Em “Tese Sobre uma Domesticação“, Camila Sosa Villada conta a história de uma travesti que, depois de passar pela prostituição, torna-se uma actriz famosa, casa-se com um advogado e adopta um filho seropositivo. Uma trajetória pouco comum nas vivências reais, marcada por uma tentativa de normalização.
A escolha da palavra “travesti” em vez de “mulher trans” não é um acaso. Para Villada, “mulher trans” é uma designação mais ligada à identidade e, por isso, mais aceitável socialmente, mas incapaz de captar a complexidade da experiência concreta. Para si, as identidades, mesmo quando oferecem algum conforto, podem transformar-se em prisões simbólicas.
Esta reflexão sobre identidade cruza-se com a do desejo. O marido da protagonista identifica-se como homossexual, o que levanta questões sobre como as categorias da orientação sexual também poderem limitar o desejo. A sexualidade da protagonista é igualmente analisada e acaba por revelar-se um paradoxo: as hormonas que toma para se feminilizar comprometem as suas erecções, afetando a imagem de uma mulher com um pénis funcional que alimentava o desejo de muitos dos seus parceiros.
O passado da protagonista é atravessado por episódios de preconceito, agressões e uma tentativa de violação. O presente é marcado por tensões familiares, silêncios e ressentimentos. No centro da narrativa está o conflito interno da actriz entre, por um lado, a liberdade e o desprendimento da sua vida anterior, com a rotina de “Chegar, foder, vestir-se e partir”, e, por outro, a estabilidade familiar que aceita com relutância: “Eu não queria isso. Não queria brincar às casinhas. Não queria ter um filho contigo. Queria o nosso egoísmo.”
A maternidade altera profundamente a dinâmica do casal. Impõe rotinas, reduz o desejo, expõe fragilidades. Vivem uma relação aberta que nem sempre é acompanhada de serenidade. Há amor e cumplicidade, mas também ciúmes, mágoas e jogos de poder.
É também significativo que nenhuma personagem do romance tenha nome próprio. São a actriz, o marido, a mãe, o pai, o bêbado. Como se todos estivessem presos a papéis fixos, escritos de antemão, que abafam a sua individualidade.
É nesse clima de desgaste emocional que a actriz ensaia A Voz Humana, de Jean Cocteau. Tal como a personagem da peça, também ela tenta manter viva uma ligação que talvez já tenha chegado ao fim. Mas, neste caso, não se trata apenas da ligação com o companheiro. Trata-se da ligação com o seu próprio eu.
Se, por um lado, alcançou tudo o que é socialmente reconhecido como sucesso — uma carreira, um casamento, a maternidade, por outro, esse percurso deixa-a com muitas dúvidas. É verdade que cumpriu o modelo normativo de felicidade, mas a que custo? Será que alguma vez o desejou? Ou terá sido o preço da normalização a renúncia a si mesma?
ISBN: 9789895820399
Ano de edição: 03-2025
Editor: Quetzal Editores
Páginas: 232
Daniela Alves Ferreira



Um Comentário
Tiago Pereira
Excelente recensão. Adorei o romance e os tópicos de fundo são exactamente os que expõe. Muito obrigado.