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“Se tenho a possibilidade de ser quem quero, enquanto artista drag, porque não o fazer?”

CHER Miss Drag Lisboa Crédito: Adam Moço

Entrevistamos Cher No-Billz, uma das concorrentes a Miss Drag Lisboa. Fala-nos sem preconceitos sobre a estética da sua personagem, de como lida com a questão de género no seu trabalho entre outras curiosidades.

 

dezanove: Como nasceu a paixão pela arte drag queen e quando é que passou a fazer parte da tua vida?

Cher No-Billz:Desde pequeno que fui “influenciado” pela arte do teatro, da maquilhagem, da interpretação de personagens, mas nunca pensei, sinceramente, que um dia pudesse vir a tornar-me num artista drag. É difícil datar quando se iniciou realmente a paixão por este mundo; acho que não começou logo como uma paixão, nem mesmo na primeira vez que pisei um palco a actuar. Foi crescendo, gradualmente. Ao início, não tinha confiança, nenhuma mesmo. Nem sabia onde me estava a meter. Ia actuar porque ia fazer companhia a um amigo meu. O mais engraçado é que foi mesmo assim que comecei, por mero acaso. Logo pensei: por que não tentar? E pronto, foi assim que criei a personagem Cher No-Billz, e que começou a fazer parte da minha vida. Já vivi e fiz tanto por ela. Se posso viver sem ela? Posso, mas não quero.

 

Qual a inspiração para a personagem Cher No-Billz?

Inúmeras. Desde a óbvia, e deusa máxima, Cher, ao fantástico Freddie Mercury, com uns traços de Boy George, uma pitada de Sia, e, bastante inspirada por Fernando Pessoa, pela sua capacidade de se transformar na sua escrita, em cerca de 136 “Pessoas”. Há tanta inspiração pelo mundo fora, e tento captar um pouco de tudo, de todos.

 

Sabemos que tens influências do estilo clown, uma vertente ainda um pouco desconhecida em Portugal. Como explicarias esse estilo? Como o descobriste? O que te cativou nele?

Tendo, como há pouco referi, influências pelo mundo fora, não me encaixo num estilo apenas, não preciso de o fazer. Se tenho a possibilidade de ser quem quero, enquanto artista drag, porque não o fazer?

A vertente do “meu estilo” não é desconhecida em Portugal; é desvalorizada, que é diferente. Porque, a verdade é que dos poucos locais em que há trabalho em Portugal, a maioria tem sempre preferência pelos artistas “clássicos”, que querem dar a ilusão da beleza e brilho da mulher esbelta, simples, clássica, suave e sublime. O que tem o meu total respeito. O meu estilo é considerado “clown” porque não é ao que o publico está acostumado. Um uso “maior” de maquilhagem, de roupas diferentes, que foge à “mulher”. Deixo tudo entre aspas para não ofender qualquer tipo de indivíduo. E por vezes não é bem entendido. Acho que quis que a minha personagem não se regesse apenas a uma situação, por isso o factor género não pode ser, nem deve, posto em causa. E é com isso que o público não se acostuma. Mas tem de o fazer. O género foi desmistificado. E têm de se acostumar a isso. E acho que é esse factor que mais me alicia a continuar a “performar”. Porque não é apenas um espectáculo, é uma mensagem, uma revolução de ideias expressas por artistas, por performers.

 

Como reagem as pessoas (público/empregadores) à estética da tua personagem?

Como em toda a arte há gostos e preferências. Não é por alguém não gostar de uma peça que esta deixa de ser arte, ou bela, ou inspiradora.

Há quem reaja de forma aclamadora, que aplauda, que goste e trabalhe comigo e há quem opte por não gostar e não querer trabalhar comigo. Não me criei para sustentar todos os gostos. Nem sou obrigado.

 

Achas que o universo drag tem se tornado mais visível nos últimos anos devido à popularidade do RuPaul’s Drag Race?

Sem dúvida. Foi e é uma ENORME plataforma para novas “queens”, que é como chamamos aos artistas drag nos dias de hoje. Eu não comecei a fazer drag devido ao reality-show, mas em inúmeros aspectos fez-me evoluir e crescer com muitos participantes que concorreram, e dos quais sou um enorme fã. Culturas diferentes, raças diferentes, estilos diferentes; mas todos com a mesma paixão: o drag, a performance, o trabalho. É cliché mas é a verdade.

 

Já viveste algum episódio de transfobia? (Se sim) Podes contar-nos como foi?

Não sei até que ponto posso responder a esta pergunta, nem quero, DE TODO, criar conflito de ideias ou protesto, porque não estou totalmente entendido na área, mas tendo em conta que não me considero transgénero ou transsexual, teoricamente, não posso responder; mas, por outro lado, devido ao facto do meu personagem ter características do corpo tomado como “feminino”, já ouvi certos comentários como: “nem sabe o que quer ser, ou gajo ou gaja”; “não basta ser paneleiro tem que ser travesti”, “metes nojo ninguém sabe o que és”… mas como disse, não sei até que modo pode ser considerado transfobia, ou se pode. Mas se tomarmos esta pergunta como ponto apenas de discriminação, tanto racial, como sexual, de género, etc… aí sim já sofri de bastantes episódios, comentários e situações desagradáveis; mas nunca fisicamente, apenas verbalmente. Parece que por um lado há um certo medo de se relacionarem “connosco”, apenas se limitam a falar. É estúpido, só. Não tenho como falar disto de forma mais formal.

 

Onde podemos ver o teu trabalho?

Bem, o trabalho é onde aparece, sinceramente. Mas já trabalhei em vários sítios, tanto como performance, dança, animação. Em Lisboa (Finalmente Club, Trumps), na Margem Sul (Margem Sul Bar e Buddha Bar) e em Leiria (Why Not Bar).

Claro que tudo tem um custo, e na maioria das vezes o que é pago não cobre as despesas gastas no espectáculo. E isso é um dos grandes problemas que vivemos. E a regra é: quem cobra menos vai. Não é justo, mas é o que temos.

Nas redes sociais vou postando alguns dos meus trabalhos, no instagram (@ItsCherNoBillz) e no Facebook (Cher No-Billz).

 

Créditos da foto: Adam Moço 

Entrevista de Sofia Seno

 

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