Amanhã fico triste, amanhã.
Hoje não. Hoje fico alegre.
E todos os dias, por mais amargos que sejam,
Eu digo: Amanhã fico triste, hoje não.
(Pensamento encontrado na parede de um dormitório
de crianças do campo de extermínio nazista de Auschwitz.)
Contextualização
Após o final da Primeira Grande Guerra Mundial, a Alemanha vivia um período de profunda instabilidade política, económica e social. Derrotada e humilhada pelo Tratado de Versalhes em 1919, enfrentava hiperinflação, desemprego e descontentamento generalizado, crise que abriu espaço para movimentos radicais. Foi então que surgiu o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, vulgarmente conhecido como Partido Nazista, liderado por Adolf Hitler. A crise de 1929 agravou ainda mais a revolta e o ódio da população e o Partido soube aproveitar plenamente esse facto, através do seu discurso nacionalista, anticomunista e antissemita. Em 1933 Hitler foi nomeado chanceler e instaurou uma ditadura totalitária que procurava a “purificação” da sociedade alemã e a expansão territorial.
O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), mais conhecido como Partido Nazista, defendia uma ideologia baseada no nacionalismo extremo, racismo, autoritarismo e militarismo. Objetivava com isso restaurar a grandeza da raça alemã e unificar os povos germânicos sob um único império, o Terceiro Reich.
Os pilares da ideologia eram a superioridade da raça ariana e portanto a inferioridade de todas as outras (judeus, negros, ciganos, etc); o antisemitismo segundo o qual os judeus eram responsáveis por tudo o que ia mal na Alemanha, desde a derrota na guerra à crise económica; o totalitarismo, anticomunismo e antiparlamentarismo; o culto ao líder, sendo Hitler o salvador da pátria alemã; o militarismo e a expansão territorial.
Com a subida de Hitler ao poder todos os outros partidos foram dissolvidos e o estado passou a ser centralizado. As SA e as SS espalharam medo, censurando, reprimindo, ameaçando, prendendo e torturando os opositores do partido. Em 1935 surgiram as Leis de Nuremberg que retiraram a cidadania alemã e excluíram da vida pública os judeus. A perseguição rapidamente se espalhou a outros “indesejáveis”, nomeadamente ciganos, homossexuais, pessoas com deficiência, comunistas, etc. O que no início eram apenas leis discriminatórias em pouco tempo tornaram-se captura, prisão, extermínio e genocidio.
Direitos humanos
A liberdade de expressão, imprensa e associação foram quase automaticamente abolidas no início do regime. Todos os jornais, rádios, livros, artes e universidades eram controlados pelo estado assim como também os partidos politicos e outros opositores ao foram proibidos. Os judeus foram privados da cidadania, empregos públicos, educação, direito à propriedade e liberdade religiosa e, em conjunto com outras minorias como os ciganos, foram perseguidos, deportados e exterminados em campos de trabalho forçado como Auschwitz. Pessoas com deficiência foram vítimas do programa Aktion T4, que promovia a eutanásia forçada. Os homossexuais eram identificados com um triângulo rosa, presos, castrados e enviados para os campos de concentração. Cidadãos comuns perderam o direito à privacidade, ao voto, à manifestação, à liberdade de culto e ao julgamento justo. A Gestapo podia prender qualquer pessoa sem acusação formal.
Estima-se que durante os anos em que o regime nazista esteve no poder tenham sido mortos mais de 6 milhões de judeus e entre 200.000 e 500.000 ciganos (romani). Com o programa Aktion T4 entre 70.000 e 300.000 pessoas com deficiência foram assassinadas em hospitais e instituições, mais de 100.000 homossexuais foram presos e entre 5.000 e 15.000 enviados a campos de concentração. Cerca de três milhões de prisioneiros de guerra soviéticos foram executados ou deixados morrer de fome e frio. No total, estima-se que este regime tenha assassinado mais de 17 milhões de civis.
De entre os regimes autoritários o regime nazista foi dos que mais vitimas causou e aquele que mais ficou na memória da humanidade. No entanto é importante relembrar que não foi o único e que a sua ideologia, apesar do partido ter sido extinto, prevalece ainda de muitas formas. O nacionalismo exarcebado, o culto ao lider, o anticomunismo e antiparlamentarismo, a censura e o controle de informação, a discriminação e rejeição de minorias, os discursos de exclusão, o ordem, disciplina e repressão, a reescrita e negação da história, continuam presentes nos dias atuais, na extrema direita que temos visto erguer-se em vários países ultimamente – inclusive em Portugal.
Lembrar não é apenas um dever com o passado. É uma escolha de humanidade no presente. Para que nunca mais permitamos que o medo nos faça cúmplices. Para que nenhuma criança precise crescer entre ruínas, nenhuma família precise desaparecer no silêncio, e nenhum povo tenha que lutar por direito à existência.
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Anabela Risso
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