Epígrafe (Zora Neale Hurston)
“There are years that ask questions and years that answer.”
Em Na Casa dos Sonhos, Carmen Maria Machado constrói uma narrativa que funciona como um labirinto emocional (quem nunca lá esteve) onde o leitor é conduzido, quase sem perceber, para o mesmo ciclo de confusão, esperança e desespero que aprisiona a narradora. Numa das passagens a meio do livro, o texto avisa: “Não devias estar nesta página. (…) Vieste até aqui porque estás cansada do ciclo. Querias sair.” Esta frase descreve de forma certeira a lógica afectiva das relações abusivas: a consciência de que algo está profundamente errado, acompanhada pela incapacidade de quebrar um padrão. As escolhas parecem reais, mas são apenas desvios dentro da mesma estrutura opressiva. A própria construção do livro — com instruções de “vai para a página…” — reproduz a ilusão de controlo que marca tantos relacionamentos violentos. Este livro fala da violência doméstica entre pessoas queer.
As vinhetas ilustram momentos de paixão e romance quase sempre edilícias, sem testemunhas, entre as amantes e num espaço de um quarto ou de um carro. Quando a agressora explode com insultos — “És mesmo uma cabra do caralho. Nunca tens a responsabilidade de nada.” — não se trata apenas de violência verbal. É um acto de dominação, de reorganização da identidade da vítima a partir do insulto, desmontando-lhe a autoconfiança e a capacidade de julgamento. Esta dinâmica é reconhecível em relações heterossexuais, mas nas relações entre pessoas do mesmo sexo adquire uma opacidade particular. A homofobia entranhada — social e interiorizada — cria a ilusão de que a violência queer “não existe” ou é demasiado rara para ser nomeada. Assim, o abuso instala-se com mais facilidade, protegido pelo silêncio e pela ideia errada de que duas mulheres ou dois homens partilham automaticamente uma relação equilibrada ou sem assimetrias de poder.
É neste ponto que o recurso de Machado ao Motif-Index of Folk-Literature se revela tão poderoso. O Motif-Index of Folk-Literature é um sistema de classificação criado por Stith Thompson que organiza, de forma temática e numerada, os motivos narrativos recorrentes em contos tradicionais, lendas, mitos e outras formas de literatura oral do mundo.
Ao marcar certos episódios com códigos de tabus folclóricos, a autora mostra que a violência íntima tem raízes profundas em sistemas culturais que organizam o que pode ou não ser dito, feito ou sentido. O motivo C481, “Tabu: cantar”, surge quando a agressora controla até a expressão mais espontânea da narradora: “Ela canta a par com a música no carro, mas só quando há música a tocar. Pedes-lhe para cantar para ti, sem música, mas ela recusa-se.” O gesto, aparentemente banal, revela a profundidade do controlo: regular a alegria, o corpo, a voz. Dizer quando a outra pessoa pode ou não existir plenamente.
De forma ainda mais explícita, surge o motivo C420.2, “Tabu: não falar sobre determinado acontecimento”, quando a agressora afirma: “Não tens autorização para escrever sobre isto. (…) Não escreves sobre isto nunca.” Este comando é a essência da violência doméstica: proibir a narrativa, impedir a vítima de compreender e de contar o que vive. O silêncio torna-se arma de quem agride e prisão de quem sofre. É por isso que a narradora conclui, noutra passagem sublinhada: “Sobreviveram.” Sobreviver é o mínimo quando não há possibilidade de fala; é viver num espaço reduzido, sem horizonte, apenas a tentativa de chegar ao dia seguinte.
A páginas tantas e a propósito de uma noite das bruxas, o Halloween, uma namorada da narradora decide ir de Dalek, figuras de Doctor Who. A agressora acusa-a: “Porque é que deixaste ser a porra de um Dalek?” E a explicação que a narradora tenta dar — “uma força de vida alienígena (…) que se disfarça como uma estátua de anjo choroso. Eles mandam as vítimas para o passado e alimentam-se da energia potencial da vida que já não é vivida no presente.” Nesta passagem, Machado tenta através de uma analogia ficcional traduzir o efeito da violência: roubar o futuro, consumir a vitalidade, prender a pessoa numa repetição infinita do trauma. A vítima deixa de viver no presente, movendo-se apenas no terreno da sobrevivência.
Também os contos tradicionais surgem como metáfora deste envenenamento emocional: “como as pessoas nos contos de fadas bebem a poção que as transformará, ou o guerreiro incauto bebe a taça que acabará por matá-lo” (paráfrase de Patricia Highsmith em O Preço do Sal). A promessa do amor, quando atravessada pela homofobia, pelo segredo e pela precariedade afectiva, torna-se muitas vezes essa taça envenenada: sedutora, mas destrutiva. Machado, em nota de rodapé dá o exemplo de um caso real das duas mulheres que, em 2018, mataram os seis filhos adoptivos e se suicidaram — “um casal de lésbicas brancas que deixou os seus seis filhos adoptivos negros à fome e depois se despistou com eles de carro do alto de uma falésia” — surge como exemplo extremo de como a violência queer é tratada como impossibilidade, como escândalo ontológico, precisamente porque a sociedade não admite que a violência existe em todas as configurações familiares.
Machado reconhece esta tensão quando admite: “não consigo deixar de adorar esses vilões queer ficcionais (…) por serem fabulosos, impiedosos, pelo seu poder.” Aqui, a autora desvela o mecanismo cultural que tantas vezes empurra pessoas queer para relações destrutivas: quando as únicas representações disponíveis são monstruosas, aprende-se a amar o monstro. Aprende-se a confundir poder com afecto, intensidade com amor, teatralidade com intimidade. A cultura molda a forma como se deseja; se a cultura oferece figuras violentas, o desejo forma-se à sua imagem.
Apesar disso, o livro recusa o desespero como destino final. A Casa dos Sonhos é simultaneamente o espaço do terror e o esboço de um futuro possível. O sonho, aqui, funciona como direcção — não como fuga. Representa a capacidade de imaginar relações queer que não se organizem à volta do segredo, do tabu e da violência, mas da presença, da escuta e da dignidade. A frase inicial — “Querias sair. És mais esperta do que eu.” — é uma espécie de convite ético: reconhecer o ciclo é o primeiro passo para o quebrar.
No final, Carmen Maria Machado demonstra que a violência doméstica entre pessoas do mesmo sexo não é anomalia, nem desvio, nem fantasia mórbida. É uma realidade produzida por décadas de silêncio, homofobia e ausência de modelos amorosos saudáveis. Escrever sobre isso — contra as proibições, contra o medo, contra o tabu — é, por isso mesmo, um gesto profundamente político. Só quando se transforma o indizível em linguagem é que as décadas que fazem perguntas se tornam, finalmente, em anos que respondem.
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Título original: In the Dream House
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Alfaguara Portugal
ISBN: 9789895836291
Páginas: 336
Ano da edição portuguesa: 2025
Ano da edição original: 2019
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André Castro Soares


