Como membro do coletivo Panteras Rosa desde 2008, tenho enfrentado as múltiplas faces da discriminação contra a comunidade LGBTQIA+ em Portugal. Em 2021, regressei a Beja, após 20 anos em Lisboa, onde consolidei a minha subjectividade como homem gay e politicamente posicionado. Beja, no entanto, revelou-se um espaço de silêncio e exclusão, muito diferente da cidade que deixei no início dos anos 2000. Sem espaços culturais ou de convívio abertos à diversidade, e com uma comunidade LGBTQIA+ quase invisível, o Grindr tornou-se a única ferramenta de ligação – seja para encontros, relacionamentos, ou para buscar o que Sara Ahmed (2014) chama de afecto comunitário, uma forma de resistir ao isolamento e à exclusão, tão intensos em cidades como Beja.
Mas o Grindr em Beja é um campo minado de violências, marcado por etarismo, racismo, xenofobia, discriminação pela aparência, estigma rural de visibilidade e tentativas de doxxing. Este texto, que cruza as minhas experiências pessoais com dados mais amplos, é um grito por mudança: não é apenas sobre mim, mas sobre qualquer pessoa LGBTQIA+ em Beja que sofre agressões e hostilidade no Grindr, sem saber onde buscar ajuda.
As múltiplas faces da discriminação no Grindr em Beja
Etarismo: A rejeição pela idade
O etarismo (ou idadismo) refere-se à discriminação com base na idade, frequentemente associada a estereótipos negativos sobre o envelhecimento. Aos 47 anos, senti isso na pele. No Grindr, fui rejeitado com comentários como “gosto de mais novos” ou “como é que é ser gay aos 45? Nunca me envolveria com uma pessoa como tu”. Um homem da minha idade cortou contacto porque o meu perfil indicava 43 anos no Grindr e 44 noutra aplicação. Surpreendentemente, quem me bloqueava não eram apenas jovens, mas também homens da minha idade ou mais velhos, que procuravam apenas rapazes jovens. Um estudo no Uruguai (Rodríguez et al., 2021) revelou que bios como “sem maiores de 40” são comuns no Grindr, refletindo como a idade é usada para excluir, associando-a a “menos atraente”. Este etarismo não só limita as ligações, como também erode a autoestima, contribuindo para ansiedade e isolamento, especialmente em Beja, onde a saúde mental já é fragilizada – um estudo da DGS (2023) mostrou que 30% dos residentes em Beja reportaram sintomas de depressão, acima da média nacional.

Racismo e xenofobia: ódio estrutural
O racismo e a xenofobia são preconceitos contra grupos raciais ou estrangeiros, frequentemente expressos como hostilidade ou estereótipos. Em Beja, onde há uma comunidade cigana significativa e muitos imigrantes indianos a trabalhar na agricultura, o Grindr reflete um ódio estrutural. Já denunciei perfis com mensagens como “morte aos ciganos” e recebi perguntas como “andaste com o indiano de ***, foste tu? O gajo cheira mal, tresandava no meu carro”. Outro utilizador perguntou-me se eu era português, dizendo “andam por aí umas raças que é só roubar, não trabalham”. Beja tem uma comunidade indiana vulnerável, com muitos a viver em alojamentos sobrelotados e em condições precárias, sazonalmente desempregados e sem apoios – um relatório da Cáritas (2024) estima que 40% dos imigrantes agrícolas em Beja vivem abaixo do limiar da pobreza. A comunidade cigana enfrenta discriminação histórica, com 60% a relatar preconceito em serviços públicos, segundo a FRA (2022). No Grindr, a remoção do filtro de etnia em 2020, motivada pelo movimento Black Lives Matter, reconheceu o racismo na aplicação, mas a xenofobia persiste – em Portugal, as denúncias contra brasileiros cresceram 505% entre 2021 e 2022 (CICDR, 2023). Para pessoas LGBTQIA+ racializadas, e até para mim, que sou branco e testemunho isso, o impacto é devastador, reforçando sentimentos de insegurança e exclusão.
Discriminação pela aparência: Julgamentos superficiais
A discriminação pela aparência ocorre quando pessoas são rejeitadas com base em padrões estéticos, como peso ou traços físicos. No Grindr em Beja, recebi insultos como “és aquela bixa gorda e careca” e fui bloqueado após enviar fotos de rosto, como num caso recente com um rapaz de 30 anos que, após insistir por nudes, me rejeitou com “não gosto”, mesmo sabendo do meu trauma recente com doxxing. Relatos globais indicam que homens fora dos padrões de juventude e masculinidade enfrentam rejeição imediata (Chan, 2018). Esta objectificação intensifica a solidão e a baixa auto-estima, com estudos a mostrarem que 45% dos utilizadores de aplicações de encontros reportam impactos negativos na saúde mental devido à rejeição visual (Smith et al., 2020).
Estigma rural de visibilidade: O peso da invisibilidade
O estigma rural de visibilidade é a exclusão enfrentada por pessoas LGBTQIA+ em áreas rurais, onde ser assumido é visto como um risco social. Em Beja, fui bloqueado por ter fotos de rosto, com utilizadores a acusarem-me de “não ser discreto” – um perfil chegou a dizer que a minha casa, num rés-do-chão, “não era discreta”. Mais de metade dos perfis são “fantasmas”, praticando o que Paul B. Preciado (2008) chama de anónima violência queerfóbica – o anonimato que protege e incentiva agressões verbais. Um rapaz não assumido explicou-me que, em Beja, as pessoas temem perder o emprego ou ser ostracizadas se forem vistas com alguém assumido. Diferentemente das grandes cidades, onde a visibilidade é mais comum, em Beja ser aberto é punido, agravando o isolamento. Um estudo da ILGA-Europe (2023) revelou que 60% das pessoas LGBTQIA+ em áreas rurais portuguesas evitam ser assumidas por medo de discriminação, o que aumenta o risco de depressão em 50%.
Tentativas de Doxxing: Ameaças reais
O doxxing é a exposição pública de informações pessoais com intenções malévolas, frequentemente usada como arma contra pessoas LGBTQIA+. Em 4 de Junho de 2025, denunciei um utilizador do Grindr por doxxing: ele obteve a minha morada e informações pessoais, mentiu sobre a sua identidade (carro BMW vs. Renault), ficou à minha porta a 100 metros, e bloqueou-me após eu ameaçar reportá-lo. No dia seguinte, 5 de Junho, ele interagiu com o meu perfil “fantasma”, a 239 metros, enviando fotos íntimas. Foi a terceira vez em quatro anos que senti a minha casa em perigo, e a primeira que apresentei queixa à PSP. Outro utilizador, ao saber disso, culpou-me, usando o conceito de culpabilização da vítima (victim blaming), dizendo “se não gostas, não estás no Grindr”. O doxxing não é isolado – um relatório da GLAAD (2024) mostrou que 30% das pessoas LGBTQIA+ em aplicações de encontros enfrentaram ameaças de exposição. Para pessoas como eu, em Beja, isso gera medo constante, exacerbando ansiedade e stress pós-traumático.
Consequências: Isolamento, saúde mental e interseccionalidade
Estas discriminações não operam isoladamente – a interseccionalidade (Crenshaw, 1989) mostra como etarismo, racismo e estigma rural se cruzam, amplificando o impacto. Para um homem gay de 47 anos, branco, mas assumido, como eu, o etarismo e o estigma rural intensificam o isolamento; para uma pessoa LGBTQIA+ racializada, o racismo adiciona outra camada de exclusão. Em Beja, onde a saúde mental já é fragilizada (30% com sintomas de depressão, DGS, 2023), o isolamento LGBTQIA+ agrava o risco: 70% das pessoas LGBTQIA+ em áreas rurais relatam solidão severa, e 40% consideraram automutilação devido à discriminação (ILGA Portugal, 2023). A ausência de suportes LGBTQIA+ em Beja – sem centros de apoio, grupos comunitários ou linhas locais – deixa pessoas como eu, ou qualquer um, sem recursos para lidar com estas agressões.
Uma chamada à acção
Beja não é um caso isolado, mas a sua dimensão rural amplifica a toxicidade no Grindr, que deveria ser um espaço seguro, não de violência. A comunidade LGBTQIA+, organizações e colectivos devem pressionar o Grindr por mudanças: moderação eficaz, acesso a históricos de conversa após bloqueios (como já ocorre em algumas regiões) e agilização de denúncias. Localmente, é urgente criar suportes LGBTQIA+ em Beja – grupos de apoio, eventos seguros e parcerias. Partilhem as vossas histórias, juntem-se à luta, e transformem Beja num lugar de acolhimento. Vamos amplificar as nossas vozes!
Fernando André Rosa, sociólogo, especialista em prevenção da violência de género, membro do coletivo Panteras Rosa – Frente de Combate à LesGayBiTransfobia
Referências
Ahmed, S. (2014). The Cultural Politics of Emotion. Edinburgh: Edinburgh University Press.
Cáritas Portugal. (2024). Relatório sobre Imigração e Pobreza no Alentejo. Lisboa: Cáritas Portugal.
Chan, L. S. (2018). “The Role of Physical Appearance in Gay Dating Apps.” Journal of Sociology, 54(3), 287-302. DOI: 10.1177/1440783318766698.
CICDR. (2023). Relatório Anual sobre Discriminação Racial em Portugal. Lisboa: Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial.
Crenshaw, K. (1989). “Demarginalizing the Intersection of Race and Sex.” University of Chicago Legal Forum, 1989(1), 139-167.
DGS. (2023). Inquérito Nacional de Saúde Mental. Lisboa: Direção-Geral da Saúde.
FRA. (2022). EU-MIDIS II: Second European Union Minorities and Discrimination Survey – Roma. Viena: Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia.
GLAAD. (2024). Digital Safety for LGBTQ+ Communities: A Global Report. Nova Iorque: GLAAD.
ILGA-Europe. (2023). Rainbow Europe Report: Rural Challenges for LGBTQ+ Communities. Bruxelas: ILGA-Europe.
ILGA Portugal. (2023). Impactos da Discriminação na Saúde Mental LGBTQIA+ em Portugal. Lisboa: ILGA Portugal.
Preciado, P. B. (2008). Testo Junkie. Paris: Editions Grasset.
Rodríguez, M., et al. (2021). “Ageism in Dating Apps: A Study in Uruguay.” Revista Latinoamericana de Sociología, 12(2), 45-60.
Smith, A., et al. (2020). “Mental Health Impacts of Online Dating Rejection.” Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, 23(5), 321-328. DOI: 10.1089/cyber.2019.0523.


