Em A Paz das Colmeias (1947), Alice Rivaz (1901–1998, Suíça) conta-nos a história de Jeanne Bornand, uma dactilógrafa de meia-idade que, através das anotações no seu diário, revela a desilusão que sente em relação ao seu casamento. À medida que escreve, torna-se cada vez mais evidente para si que o abismo entre os gostos, interesses e modos de estar de homens e mulheres torna a convivência conjugal difícil e, muitas vezes, frustrante:
“Tão pouco apto, no fundo, para ser companheiro de uma mulher. Tão pouco apto para viver connosco, não gostando das mesmas coisas, não aspirando às mesmas coisas que nós, atraído por aquilo de que não gostamos, indiferente e por vezes hostil àquilo de que gostamos. Como me parece agora preferível a companhia de uma amiga, de uma mãe. Porque, na verdade, eles fazem parte de uma outra espécie.”
A sua desilusão face ao género masculino acentua-se a cada página. A única coisa que parece ainda ligar Jeanne aos homens é a promessa do amor. Mas será esse amor mais do que uma promessa? Existirá, de facto, na prática, quando as diferenças entre os géneros se manifestam de forma tão vincada? São poucos os exemplos à sua volta de vidas conjugais felizes.
“Não, não creio que seja do amor que os devemos privar, mas sim dos cuidados domésticos. Deixaríamos de lhes preparar a comida, deixaríamos de cuidar deles. Eles próprios fariam as suas camas, as suas paparocas, as suas lavagenzinhas de roupa e as suas passagens a ferro. Deixá-lo-íamos até passajar as suas meias e tricotar umas novas. O mundo inteiro mudaria com isso e a História tomaria decerto um novo rumo.”
A obra não se limita a analisar o impacto dos papéis de género no bem-estar da vida conjugal da protagonista. Vai mais além, propondo uma leitura mais abrangente dessas dinâmicas. Com o título A Paz das Colmeias, a autora remete para o funcionamento harmonioso das colmeias, onde os machos amotinadores são eliminados em nome do bem colectivo:
“Sim, os homens deviam ter cuidado. Deviam pensar mais frequentemente nas abelhas, na paz das suas colmeias. No preço pago pela paz das colmeias…”
A partir desta analogia, Alice Rivaz questiona os alicerces da sociedade patriarcal e sugere a possibilidade de uma ordem social matriarcal, levantando a hipótese de que o mundo poderia ser mais pacífico sob a liderança das mulheres, já que, com frequência, são os homens os principais responsáveis por guerras e conflitos.
A Paz das Colmeias é uma obra notável escrita por uma mulher que ousou questionar, de forma precoce, os papéis tradicionais atribuídos ao feminino e ao masculino. Alice Rivaz, que nunca casou nem teve filhos, uma decisão rara para a sua época, antecipa com esta obra temas que só décadas mais tarde ganhariam espaço no debate público: os papéis e as desigualdades de género, a sobrecarga do trabalho doméstico, as dificuldades conjugais e a impossibilidade de diálogo verdadeiro entre homens e mulheres. Apesar dos avanços verificados desde o seu lançamento, a obra mantém uma actualidade surpreendente, ao convidar à reflexão sobre o impacto persistente dos papéis de género, nomeadamente como continuam a moldar a vida de homens e mulheres e a influenciar o funcionamento da sociedade contemporânea.
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Título original: La Paix des ruches
Prefácio: Mona Chollet
Tradução: Inês Dias
Ilustração da capa: Mariana Malhão
1.ª edição: Abril 2025
Páginas: 120
ISBN 978-972-608-476-1
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Daniela Alves Ferreira


