Nos tempos de hoje, que tanto se fala de emigrantes, é importante lembrar que há muitos indivíduos que são discriminados, que se queixam de discriminação, que são vítimas de intolerância, mas que eles próprios também são discriminadores e intolerantes. Referimo-nos aqui à intolerância negativa, e não à positiva (a intolerância para com os intolerantes), e no caso da discriminação, referimo-nos à discriminação social, e não à que um indivíduo faz nas suas escolhas privadas. Na discriminação social existe a discriminação extrínseca (de dentro para fora), e a discriminação intrínseca (de dentro dos próprios grupos discriminados).
No que diz respeito à discriminação extrínseca, temos por exemplo homossexuais que discriminam negros, e que praticam o racismo, ou negros que discriminam os homossexuais, e que praticam a homofobia. Temos ainda estrangeiros que se queixam de xenofobia, mas que são racistas, ou negros que se queixam de racismo, mas que são xenófobos, ou estrangeiros que são homofóbicos, apesar de se queixarem da discriminação por serem estrangeiros. Há também indivíduos que discriminam pessoas de certos partidos políticos (por exemplo os que discriminam os comunistas), ou os que discriminam pessoas de certas religiões (por exemplo os muçulmanos). Muitos homossexuais são racistas e xenófobos, mas também há muitos homossexuais anticomunistas, ou homossexuais anti-muçulmanos, assim como também há comunistas e muçulmanos que são homofóbicos. O grau de discriminação varia, neste caso a discriminação de um muçulmano para com um homossexual poderá ser muito maior do que a discriminação de um estrangeiro para com um homossexual. No caso da discriminação de um homossexual para com um muçulmano, os motivos são diferentes, neste caso pode ser a reacção para com a homofobia que anda geralmente associada à religião muçulmana, sobretudo da parte dos muçulmanos radicais. O mesmo não se pode dizer da discriminação dos homossexuais para com os estrangeiros, pois embora um muçulmano radical seja homofóbico, o estrangeiro que seja homofóbico não o é devido ao facto de ser estrangeiro, a não ser um estrangeiro que seja proveniente de países cuja cultura é homofóbica, e não necessariamente devido à religião. Há também mulheres que se queixam de discriminação pelo facto de serem mulheres, mas que discriminam outros indivíduos, como por exemplo os homossexuais, assim como há também homossexuais que discriminam as mulheres. Nem mesmo as questões do género (identidade de género, expressão de género, papéis de género), que por vezes andam associadas à homossexualidade, fazem com que as mulheres, também vítimas da discriminação de género, sejam solidárias para com os homossexuais, assim como há muitos homossexuais que não são solidários para com as mulheres, e são até machistas. Há também idosos que se queixam de serem discriminados, mas que discriminam outras pessoas (devido à sua orientação sexual, à sua ideologia política, à sua crença religiosa, etc.). Enfim, com estes exemplos, há que sublinhar que muitos indivíduos que são discriminados discriminam também outros que são discriminados.
Mas não se pense que é só de dentro para fora (em relação a outras “comunidades”), que a discriminação acontece, pois dentro das próprias comunidades há discriminação entre os respetivos indivíduos. Entre os negros, as mulheres, os comunistas, os muçulmanos, os homossexuais, etc., existe também discriminação entre eles, como por exemplo nas facções dentro dos comunistas (entre uns mais moderados e outros mais radicais), ou por exemplo dentro da religião muçulmana (neste caso, entre os Xiitas e os Sunitas, as duas grandes facções da religião muçulmana).
No caso dos homossexuais, existem também alguns tipos de discriminação entre os próprios homossexuais : há homossexuais do sexo masculino que discriminam os homossexuais “efeminados”; há homossexuais do sexo masculino que discriminam as lésbicas; há lésbicas que discriminam os homossexuais do sexo masculino; há homossexuais que discriminam os homossexuais bears (“ursos”) e os homossexuais fetichistas; há homossexuais que discriminam os homossexuais idosos, chamando-lhes “velhos”, dado que estão demasiado presos a um ideal de “beleza”, e muitas vezes nem são velhos, mas não cumprem o ideal de “homem perfeito”, etc. Até mesmo estes pormenores são uma certa forma de discriminação, que tem consequências negativas na relação social, que por vezes se torna associal, ou até mesmo antissocial, nas comunidades onde seria de esperar uma certa solidariedade entre os indivíduos discriminados.
Por conseguinte, há muitos indivíduos discriminados por outros indivíduos pelo facto de não serem exatamente como eles, que com dificuldade se podem refugiar dentro da “sua própria comunidade”, pois aqui vão também encontrar muitas diferenças. Existem mesmo indivíduos homossexuais que não se aceitam por serem homossexuais, e que discriminam os próprios homossexuais, não devido a nenhuma especificidade, mas somente pelo facto de estes serem homossexuais (sucede neste caso a chamada “homofobia internalizada”).
Há também indivíduos que não criticam, que não dizem “piadas” contra os discriminados, que não expressam juízos discriminadores, e que dizem que não discriminam, mas que na prática são discriminadores (há, portanto, que ter em conta não aquilo que ele diz, mas aquilo que ele faz). Enfim, preconceitos todos têm, mesmo os que são alvo de preconceitos. Isto revela que é muitas vezes difícil pôr-se no lugar do outro. Por outro lado, esse indivíduo não tem de criticar os que são discriminadores, pois ele também discrimina. O ser humano é contraditório em muitas coisas, uma das principais é dizer uma coisa e fazer outra, mas a contradição ainda maior é um indivíduo ser discriminado, e apesar de tudo também discriminar os outros. Isto revela por outro lado que não há uma identidade negra, religiosa, política, mas muitas, e que não há uma identidade homossexual mas muitas, e que muitos indivíduos não as sabem ultrapassar, nem compreender, fechando-se na sua “especificidade” e olhando todos os outros com estranheza, ficando por isso sem legitimidade para reclamarem compreensão para a sua causa, dado que eles próprios não dão o exemplo de não discriminação.
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Victor Correia


