Há datas que não se celebram — sustentam-se. O 1 de Dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, não é uma festa, nem um ritual protocolar; é um espelho onde a sociedade se vê, ano após ano, entre o que aprendeu e o que ainda teme enfrentar. É um dia que insiste em existir porque nós continuamos a precisar dele.
A história da SIDA não é apenas biomédica. É profundamente psicológica. É a história de um vírus, sim, mas sobretudo a história das emoções que o mundo construiu à volta dele: medo, vergonha, silêncio, rejeição. O VIH infectou corpos, mas o estigma infectou relações, políticas, afectos, futuros.
E é precisamente por isso que este dia é indispensável.
Hoje, em 2025, falar de VIH já não é falar de condenação — mas ainda é falar de cuidado. O cuidado que damos aos outros e o cuidado que damos à narrativa que contamos sobre eles. Porque o diagnóstico mudou, mas o imaginário social nem sempre acompanhou o progresso científico.
Se quisermos ser honestos, o estigma continua a ser uma das pandemias mais persistentes. E é nesse ponto que o Dia Mundial da SIDA continua a ser actual: lembra nos que a saúde mental também se mede pelo modo como tratamos quem carrega histórias diferentes da nossa.
A ciência evoluiu; a empatia nem sempre.
O que faz deste dia tão marcante não é a contagem de casos, nem o número de campanhas, mas o convite silencioso que ele nos deixa: o de refletirmos sobre a forma como criamos fronteiras emocionais. Quem deixamos entrar. Quem afastamos com base em preconceitos que já não têm fundamento clínico, mas continuam a ter força cultural.
O 1 de Dezembro compromete-nos a olhar para o VIH não como um símbolo, mas como uma condição de vida digna, tratável, integrada na pluralidade das experiências humanas. E compromete-nos, sobretudo, com a pergunta que raramente aparece nos cartazes:
Como é que o estigma molda a psique das pessoas que vivem com HIV?
A resposta, quando a ouvimos em voz real, é sempre semelhante:
Oestigma pesa mais do que os comprimidos.
Ansiedade social. Medo do julgamento. Silêncio nas relações amorosas. Esforço constante para “provar” que são responsáveis, cuidadosos, seguros. A carga emocional de viver com VIH, em muitos casos, não vem da doença — vem dos outros.
É por isso que este dia não pode desaparecer.
Porque ainda precisamos dele como espaço de reparação simbólica.
Precisamos para lembrar que:
– O VIH não define a moralidade de ninguém.
– A prevenção é responsabilidade colectiva, não individual.
– A vergonha nunca salvou ninguém — mas a informação salva todos. – O cuidado psicológico é tão essencial quanto o tratamento médico. – Cada pessoa que vive com VIH merece um lugar na sociedade onde não precise de se justificar para existir.
O 1 de Dezembro continua relevante porque, todos os anos, alguém recebe um diagnóstico que altera a forma como vê o mundo — e como o mundo o vê. E se queremos uma sociedade madura emocionalmente, precisamos de garantir que esse momento não se transforma numa ferida de exclusão.
Neste dia, talvez a pergunta mais importante não seja “como prevenir?”, mas sim “como acolher?”.
Porque uma comunidade que acolhe cura mais do que qualquer terapêutica isolada.
Celebrar este dia é, acima de tudo, uma forma de honrar o que já ultrapassámos e o que ainda falta transformar. É um compromisso com a memória, com a dignidade e com a saúde mental de todos — sobretudo dos que foram ensinados, durante décadas, a viver no silêncio.
No fundo, o 1 de Dezembro não é sobre VIH.
É sobre humanidade.
E sobre a responsabilidade que temos uns pelos outros.
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Letícia David, Psicóloga



Um Comentário
Ricardo Falcato
Parabéns pelo texto. Reflecte de forma precisa tudo aquilo que vivo enquanto homem gay com VIH. A infecção não mata, a terapêutica é eficaz, mas o estigma destrói-me um pouco todos os dias.