A “Cartografia da Militância Queer” surge com o objetivo de preservar, documentar e analisar a memória colectiva das Marchas do Orgulho em Portugal. Embora não se trate de um levantamento exaustivo de natureza académica, este projeto procura reunir e sistematizar dados relevantes sobre a geografia das Marchas, os coletivos que as organizam, as suas formas de organização e os principais desafios que enfrentam.
Considerando a dimensão territorial e populacional de Portugal, a existência de 33 cidades com pelo menos uma Marcha LGBTQIA+ constitui um fenómeno politicamente relevante. Inicialmente concentrado em Lisboa, Porto e Coimbra, o movimento expandiu‑se progressivamente para cidades médias e pequenas, sobretudo da região Norte e Centro.

Entre 2000 e 2010, apenas três cidades organizavam Marchas. Mas foi sobretudo a partir de 2020 que se registou a maior expansão: 60% das Marchas surgiram neste período, muitas delas em contexto pós‑pandemia. Este percurso revela uma expansão significativa do movimento, particularmente recente.
Em 2024 registou-se o maior número de Marchas, com 28 cidades, maioritariamente concentradas nas regiões Norte e Centro. Em 2025, verificou‑se uma redução, possivelmente associada à fadiga organizativa, à fragilidade estrutural de colectivos recentes e à dificuldade em garantir continuidade em cidades de menor dimensão.
Até ao final de 2025, quatro distritos do continente permanecem sem qualquer Marcha do Orgulho, evidenciando assimetrias territoriais persistentes.

Quem são e como se organizam os colectivos?
O inquérito realizado (entre Fevereiro e Dezembro de 2025) contou com 20 colectivos. Os dados revelam um movimento maioritariamente informal, descentralizado e de base comunitária: 70% organizam‑se como colectivos informais e nenhum assume a forma jurídica de associação.
Os colectivos são compostos sobretudo por pessoas em nome individual, com idades maioritariamente entre os 21 e os 40 anos, e funcionam com uma média de 15 pessoas por colectivo, confirmando a sua pequena escala. A organização interna é predominantemente horizontal, aberta e sem hierarquias formais, com processos de decisão colectivos e forte valorização da participação directa. 85% dos colectivos dedicam-se também a outras causas, como o feminismo, o anti-racismo, a luta climática, a habitação ou a solidariedade com a Palestina, evidenciando uma militância interseccional.
Quanto ao financiamento dos colectivos que organizam as Marchas do Orgulho assenta sobretudo em estratégias comunitárias e auto-sustentadas, privilegiando métodos horizontais, participativos e coerentes com os valores de independência, solidariedade e autogestão. As práticas de economia solidária são também muito comuns entre os colectivos. O financiamento por parte de empresas é muito residual, reflectindo uma postura crítica face ao pinkwashing e à mercantilização das lutas LGBTQIA+.

A relação com os Municípios é maioritariamente positiva, com 45% dos colectivos a avaliarem de forma positiva. Por outro lado, cerca de 35% atribuem classificações negativas, apontando entraves burocráticos, falta de apoio logístico, ausência de financiamento e, em alguns casos, resistência política ou ideológica.
O principal desafio identificado pelos colectivos é a escassez de recursos humanos. A reduzida mobilização de pessoas, aliada à precariedade e à acumulação de compromissos pessoais e militantes, o que dificulta a distribuição de tarefas, a aprendizagem da auto‑organização e a consolidação de práticas colectivas duradouras. A sobrecarga recai frequentemente sobre os mesmos membros, comprometendo a continuidade e o planeamento a longo prazo.
Outros obstáculos recorrentes incluem a falta de financiamento, a complexidade logística e burocrática, a ausência de espaços físicos para reuniões e um contexto político e social adverso, marcado pelo crescimento da extrema‑direita e por receios de violência ou represálias. Tudo isso acumulado condiciona diretamente a realização das Marchas.

Apesar dos múltiplos obstáculos, o movimento Queer em Portugal, que assenta sobretudo na militância voluntária e comunitária, demonstra uma extraordinária resiliência e uma forte vontade política de ocupar o espaço público, afirmar direitos e construir visibilidade coletiva.
O estudo completo pode ser consultado aqui: https://jamarchavas.pt/cartografia-militancia-queer/
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Fotos e imagens: Já Marchavas
Tiago Resende


