A culpa é da água, curta de animação sobre a vida de Gisberta, mulher trans assassinada no Porto, venceu o Prémio Futuro do Festival Política 2025, anunciado durante o encerramento do festival em Coimbra. A obra destacou-se entre jovens realizadores pela abordagem sensível e urgente à memória de Gisberta e à reflexão sobre injustiça social e vulnerabilidade.
A curta reconstrói, em cinco minutos de animação, o percurso trágico de Gisberta Salce Jr., mulher trans imigrante cuja vida foi marcada pela discriminação, pela perda de sustento após receber o diagnóstico de VIH e por um processo de exclusão social que a empurrou para a situação de sem-abrigo e para a dependência química. Em 2006, Gisberta foi brutalmente assassinada por um grupo de jovens, um crime que chocou o país e revelou a vulnerabilidade extrema da comunidade trans.

Desde então, a sua memória tem sido preservada através de diversas iniciativas: a Rua Gisberta Salce Júnior, no Porto, foi nomeada em sua homenagem; vigílias, manifestações e marchas pelos direitos trans recordam o seu legado e denunciam a violência contra pessoas LGBTQIA+; e diversas obras culturais, como esta curta de animação, procuram manter viva a história de Gisberta e sensibilizar para os problemas sociais que enfrentam pessoas trans e imigrantes.
Criado por Ana Leonor Guia, Marta Quintanito Roberto, Ruben Pinto e Tiago Magalhães, alunos do Instituto Politécnico de Portalegre, o filme recupera uma das histórias mais marcantes e dolorosas da comunidade LGBTQIA+ em Portugal, evocando a forma como o país lidou — ou falhou em lidar — com a desumanização que rodeou a morte de Gisberta.
Em 2025 o Festival Política decorreu em seis cidades — Lisboa, Braga, Coimbra, Aveiro, Loulé e Grândola — com quase 100 iniciativas e cerca de sete mil participantes. A edição de 2025 teve como propósito promover os direitos humanos, a cidadania, a memória colectiva e a justiça social, destacando histórias de exclusão, vulnerabilidade e injustiça social.
Em 2026, o evento regressa com a Constituição como tema central, no ano em que se assinalam os 50 anos da aprovação da Lei Fundamental da Democracia portuguesa.
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Bruno Kalil


