Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando. Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertolt Brecht
Temos observado uma preocupante ascensão de regimes de extrema-direita nos últimos tempos. Aos poucos, um pouco por todo o mundo, ditaduras erguem-se, guerras nascem, direitos são retirados. Mas nem sempre foi assim.
No final do século XIX o mundo parecia caminhar em direcção ao progresso e à igualdade. A industrialização e o fortalecimento e expansão das ideias liberais faziam-nos crer na vitória da democracia e da paz. Foi com a Primeira Guerra Mundial, em 1914, que essa ilusão se quebrou de vez. Iniciada após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em semanas esta guerra engoliu toda a Europa, destruindo impérios, desestabilizando economias e matando milhões de pessoas.
Como se forma uma guerra? A Primeira Guerra Mundial começou a formar-se muito antes do assassinato do arquiduque. O nacionalismo extremo, que reinava um pouco por todo o lado, mas imperava particularmente nos Balcãs, foi a primeira das suas forças. As rivalidades entre os países foram a segunda, e aqui destaca-se a rivalidade entre a França e a Alemanha. As grandes potências da época debatiam-se por colónias, mercados e recursos. A crença de que a guerra era uma boa forma de resolver desavenças era, também, um ponto de ignição. O militarismo ganhava força, os países mantinham grandes exércitos e muito investimento em armamento.
Na Primeira Grande Guerra Mundial a Europa dividiu-se em dois grandes blocos: a Tríplice Entente composta pela França, Reino Unido e Rússia e a Tríplice Aliança, integrada pela Alemanha, Áustria-Hungria e Itália (que viria a mudar de lado depois). Essas alianças foram criadas para manter o equilíbrio de poder, mas na prática transformaram qualquer conflito local em um confronto continental.
A guerra não trouxe glória nem resolução — trouxe destruição, fome, miséria e uma sensação profunda de desilusão. Impérios como o Austro-Húngaro, o Russo, o Alemão e o Otomano ruíram. Milhões de mortos deixaram um vazio geracional. As cidades estavam em ruínas, a economia, em colapso e o Tratado de Versalhes, que deveria garantir a paz, plantou ressentimento e vingança, especialmente na Alemanha. A democracia nascida do fim da guerra revelou-se, com os anos, uma democracia fraca, que foi constantemente questionada e quebrada nos anos que se seguiram.
Nos anos que se seguiram à guerra, o cenário de ruína e desesperança abriu espaço para líderes carismáticos mas perigosos se erguem, lideres que prometiam restaurar a ordem e a glória nacional, mas que o fazem instaurando a repressão, o ódio e a violência. Da Itália de Mussolini à Alemanha de Hitler, passando por Portugal, Espanha, Brasil e vários outros, assistimos à consolidação de regimes autoritários que destruiram liberdades civis e sepultaram direitos humanos em nome de uma suposta salvação nacional. Existem sempre, nestes casos, traços comuns: o medo, a manipulação das massas, a censura, a perseguição aos “inimigos” internos e externos.
Nos artigos seguintes, revisitaremos esses momentos sombrios da história — não para os repetir, mas para os reconhecer quando tentarem voltar. Porque a história é cíclica.
Anabela Risso
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