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Cazuza: O poeta não morre 



Por ocasião dos 35 anos da morte de Cazuza.

Há dias dei por mim a pensar, talvez por ser um amante de MPB, como é possível viver num mundo sem a Gal Costa, o Cazuza ou a Elis Regina? Cheguei à conclusão de que, embora não estejam já, fisicamente, entre nós, a sua obra é transversal a gerações.

Cazuza (1958-1990) foi um cantor e compositor brasileiro, um dos maiores ídolos da geração do pop-rock dos anos 1980. “Exagerado”, “Codinome Beija-flor”, “Brasil” e “Faz Parte do Meu Show”, são alguns dos seus maiores sucessos.

Agenor de Miranda Araújo Neto, conhecido como Cazuza, nasceu no Rio de Janeiro, no dia 04 de Abril de 1958. Filho de João Araújo, produtor musical, e da cantora Lucinha Araújo, cresceu no meio artístico convivendo com grandes cantores da Música Popular Brasileira.

Cazuza foi aluno do tradicional colégio Santo Inácio de Loyola e do Colégio Anglo-Americano. Ainda jovem, começou a escrever poemas. Em 1976 foi aprovado para Comunicação, mas desistiu do curso três semanas depois. Começou a frequentar o Baixo Leblon, levando uma vida de boémio.

João Araújo, fundador e presidente da Som Livre, levou o filho para trabalhar na produtora . Inicialmente, Cazuza fazia a escolha de fitas de novos cantores, depois, passou a escrever “presa releases” para divulgar os artistas.

No final do ano de 1979, Cazuza foi para os Estados Unidos, onde fez curso de fotografia na Universidade de Berkeley, em São Francisco. Lá, despertou o interesse pela literatura da Geração Beat, dos chamados poetas malditos, que mais tarde teve grande influência na sua carreira.

Em 1980, Cazuza retornou ao Rio de Janeiro. No mesmo ano ingressou no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, no Circo Voador. Foi nessa época que cantou em público pela primeira vez, na peça “Paraquedas do Coração”.

Barão Vermelho

Em 1981, Cazuza foi indicado pelo cantor Léo Jaime para vocalista de uma banda que estava se formar-se na casa do teclista Maurício Barros, no bairro do Rio Comprido.

Cazuza levou para a banda as letras que havia escrito e logo passou a compor junto com Frejat. A banda, que antes só tocava “covers”, passou a ter seu próprio repertório.

Após ouvir a fita de demo da banda, o produtor Ezequiel Neves encaminhou-a para Guto Graça Mello, o director artístico da Som Livre, que convenceu João Araújo a apostar na banda.

Logo depois, estava formada a banda “Barão Vermelho” com os músicos Maurício Barros (teclado), Roberto Frejat (guitarra), Guto Goffi (bateria) e Cazuza (vocalista).

Em pouco tempo foi lançado o primeiro álbum da banda, intitulado “Barão Vermelho” (1982), com as músicas “Bilhetinho Azul”, “Ponto Fraco”, “Down em Mim” e “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, que foi elogiado pela crítica.

Depois de alguns shows no Rio de Janeiro e em São Paulo, a banda voltou aos estúdios e lançou “Barão Vermelho 2” (1983), quando se destacou a música “Pro Dia Nascer Feliz”, da autoria de Cazuza e Frejat.

Em 1984 a banda foi convidada para compor e gravar o tema do filme “Bete Balanço”, que foi sucesso de bilheteira. No mesmo ano, a banda lançou “Maior Abandonado” e a música “Bete Balanço”, que impulsionado pelas vendas conquistou “Disco de Ouro”.

Em 1985, o Barão Vermelho apresentou-se na primeira edição do Rock in Rio. A apresentação da banda no quinto dia do evento coincidiu com o fim da ditadura militar e Cazuza anunciou o facto e cantou “Pro Dia Nascer Feliz”.

O álbum “Maior Abandonado” foi o último sucesso da banda com a participação de Cazuza.

Carreira a solo

Em 1985, Cazuza iniciou a sua carreira a solo e nesse mesmo ano gravou o seu primeiro álbum, “Exagerado”, que fez grande sucesso com as músicas “Exagerado”, “Mal Nenhum”, “Codinome Beija-Flor”, entre outras.

“Exagerado”, a faixa-título composta por Cazuza e Leoni, tornou-se um dos grandes sucessos do cantor. No mesmo ano, Cazuza descobriu ser portador do vírus do VIH.

Em 1987, Cazuza lançou seu segundo álbum, “Só Se For a Dois”, que fez sucesso com as músicas românticas “O Nosso Amor a Gente Inventa”, “Solidão Que Nada” e “Ritual”.

Em Outubro de 1987, com os sintomas da doença a agrava-se, Cazuza foi internado para tratamento de uma pneumonia. Em seguida, foi levado para os Estados Unidos tentar um novo tratamento para a SIDA.

Depois de dois meses, Cazuza retornou ao Brasil e iniciou a gravação de seu terceiro disco “Ideologia”, que foi lançado em 1988, levando para os tops as músicas, “Brasil” e “Você Faz Parte do Meu Show”.

A música “Brasil,”, composta por Cazuza, George Israel e Nilo Romero, cantada por Gal Costa, foi tema da abertura da novela “Vale Tudo”(actualmente em remake na TV Globo), o tema “Ideologia” ganhou o Prémio Sharp de Melhor Álbum e “Brasil” ganhou o Prémio de Melhor Composição Pop-Rock do Ano.

Cazuza, já bastante debilitado pela doença, compareceu à premiação em cadeira de rodas.

Ainda em 1989, Cazuza lançou o seu último disco em vida, “Burguesia”, gravado com o cantor sentado numa cadeira de rodas e com uma voz bastante enfraquecida.

No álbum duplo, um deles foi formado com canções de rock brasileiro e o segundo com canções românticas. O cantor recebeu o Prémio Sharp, póstumo, de melhor canção do ano com “Cobaias de Deus”.

Morte

Cazuza, que desde 1989 havia declarado publicamente que era portador do vírus da SIDA, submetia-se a tratamentos alternativos em São Paulo e recorreu, mais uma vez, a tratamento nos Estados Unidos, retornando em Março de 1990.

Cazuza faleceu no Rio de Janeiro, no dia 07 de Julho de 1990, sendo enterrado no cemitério de São João Batista. Na sua lápide foi escrito o nome de seu último sucesso “O Tempo Não Para”.

Legado

Para além de todo o legado musical e poético que Cazuza nos deixou, não podemos esquecer que foi dos primeiros a desafiar a ditadura militar, então em vigor no Brasil, assumindo-se como homossexual e homem que vivia, na altura, com SIDA. Tudo isso faz dele um dos nossos heróis e antepassados, numa época em que ser gay ou ser seropositivo era para ser vivido em silêncio. 

Cazuza, o meu bem haja.

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Foto: CAFé Simone Pedaços (original version), CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Ricardo Falcato

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