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Uma reflexão a propósito de um folheto encontrado numa igreja em Roma

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Numa viagem a Roma, um amigo encontrou numa igreja do centro histórico um panfleto em língua italiana, que lhe chamou a atenção.

 

“Sentes uma atracção HOMOSSEXUAL... e estás à procura de RESPOSTAS?”

 

Trouxe com ele o folheto e mostrou-mo, perguntando-me a minha opinião. À primeira vista parecia uma mão estendida pela Igreja Católica aos fiéis homossexuais, um gesto de ir ao encontro de quem, durante tanto tempo, se teve vontade de deixar esquecido. Percorrendo o folheto, vejo uma fotografia com o Papa Francisco a abraçar fraternalmente um rapaz – entrevendo-se o seu sorriso afável – com a legenda “ONDE POSSO IR?” e uma outra em tamanho pequeno que afirma “Deus ama-te apesar da tua inclinação sexual. Serás sempre Seu filho”.

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Até agora tudo parecia apontar para a Igreja que os homossexuais católicos – ouso até sugerir que também os de outras denominações cristãs – tanto desejam e pela qual esperam há tanto tempo, qual Jerusalém Celeste do livro do Apocalipse. Esta é a Igreja onde haverá uma verdadeira Pastoral – atenção particular – a todos os seus membros, sem qualquer exclusão ou imposição de condições comportamentais, sem (pre)juízos abstractos e generalistas.

Vê-se ainda um logótipo com Cristo crucificado e o nome da associação “COURAGE”, um apostolado católico, aparentemente reconhecido pelo S. João Paulo II (“Courage está a cumprir a obra de Deus”). Assalta-me a dúvida: para que é necessária esta autopromoção? Não nos diz o Evangelho para fazer o bem com discrição e sem alaridos? Ao lado um endereço remete para o site da associação, e uma frase desfaz-me as dúvidas: “Apoio espiritual para homens e mulheres com atracção pelo mesmo sexo que desejam viver em castidade segundo os ensinamentos do Evangelho e da Igreja Católica”... Uma frase que encerra a única proposta que a Igreja tem sabido fazer aos homossexuais católicos.

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Aproveito esta reflexão para lançar um desafio à Igreja que, hoje, tem a possibilidade de reflectir um pouco mais em profundidade sobre o tema:

  • O que é a castidade? Será não ter relações sexuais com outras pessoas e não explorar os prazeres físicos ligados à própria sexualidade, quer seja sozinho ou acompanhado? Não será antes viver “em verdade”, fielmente e de forma saudável a sua sexualidade, respeitando tanto a si próprio como o parceiro/parceira? Só neste prisma é compreensível que a castidade possa ser vivida em várias circunstâncias e de formas diferentes: tanto em celibato como em casal.
  • Quais são os ensinamentos do Evangelho em relação à forma de um homossexual viver a sua sexualidade? Parece-me abusivo a afirmação – como que para “justificar” a tomada de posição oficial da Igreja Católica Romana – que a castidade (leia-se aqui “a não existência de relações sexuais”) para os homossexuais é um ensinamento do Evangelho. Os Evangelhos são os textos mais sagrados da Bíblia, pois dizem respeito à vida de Jesus e ao seu testemunho directo. Jesus Cristo não fez qualquer ensinamento orientado para os homossexuais. Ele falou a multidões, aos amigos, aos apóstolos, a todos os que encontrava, sem qualquer distinção ou atitude elitista. Sendo assim, os ensinamentos serão para todos, quer sejam casados ou solteiros, novos ou velhos, mulheres ou homens, heterossexuais ou homossexuais. O facto de se ser homossexual não pode condicionar as escolhas de um crente relativas à sua vocação ou à forma como decide viver a sua sexualidade. Um homossexual é um homem ou uma mulher igual ao heterossexual. Se o heterossexual opta entre viver a sua vida em casal, em comunidade ou sozinho, o homossexual tem o mesmo direito de filho/filha de Deus: escolher o seu caminho de felicidade onde possa desenvolver plenamente e fecundamente os seus dons. Nem todos os heterossexuais têm vocação para serem pais ou mães, nem todos os heterossexuais têm vocação para viver sozinho. O mesmo se aplica para os homossexuais.
  • Os ensinamentos de Jesus dizem respeito ao que mais fundo há em cada ser humano, à própria consciência. Raras vezes falou de comportamentos ou deu liçõezinhas de moral. Mas foi duro para com quem se colocou no lugar de Deus, julgando as acções dos outros: “que atire a primeira pedra quem não tiver pecado”. Na altura apedrejavam-se os que eram considerados pecadores; se Jesus sugere que todos somos pecadores, começaríamos a andar à pedrada uns aos outros se não Lhe déssemos ouvidos (nem as Urgências de Santa Maria seriam suficientes para tamanha calamidade).

Já me alarguei muito e nem falei dos cinco objectivos da associação que aparecem no reverso do folheto. Com excepção do ponto 1 (que volta a falar do ensinamento da Igreja Católica sobre a Homossexualidade) e do ponto 4 (aconselhando amizades castas que ajudem no caminho da castidade subentende, deste modo, o afastamento de outras influências (atitude pouco evangélica quando se pensa num Jesus que comia com os pecadores, publicanos e cobradores de impostos... ), os outros tópicos apontam para aspectos que deveriam ser comuns a todos os cristãos: dedicar a vida a Cristo através do serviço aos outros, oração, meditação, estimular um espírito de fraternidade no qual todos possam partilhar pensamentos e experiências e garantir que ninguém tenha de confrontar sozinho os problemas da homossexualidade – eu diria os problemas ligados à homossexualidade, pois ao referir problemas DA homossexualidade volta-se a cair no erro de conotar a homossexualidade como uma “coisa má”. O último objectivo é “viver uma vida que possa servir de bom exemplo para os outros”. Fazer feliz e ser feliz não serão os melhores exemplos a serem dados?

Artigo de opinião de Rui Aleixo, publicado originalmente no blogue Moradas de Deus