(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)
Quem te viu e quem te vê Maria Inês? – neste caso António. O que eras e no que te tornaste. É verdade caríssimo leitor, aqui o tio, quando mais novo – sim, que os 50 são os novos 30 – nada percebia de visibilidade e da importância que tem para a LGBTQIA+.
Duvidam? Falo muito a sério. Para mim era um fardo enorme, por exemplo, participar numa marcha do orgulho. E tudo isto porquê? Ainda que sofresse na pele a discriminação e o preconceito, tinha uma uma mentalidade completamente formatada com a heteronormatividade. E depois, é claro, via as notícias das marchas e implicava com a comunicação social, por só filmarem as drag queens e esquecerem-se dos cisgéneros como eu. – Acho importante aqui fazer um aparte, eu nasci gay, não nasci cisgénero, muito pelo contrário. Era uma criança efeminada, sem jeito para o futebol, que gostava de brincar com bonecas e vestir a roupa da mãe. No meu tempo não havia bullying, aprendi a ser cisgénero muito à conta de tareias que levava dos colegas de escola ou dos “amigos” de rua.
Adiante… Ainda no que às marchas de orgulho diz respeito, recordo-me de detestar aparecer em fotos, TV, por aí fora. Mas, como digo sempre, nunca ninguém diga nunca, que a vida depressa lhe troca as voltas.
Já noutras crónicas falei do quão importante acho ver a comunidade representada no cinema, em séries, teatro, na arte em geral, de forma a dar aos nossos jovens as referências que eu – e, possivelmente, muitos da minha idade – não tive. Mas, lá está. E lá vem a conversa da reconstrução. Foi mesmo necessário desconstruir toda a i (lógica) que me foi imposta pelos meus pais, pela igreja, pela sociedade.
Hoje em dia participo alegremente – admire-se o leitor – até da Organização da Marcha LGBT de Lisboa. E marcho com orgulho, muito orgulho. É sem medos que me assumo como homem queer, com VIH, pretendendo de certa forma compensar o meu passado e poder – se possível for – ser uma referência para quantos me vêem, lêem, ouvem ou, simplesmente, que me procuram como porto de abrigo.
Costumo dizer que as pessoas têm – norma geral – sempre a sua família. Eu tenho a minha, de sangue. Não é perfeita, mas alguma família é funcional? No entanto, enquanto homem gay que vive com VIH, não posso esquecer as minhas duas outras famílias. A da comunidade LGBTQIA+, os pioneiros, os que deram a cara e lutaram para eu poder ser eu inteiro hoje. A minha família VIH/SIDA, com a qual sinto um laço invisível e inquebrável. Com os que sobreviveram à epidemia, mas sobretudo aos milhares de jovens que morreram e lutaram para que eu – todos – tivesse acesso aos cuidados de saúde necessários para fazer uma vida normal. De alguma forma, sinto o sangue de todos vós correr-me forte nas veias. A todos o meu sentido obrigado.
Continuemos fortes, continuemos faróis!
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Foto: depositphotos.com/pt
António S., um homem queer a caminho dos 50 anos


