opinião

A dicotomia política Esquerda-Direita e a homossexualidade



A dicotomia política esquerda-direita remonta à Revolução Francesa, quando os Estados Gerais, transformados em Assembleia Constituinte, iniciaram em Versalhes um debate sobre o direito de veto do rei. Tratava-se de saber se, no regime de monarquia institucional que se estava a instaurar, o monarca poderia ou não dispor de um direito de decisão superior à soberania nacional, isto é, de um poder com primazia em relação aos representantes do povo reunidos em corpo político no que diz respeito à expressão da lei. Para manifestar a sua escolha, os partidários do direito de veto real instalaram-se na sala (aquilo a que chamaríamos hoje um hemiciclo), à direita do presidente da mesma, enquanto os adversários desse direito de veto instalaram-se à esquerda. A dicotomia política direita-esquerda, puramente topográfica no início, tinha nascido. Ela expandiu-se progressivamente em toda a Europa, e depois no resto do mundo.No entanto, existe hoje uma tendência para perguntar pela validade e pela atualidade dessa dicotomia. Há várias maneiras de responder a esta questão. Uma delas consiste em interrogar-se sobre o sentido exato que é necessário atribuir aos termos de esquerda, e de direita, tentando relacioná-los quer a temas permanentes que os caracterizam em si próprios, quer a temperamentos, isto é, a sensibilidades,  cuja existência se poderia assinalar no seio de famílias políticas bem determinadas, quer ainda a conceitos-chave que constituiriam o seu núcleo duro e cujo valor poderia facilitar a análise. Porém, esta tarefa não é fácil. Por um lado, os grandes temas ideológicos não cessaram ao longo da História de viajar da direita para a esquerda, e da esquerda  para a direita. Há matérias que pertenciam tradicionalmente à direita (por exemplo a defesa da etnicidade), que passaram a ser também defendidas pela esquerda. Há matérias que pertenciam tradicionalmente à esquerda (por exemplo a Ecologia), que passaram a ser também defendidas pela direita. Por outro lado, houve sempre várias esquerdas e várias direitas, cuja redução a um ideal-tipo unitário se revelou geralmente impossível. Há ainda a acrescentar aqueles que não se consideram nem de esquerda nem de direita, mas sim do centro. Finalmente, o que se entende por  direita e esquerda varia consideravelmente segundo as épocas e os lugares. Por exemplo, em França, a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, foi aprovada por um Governo de direita, apesar de a direita ser geralmente contra essa despenalização, e a esquerda ser a favor. Ora, tudo isto torna  problemática a distinção entre política-direita.

Hoje há causas que não são de direita nem de esquerda. Por exemplo, ser contra a proliferação dos veículos tuk-tuks nas ruas de Lisboa, ser contra o trabalho infantil, ser contra a violência doméstica, ser contra a escravatura,  ser contra os maus tratos de animais, ser contra a poluição do meio ambiente, etc., não são questões  de direita nem de esquerda, pois todos os partidos políticos criticam estes problemas.

Por outro lado, há causas que seria de esperar que não fossem defendidas por partidos de esquerda, mas que o são. Por exemplo, a propósito da luta entre Israel e a Palestina, há pessoas que são a favor de Israel, e outras que são a favor da Palestina. Em Israel há muito mais liberdade para os homossexuais e para as mulheres. Visitei recentemente a cidade de Telavive, capital de Israel, e vi várias bandeiras arco-íris (símbolo da comunidade LGBT), hasteadas em bares. Isso na Palestina é totalmente impossível. Em Israel as mulheres gozam de direitos, enquanto na Palestina, e noutros países muçulmanos, as mulheres são discriminadas, e há uma mentalidade muito moralista para com as mulheres. Por exemplo, ao visitar as praias de Telavive, encontrei as mulheres a tomarem banho de bikini, enquanto as mulheres muçulmanas aí a viverem, tomavam banho vestidas do pescoço até aos pés. Seria de esperar que a esquerda (hoje mais conotada com as defesa dos homossexuais e com a defesa dos direitos das mulheres), defendesse Israel e contestasse a Palestina, mas é precisamente o contrário que acontece, pois a generalidade da esquerda é a favor da Palestina, e a generalidade da direita é a favor de Israel. Não se trata apenas do genocídio na faixa de Gaza, pois isso tanto a generalidade da direita como da esquerda o criticam. Trata-se simplesmente da simpatia pelo povo palestiniano: a generalidade da esquerda nutre simpatia pela Palestina, enquanto a generalidade da direita nutre simpatia por Israel. Ora eu pessoalmente, embora seja de esquerda, sinto mais simpatia por Israel, preferiria viver em Israel a viver na Palestina, aliás, nunca viveria na Palestina, pois sou homossexual, e aí os homossexuais são perseguidos. Em Israel, por exemplo, todos os anos se celebra o orgulho LGBT, e há uma grande marcha nas ruas de Telavive, como nas grandes cidades europeias, mas isso na Palestina é totalmente proibido.

Tradicionalmente a defesa dos direitos das minorias está associada à esquerda, mas há que ver de que minorias se trata. No caso das minorias sexuais, nem sempre a sua defesa foi uma preocupação da esquerda. Marx, Engels, e Lenine, proferiram afirmações homofóbicas, e há escritos e entrevistas destes grandes ideólogos comunistas, a criticarem a homossexualidade. Por exemplo, os partidos comunistas (na União Soviética, em Cuba, na China, na Coreia do Norte, e em países europeus comunistas antes da queda do muro de Berlim) discriminavam os homossexuais. Estaline, na antiga União Soviética, criminalizou a homossexualidade, e os homossexuais eram metidos em campos de concentração. Fidel Castro, em Cuba, também criminalizou a homossexualidade, e os homossexuais também foram metidos em campos de concentração. Em Portugal, Júlio Fogaça, um importante militante do Partido Comunista Português, que chegou a ser seu dirigente, era discriminado pelo seu próprio partido, por ser homossexual. Nas circunstâncias da expulsão de Júlio Fogaça, do PCP , misturaram-se questões políticas com questões homofóbicas. Álvaro Cunhal, célebre dirigente do Partido Comunista Português, numa célebre entrevista, à televisão, na década de 1980, quando perguntado sobre o que pensava sobre a homossexualidade, respondeu : “é uma coisa muito triste”. Como líder político, de uma vanguarda de esquerda, Álvaro Cunhal tinha a obrigação de nos anos 1980 de ter ultrapassado o preconceito em relação à homossexualidade, e ter mostrado o seu apoio aos homossexuais. Ora, além de nunca os ter apoiado, ainda os condenou.  Aliás, o PCP ainda hoje lida com visível incómodo em relação ao tema da homossexualidade.

A homossexualidade sempre foi considerada pela esquerda como um “vício burguês”, era uma prática dos aristocratas, dos burgueses, das elites, e das classes altas. Isso não significa que entre as classes baixas socioeconomicamente ela também não se praticasse, mas os homossexuais eram mais visíveis e sentiam-se mais à vontade entre as classes altas, apesar das classes altas estarem tradicionalmente associadas à direita, e as classes baixas estarem tradicionalmente associadas à esquerda. Ainda hoje, muitos homossexuais sentem-se mais à vontade estando no meio do chamado jet-set, no mundo da moda, do glamour, das pessoas ricas economicamente (habitualmente associadas à direita), do que estando no meio das populações pobres e rurais, apesar de a esquerda política estar tradicionalmente mais associada a estas pessoas.

Na Europa, tem havido alguns políticos de direita e de centro-direita, que se têm assumido como homossexuais. Por exemplo, Jens Spahn (Alemanha), membro da CDU, católico e gay, ocupou cargos importantes como Ministro da Saúde, apesar de ser de um partido de centro-direita.  O ex-primeiro-ministro de Luxemburgo, Xavier Bettel, é um político liberal de centro, associado ao Partido Democrático (DP), que é um partido de centro-direita, é homossexual assumido, e as suas políticas foram muitas vezes vistas como progressistas em temas sociais, liderando a legalização do casamento homossexual no Luxemburgo. Em França, recentemente houve um primeiro-ministro abertamente homossexual: Gabriel Attal, que liderou um governo centrista. Também em França, O partido de extrema-direita francês Rassemblement National (RN) quer reabrir os bordéis. Esse partido está a preparar a apresentação de um projecto de lei no parlamento  francês, que recomenda que os bordéis, proibidos em França em 1946, sejam reabertos como cooperativas geridas por trabalhadores do sexo, de acordo com o dirigente do partido político RN, Jean-Philippe Tanguy. Este político disse ao jornal Le Monde que Marine Le Pen (que é de extrema-direita), apoia este projecto de lei. Seria de esperar que este lei fosse proposta por partidos de esquerda, ou de extrema esquerda, mas curiosamente é proposta por um partido de extrema-direita.
Em Portugal, por exemplo, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, é homossexual assumido, e faz parte de um governo centrista. Em Portugal há também um político de um partido de direita, o CDS-PP, Adolfo Mesquita Nunes, que é homossexual assumido. Há também um ex-dirigente do deste partido de direita, que é muito conhecido, desde sempre solteiro, que vai muito à televisão, que é considerado na opinião pública como sendo homossexual, ele sabe que as pessoas dizem que ele homossexual, mas nunca veio a público negar que seja homossexual, e nunca falou contra os homossexuais.

Sempre votei na esquerda, e continuo a votar, mas é preciso sublinhar que há várias esquerdas e várias direitas. Por exemplo, há partidos políticos de direita que dão mais importância ao patriotismo, outros à moral, outros à propriedade privada, etc. Uma pessoa pode ser de um partido político, mesmo que não concorde com algumas das coisas que esse partido político defende, mas ser desse partido político devido ao facto de concordar com a maioria das ideias que esse partido político defende.

Mas nem sempre se trata de ideias, há pessoas que são de um partido político mais por uma questão de estatuto social, e sendo pessoas que se identificam mais com as classes altas, são de direita, mas no plano moral, na prática, essas pessoas  são como as pessoas de esquerda (que costumam ser consideradas menos moralistas), e por um lado também muita gente de esquerda que é muito moralista.

Considero que a esquerda defende mais os homossexuais e votarei num partido de esquerda. No entanto, um homossexual não deve votar na esquerda apenas por ser homossexual, pois há mais questões políticas que também são importantes. É demasiado redutor associar a toda a  esquerda política o apoio aos homossexuais, e associar a toda a  direita política o desinteresse para com os homossexuais. Há além disso há também o centro político. Tudo depende de que esquerda, de que centro e de que direita falamos.

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Foto: https://depositphotos.com/pt/

Víctor Correia

3 Comentários

  • Vitor Grade

    Concordo inteiramente.

    Existe uma cegueira ideológica que roça o automático quando uma parte significativa da esquerda alinha com a causa palestiniana não por uma análise séria dos factos, mas porque vê tudo através do filtro simplista em que ser anti-Ocidente é ser virtuoso. É assim que a esquerda acaba instrumentalizada por forças do islão político que são abertamente anti-liberais, anti-ocidentais e profundamente hostis àquilo que a Europa construiu ao longo de séculos. Essa civilização europeia a que eu já chamei, e volto a chamar tantas vezes quanto necessário, o Farol da Humanidade, é precisamente o que garante liberdades reais e não retóricas.

    O que mais me choca, enquanto homossexual, é ver tantos homossexuais a acreditarem que, só por o serem, estão “obrigados” a votar à esquerda, como se a orientação sexual fosse um cartão partidário e fosse limitador do que se é ou pode ser. Isso é redutor, infantil e perigosamente acrítico. Pior ainda é que se parte do dogma de que toda a direita é contra os direitos humanos, o que é simplesmente falso e historicamente ignorante.

    E convém dizer sem rodeios que não existem “direitos LGBTQIA+”. Isso é uma formulação errada e conceptualmente perigosa. Existem direitos humanos universais, iguais para todos, independentemente da orientação sexual, religião, sexo ou origem. No momento em que começamos a fragmentar direitos por grupos, deixamos de falar de igualdade e passamos a falar de privilégios identitários, extremamente fragilizantes, exactamente o terreno fértil onde prosperam tanto o autoritarismo de esquerda como os fundamentalismos religiosos.

    Relativamente a Israel, com todos os seus problemas e contradições, é uma democracia liberal onde homossexuais, mulheres e minorias vivem com direitos efectivos. Gaza e grande parte do mundo islâmico não o são. Fingir que isto não importa, ou relativizar em nome de uma narrativa “anti-imperialista”, é trair tudo aquilo que a esquerda diz defender e é cavar, conscientemente ou não, a sepultura para a própria civilização europeia.

    Pensar não é alinhar. E ser homossexual não é abdicar do pensamento crítico.

  • João Machado

    Obrigado pelo seu artigo.
    Mas onde se baseou para dizer que o que leva as pessoas de esquerda a defenderem o povo da Palestina não é exclusivamente o facto de esse povo ser, há décadas, massacrado por Israel?

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