a dedicar à causa.

 

Rui Oliveira Marques

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