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A censura por trás do Almanaque Caralhal



O Almanaque pornográfico que mudou discussões públicas em 1860 e que deves ler em 2025.

Em 1860, no Porto, surge um objeto bibliográfico que parece uma piada, aclamado Almanaque Caralhal. Anónimo, satírico e pornográfico para o seu tempo, e profundamente revelador do que um país queria reprimir e do que um país estava a começar a verbalizar.

Ao circular clandestinamente, este almanaque forçou a ciência, o jornalismo e a literatura a nomear sexualidades. Não havia ainda a “LGBTQ+”. Mas começa aqui a patologia moderna em que o sexo entre homens é descrito como “inversão sexual” — uma doença, não um comportamento social. Este léxico pseudocientífico vai dominar quase toda a segunda metade do século XIX.

Ler hoje o Almanaque Caralhal é lidar com linguagem que quase desapareceu: fanchono, parrameiro, bimbas, gálico… e expressões que mudaram radicalmente de sentido. É também lidar com temas que hoje reconhecemos como violência, misoginia, racismo, homofobia, e a sexualização de menores (tema que hoje sabemos reconhecer imediatamente como abuso, não como “picaresca”).

“O fanchono por vocação, essa entidade indecifrável, que faz figas ao buraco por onde saiu, que sente convulsões nervosas quando vê a mulher, que estremece quando se lembra que o homem, a obra mais perfeita da criação, saiu por um buraco imundo, e que num igual buraco vai saciar prazeres que ele julga só se podem verdadeiramente gozar nas macias e acetinadas mãos de um puto, é na realidade o mais admirável dos tipos do fanchonismo.” – Fisiologia do fanchono

O almanaque é testemunho histórico de como se produziu o discurso de opressão. Inicialmente o sexo homossexual deixou de ser crime em 1852 segundo o Código Penal, em 1886 voltou a ser criminalizado, reprimido pela Igreja Católica e pelo regime do Estado Novo, sendo apenas despenalizado em 1982.

Este pequeno objeto impresso é, portanto, mais do que um almanaque, é uma peça do puzzle histórico que explica como se construiu o olhar sobre as pessoas LGBTQ+ e como esse olhar foi criminalizado pelo Estado e pela moral dominante.

Em 2025, a editora portuguesa INDEX publica uma nova edição crítica do Almanaque Caralhal. Repor a circulação de obras censuradas não é só “resgatar curiosidades”, é devolver ao público documentos que ajudam a compreender como o Estado e a Igreja regularam o corpo, o desejo e a linguagem.

“Uma manhã convidei o meu namoro… macho a tomar banho comigo — a despir-se na minha barraca! Acedeu ao meu pedido — dignou-se aceitar o meu convite!

Que feliz manhã aquela! A aurora vinha despontando cheia de júbilo, mais risonha do que nunca! Como não havia de ser assim se ela vinha anunciar um acontecimento maior, mais extraordinário do que aquele que é fado seu anunciar?!

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Estamos nus… eu e ele!

Leitor, há coisas que nem se descrevem, nem se pintam! o tal ele nu está neste caso. Que a imaginação do meu leitor supra a ausência de uma descrição impossível, a falta de uma pintura, que o não é menos.” – Na praia de Pedrouços

Ler o Almanaque Caralhal não é nostalgia nem fetichização do proibido, é um trabalho de memória pública. É confrontar a forma como o Estado, a Igreja e a ciência construíram explicações para o desejo e como, muitas vezes, essas explicações serviram para perseguir, humilhar e apagar. Recuperar esta peça obscura do século XIX é continuar a desmontar a história da censura… e reocupar o nosso lugar nela.

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Título: Almanaque Caralhal

Género: Colectânea de conto, poesia, reflexões

Reedição: 3 Novembro 2025

Edições: Ebook, capa mole e capa dura na Amazon Portugal, Amazon Brasil e outras lojas Amazon pelo mundo.

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Sara Gonçalves

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