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Robert A. Sherman: As reflexões de um Embaixador sobre Orlando e o mês do Orgulho LGBT

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Estava na minha cidade natal de Boston quando ouvi as notícias do horrível ataque em Orlando que atingiu directamente 100 pessoas, entre feridos e mortos. Tinha aterrado horas antes no voo inaugural da TAP que liga Lisboa a Boston e estava à espera de ter dois dias bem passados entre amigos e família. Ao ver as imagens da CNN em Orlando, a minha alma estremeceu. Recordei imediatamente os eventos trágicos que ocorreram três anos antes, quando radicais incitados pelo ódio atacaram a Maratona de Boston em 2013, activando explosivos a poucos quarteirões da minha casa.

Já todos vimos o horror inimaginável que ocorreu nas primeiras horas da manhã do dia 12 de Junho na Pulse, uma discoteca gay em Orlando, na Flórida. Este era um lugar onde as pessoas podiam ser elas próprias. Homens e mulheres, novos e velhos, estavam na Pulse para uma noite de diversão e celebração do mês de Orgulho LGBTI. Estavam lá para ouvir música latina e dançar. Estavam a exercer as liberdades que todos os Americanos, todas as pessoas pelo mundo fora, deveriam ter – reunirem-se em paz e procurar a felicidade. Agora, 49 vítimas inocentes perderam a vida e mais de 50 ficaram feridas, algumas estão ainda a lutar pelas suas vidas. Famílias foram destruídas. Imenso potencial foi perdido devido a um único acto de ódio.

As imagens de morte e destruição foram dolorosas e marcantes, mas por entre a escuridão do horror em Orlando, mais poderosas ainda foram as imagens e as histórias que surgiram após o ataque. Estas eram as imagens de amor puro e genuíno; de compaixão; de unidade e de preocupação com o próximo. Houve pessoas a arriscarem o seu próprio bem-estar para ajudar amigos e estranhos. As pessoas tomaram conta umas das outras. Salvaram vidas. Ampararam estranhos, dando-lhes o apoio de que tanto precisavam. Ofereceram um ombro amigo. Tenho sido acalentado pelas imagens de centenas de cidadãos da Florida, incluindo Muçulmanos que estão a jejuar por causa do mês do Ramadão, a fazer filas para darem sangue. Esperaram na rua, sob o sol quente da Florida, em filas de 4 a 5 horas para darem sangue para as vítimas.

Por todo o país e pelo resto do mundo fora, muitas pessoas têm expressado a sua solidariedade com a comunidade LGBTI. As mensagens de condolências, compaixão e unidade que têm chegado a Orlando e a Embaixadas Norte-americanas em todo o mundo têm sido uma inspiração. A gratidão que sinto é difícil de expressar adequadamente por palavras.

Estes actos de compaixão uns pelos outros e a criação de um ambiente de aceitação é precisamente aquilo que se pretende com as celebrações do mês de Orgulho LGBTI, e é mesmo isso que acaba por acontecer. Ao celebrarmos o mês de orgulho LGBTI, ao longo de Junho, recordo a histórica decisão Obergefell, deliberada pelo Supremo Tribunal Norte-americano em 2015, que determinou o direito de todos os Americanos casarem com a pessoa que escolhem, independentemente da orientação sexual.

Deste lado do Atlântico, Portugal tem sido líder em promover direitos LGBTI. Para além de simplesmente proteger a comunidade LGBTI, a lei Portuguesa segue o princípio da igualdade de tratamento entre os membros, tal como verificado pela legislação adoptada em 2016 que permite a adopção de crianças por casais do mesmo sexo, e a lei de 2010 que permite o casamento entre casais do mesmo sexo. Além disso, Portugal tem defendido e apoiado pessoas LGBTI internacionalmente, tal como é evidenciado pela concessão de asilo a dois cidadãos ugandeses que eram perseguidos por causa da sua orientação sexual, em 2013.

Apesar do progresso que se tem feito tanto nos EUA como em Portugal, tragédias como a do fim-de-semana passado servem para nos lembrar de forma cruel e evidente que embora tenhamos dado grandes passos em frente, há ainda muito trabalho para fazer para eliminar o fanatismo e a intolerância de ambas as nossas sociedades – aliás de todas as sociedades. Os valores fundamentais da igualdade e da dignidade que definem ambos os nossos países não estão inteiramente a salvo. Somos chamados a defender esses valores não só através da retórica mas também através das nossas acções.

É por isso que tenho especial orgulho em que os nossos países tenham unido esforços e obtido resultados durante o ano que passou, na luta contra a intolerância. A Embaixada associou-se à ONG Tudo Vai Melhorar para produzir um anúncio de utilidade pública que expressava a nossa solidariedade com a comunidade LGBTI. Também co-organizamos uma conferência, que trouxe a conhecida activista Kerry Kennedy a Portugal, para promover assuntos referentes aos direitos humanos, de uma forma geral – incluindo os direitos LGBTI. Uma companhia de teatro local encenou a peça “Diz a Verdade ao Poder – vozes do outro lado da escuridão”, que apresenta testemunhos de vários indivíduos LGBTI perseguidos por causa da sua orientação sexual.

É o meu sincero desejo que o nosso trabalho conjunto para eliminar o fanatismo e a intolerância onde ela exista, trará esperança e dignidade e continuará a unir-nos. Quero reafirmar que os direitos LGBTI são Direitos Humanos, e mantenho que todos beneficiamos quando esses direitos são assegurados e protegidos.

Tal como já tinha planeado antes da tragédia de Orlando, hoje irei participar da marcha de Orgulho LGBTI de Lisboa, lado a lado com milhares de pessoas que apoiam os direitos LGBTI em todo o mundo. Fá-lo-ei por várias razões. Primeiro, e acima de tudo, vou participar para honrar as vidas inocentes que se perderam em Orlando, e para apoiar aqueles que estão a sofrer no seguimento daquele ataque desprezível. Vou participar também para mostrar a minha solidariedade com a comunidade LGBTI – com o mundo – contra o ódio e o fanatismo e para apoiar os direitos humanos de todos. E vou participar para acrescentar mais um par de pernas no caminho para a dignidade humana e igualdade para todos. Vêm comigo neste caminho?

 

Robert A. Sherman, Embaixador dos EUA em Portugal