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A minha perspectiva do Orgulho LGBT



Há muito tempo que não escrevo nenhum artigo, mas hoje tenho dois motivos para o fazer. Primeiro porque acabei de participar no Pride de Londres e segundo porque acabei de ler o artigo “O armário” de José António Saraiva. Vou dar prioridade à questão que mais me assola neste momento e é a frase do jornal sensacionalista onde José António Saraiva escreve o seguinte: “Orgulho tem-se naquilo que foi obtido com o nosso esforço”.

Sempre presumi, até porque era uma assíduo espectador do “Sexo e a Cidade” que para se ser colunista num jornal se tinha de saber do tema em questão ou pelo menos vivê-lo e experienciá-lo e, parece-me que, no caso de José António Saraiva não acontece nem uma nem outra. José António Saraiva tem opiniões interessantes acerca da comunidade LGBT portuguesa e mundial, mas acho que deveria ler e informar-se um pouco mais antes de brindar a sociedade portuguesa com a sua opinião.

Mas antes de falarmos de brindes e de orgulho, deixe-me só partilhar que se não fosse pelo homossexual Alan Turing que criou as bases para toda a tecnologia que existe actualmente, não seria possível termos hoje computadores. Portanto, José António Saraiva sugiro-lhe que seja coerente e que deixe de usar computadores e demais tecnologia. A comunidade LGBT agradece.

Falemos então de Orgulho e da razão pela qual a comunidade LGBT tem orgulho e sai à rua. Todos os anos lutamos por mais e mais direitos, não só das pessoas LGBT que são nossas contemporâneas, mas estamos a criar as bases para anos futuros. Tenho a certeza que no futuro esta forma quase primitiva de separar as pessoas porque são diferentes será abordada nas universidades. Quem não está familiarizado com as marchas gays ou acha que são somente o dia em que ocupamos a rua para sermos extravagantes, deixem-me sugerir dois filmes: “Milk” (2008) e “Pride” (2014). Com eles percebemos a luta das pessoas da comunidade LGBT nos Estados Unidos da América e no Reino Unido e as razões pelas quais saímos à rua em várias cidades em Portugal.

O filme Pride é um claro exemplo da humanidade e luta por causas sociais que são inerente à comunidade LGBT. Quando o Governo de Direita da falecida ex-Primeira-Ministra Margaret Tatcher bloqueou os fundos do Sindicato Nacional de Mineiros no Reino Unido, foi a comunidade LGBT que se disponibilizou para fazer angariação de fundos para apoiar os mineiros. Corria o ano de 1984. Qual o motivo pelo qual a comunidade LGBT apoiou os mineiros? Os mineiros estavam a ser vítimas de discriminação e a vasta maioria deles e delas eram heterossexuais. A fotografia que acompanha este artigo mostra Jonathan Blake de camisa, um dos membros da Gays and Lesbians Support the Miners Association e Dai Donovan membro original do sindicato Broadcasting, Entertainment, Cinematograph and Theatre Union (BECTU) que veio do país de Gales para participar na marcha. Pessoas como o Jonathan e o Dai são figuras históricas do nosso movimento na comunidade LGBT, tal como existem muitas outras na sociedade portuguesa. Se começasse a escrever os nomes de pessoas que são modelos para a comunidade LGBT, dava uma lista com mais de cinquenta nomes. Compreendo que para José António Saraiva esta coisa de marchas seja difícil de perceber e até que veja tudo isto como um “disparate” já que me parece que não saiu à rua para lutar por direitos. Já que estou numa de recomendar leituras, leia a Carta dos Direitos Humanos das Nações Unidas e perceba de uma vez por todas a razão pela qual saímos à rua.

A comunidade LGBT usa a palavra Orgulho porque lutamos para adquirir os mesmos direitos que os heterossexuais têm à nascença. Imagine que os médicos e enfermeiros lhe perguntavam: É heterossexual? Então não pode (inserir aqui uma das opções: 1) dar sangue, 2) adoptar, 3) casar).

Hoje ao caminhar nas ruas de Londres entre Baker Street e Trafalgar Square, senti verdadeiro orgulho a cada passo que dava. À minha frente e a atrás de mim estavam os sindicatos de mineiros de todo o país, que se deslocaram a Londres para apoiar a nossa causa, tal como a comunidade LGBT os apoiou há 30 anos! Isso para mim é motivo de orgulho. Tal como o facto de ter sido reconhecido nos Estados Unidos da América a igualdade no acesso ao casamento. Finalmente!

Todas as pessoas que fazem parte da comunidade LGBT, da qual faço parte com extremo orgulho (e este é aquele momento que o leitor procura a palavra orgulho num dicionário de língua portuguesa e que percebe que na definição não diz que é um pecado) de estar vivo e de poder marchar pelos direitos de todos os gays, lésbicas, bissexuais e transgénero que ainda não nasceram, mas que vão nascer nas próximas décadas, fruto na sua maioria da união de casais heterossexuais, e que vão ter de enfrentar dia após dia a sociedade. 

E já que José António Saraiva fala de esforço (palavra horrível na minha opinião) deixe-me dizer-lhe que a comunidade LBGT em Portugal, mais do que se esforça, tem um profundo compromisso e capacidade de ajudar o próximo. E que por vezes somos iguais às outras pessoas; pois também julgamos pessoas em elevadores, também beijamos ou damos as mãos às pessoas de quem gostamos. Também somos mulheres e homens trabalhadores e, acima de tudo, honestos.

Hoje, estive rodeado de pessoas incríveis: médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, polícias, bombeiros e bombeiras, que marchavam alegremente, mostrando que as suas instituições as acolhiam. Inúmeras empresas privadas de gestão como PWC e Delloite, supermercados como o Tesco e o Sainsburys, serviços públicos como o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), estavam todos representados no London Pride pelos seus trabalhadores LGBT. Confesso que a princípio pensei que era um pouco estranho, mas depois apercebi-me que estava a ser retrogrado e que é natural que empresas e negócios comecem a incluir a comunidade LGBT, pois nós somos um nicho de mercado muito importante e estudado nas aulas de economia em países como Alemanha, Estados Unidos, França e Reino Unido. Somos importantes tanto a nível de esforço como a nível de contribuições socioeconómicas. Somos mais activos na sociedade, saímos à rua com ou sem medo e damos o nosso melhor. À medida que os anos passam deixamos de ser rancorosos com pessoas como José António Saraiva, e passamos a rir com grandes e longas gargalhadas, pois a ignorância humana é segundo as palavras do cientista heterossexual Albert Einstein “tão vasta como o próprio universo”.

 

João Frias em Londres

27 de Junho de 2015

 

(em breve mais fotos)

 

6 Comentários

  • Tiago Oliveira

    João, foi bom ler estas linhas. Tenho-me pronunciado de semelhante forma quando ouço comentários semelhantes até de LGBTs que me deixam muito triste. Também estive no Pride de Londres que é a meu ver um dos melhores exemplos de inclusão e aceitação europeus de pessoas LGBT. A cidade transforma-se em “Pride”: revistas, jornais, anúncios, metro e autocarros e taxis, supermercados, canais de TV, empresas aqui e acolá, bandeiras hasteadas, pessoas! Celebra-se o orgulho e a alegria. Até o London Eye se torna multicolor!

    Como li na TimeOut da semana passada “Londoners have a lot to be proud of. Our city is green, not too mean and relatively clean. But once a year, that green turns into a rainbow and clean gets a little dirty–and London somehow gets even better. Yes, Pride returns to the streets of our city this weekend, and it truly shows our best side. Inclusive, progressive, open, fun and totally fabulous. If only every day was like Pride; then we might not be such a bunch of grumpy cynics. But for one day at least, just enjoy how brilliant it all is” 🙂

  • João Delgado

    “Hoje, estive rodeado de pessoas incríveis: médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, polícias, bombeiros e bombeiras, que marchavam alegremente, mostrando que as suas instituições as acolhiam. Inúmeras empresas privadas de gestão como PWC e Delloite, supermercados como o Tesco e o Sainsburys, serviços públicos como o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), estavam todos representados no London Pride pelos seus trabalhadores LGBT”

    Isto é o que faz falta no nosso PRIDE. Infelizmente cá em Portugal ainda exite uma mentalidade muito conservadora neste aspecto.
    Faz muita falta que o pessoal comesse a ter a mentalidade de que o PRIDE e a marcha do orgulho LGBTI não é só para os bares/associações gays se representarem, mas sim para toda a sociedade que se identifica com a luta e com o orgulho LGBTI. Inclusive chega a ser muito triste haver associação desportivas/culturais/ect em que dizem que o seu objetivo é é a inclusão de todas as pessoas através do desporto, independentemente da sua orientação sexual, raça, cor, religião,etc, não virem as marchas do orgulho LGBTI com a desculpa de não serem associações LGBTI. Cá a palavra orgulho ainda mete medo a muita gente
    Faz muita malta haver maior integração de toda a a sociedade nesta causa, que no fundo é uma causa de toda a população

  • Rui

    Estive na pride nos US e, de facto, há aqui na parada muito marketing por empresas e propaganda política. A maior parte dos activistas portugueses ficariam apavorados com este tipo de “intrusões” na parada.
    Na minha opinião, a parada é política, mas também deve ser festa. Sou super de acordo com que toda a gente, todos os grupos e empresas tenham lugar na parada. Isso sim é a união de um país em torno do amor.

    Eu adoro Portugal, mas sinto que é um país em que é tudo q.b. Tolerância com os gays q.b. Igualdade entre os géneros q.b. E uma parada em que é tudo q.b.

    Depois de ver polícias, escuteiros, candidatos ao senado, escolas, universidades, heteros, equipas desportivas não lgbt… todos juntos a festejar o amor, não deixo de ficar um pouco triste com o nosso país. Em Portugal parece que todos fogem da parada e há um preconceito enorme com o festejar em torno da nossa causa.

  • João Miguel Gomes Delgado

    Eu adoro Portugal, mas sinto que é um país em que é tudo q.b. Tolerância com os gays q.b. Igualdade entre os géneros q.b. E uma parada em que é tudo q.b.

    É exactamente o que o penso da marcha e de a forma como é vivido e visto o orgulho ca em Portugal, eu até sinto que a propia marcha em Lisboa é muito conservadora comparada com o que se vê la fora, o que eu tenho pena

    Em Portugal muita gente e muitas organizações ainda vem o orgulho com uma coisa muito negativa e muitas veses são as primeiras a criticar e a julgar negativamente as pessoas que “defendem” esse mesmo orgulho

  • Anónimo

    mas onde é que essa Associação que integra pessoas pelo desporto disse que não ia à marcha por não ser uma associação lgbti?

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