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O dia de hoje traz o segundo capítulo daquilo que eu não estava nada à espera que se tornasse uma saga regular da vida de solteiro. Quase que me começo a sentir como a versão gay lisboeta da Carrie Bradshaw, se bem que a Carrie já é, em si, bastante gay, mas divago.

Hoje queria falar-vos acerca da palavra ‘ambiguidade’.

Qualquer pessoa com experiência de trabalho no mundo executivo já terá ouvido falar no livro de competências Korn-Ferry. Para quem não conhece, essencialmente é um guia acerca de competências sociais e humanas para o local de trabalho. É suposto servir como uma ferramenta que nos ajuda a identificar quais os nossos pontos fortes e onde é que temos oportunidade de melhorar (e como melhorar esses aspectos). Nas mãos certas é uma excelente ferramenta de reflexão e crescimento. Nas mãos erradas é um guia de ‘como encontrar formas de racionalizar ser-se um filho da mãe no local de trabalho’.

Em todo o caso, uma das competências nesse livro é ‘Lidar com Ambiguidade’, um traço que pode ser brevemente resumido em “keep your shit together and give good face” (obrigado à Michelle Visage pela expressão) quando as coisas no trabalho correm fora daquilo que seria expectável, ou quando temos que tomar uma decisão com base em elementos aparentemente contraditórios. Apesar de eu ser uma pilha de ansiedade funcional, quando andei metido no mundo executivo, sempre me disseram que este era uma qualidade que eu tinha, assim como uma outra que era ‘Manter a compostura’ (que basicamente é a capacidade de não entrar em meltdown facilmente). 

Fazendo um fast-forward para a vida de solteiro e para o desporto de alto risco que é lidar com o homem gay, acreditei eu na minha inocência que isto se tratava duma competência transferível para todos os outros aspectos da minha vida, certo? Afinal de contas, tentar encontrar namorado é essencialmente elevar a Modalidade Olímpica o exercício de adivinhar em que raio é que o outro estará a pensar e tentar tomar decisões com base em informação que, na maioria das vezes, é contraditória. ‘Porque é que me continua a mandar mensagens e a conversar se não tem intenção de aprofundar as coisas?’ é apenas uma das muitas questões com as quais quem anda por estes lados lida.

‘Porque é que me continua a mandar mensagens e a conversar se não tem intenção de aprofundar as coisas?’

Como eu me enganei! A questão é que o contexto laboral limita a ambiguidade, ou seja, uma pessoa que por exemplo trabalhe num banco nunca se verá confrontada com um grau de ambiguidade tão grande que faça com que a solução ou resposta que precisa só possa ser encontrada no ramo da Física Quântica. Descobrir em que raio é que o outro gajo está a pensar requer às vezes um doutoramento em METAfísica Quântica, mas divago novamente.

O problema da ambiguidade vem, acho eu, do facto de as pessoas não fazerem ponta de ideia daquilo que andam à procura e, se calhar, contra mim falo. No entanto, acho que já fui fazendo a minha paz com o ‘triângulo do homem ideal’. Se nunca ouviram falar, tomem lá um desenho (e isto não é da minha autoria).

triângulo gay

Claro que é necessário ceder aqui e ali para construir uma relação estável com alguém, mas o que eu sinto diariamente é que anda toda a gente à procura do El Dorado do homem perfeito, e, enquanto procuram, vão enrolando tipos como eu que me considero modestamente atraente, mas bastante inteligente e mentalmente estável (pelo menos quando não me esqueço de ir aviar a receita da Sertralina). É como se pensassem ‘Eu reconheço estes dois traços desejáveis neste gajo e isso é definitivamente melhor que só um traço, MAS, o Homem-Quimera pode estar aí a bater à porta por isso vou manter as coisas levezinhas e, entretanto, este gajo que se vá entretendo a tentar aplicar o Korn-Ferry às minhas mensagens.’ 

O problema da ambiguidade vem, acho eu, do facto de as pessoas não fazerem ponta de ideia daquilo que andam à procura e, se calhar, contra mim falo.

E é nisto que estou neste momento com mais um rapaz e mais uma situação de boy-meets-boy e ‘vamos falando’. (Ai… esperem lá porque eu preciso de partilhar este detalhe das circunstâncias em que escrevo este texto: pus a música aqui em casa em shuffle e acabou de começar a passar o All by Myself… puta que pariu!). Entretanto, eu estou interessado e acho que o outro também está, mas lá está... Metafísica Quântica e chegada a Hora H de ‘Vamos encontrar-nos esta semana?’ ora vejam lá se adivinham qual foi o teor da resposta…. Ora nem mais: ambiguidade!  Lá fui eu sentar-me em meditação e a repetir as afirmações ‘tu consegues manter a compostura e lidar com ambiguidade’...

Começo a achar que não sou só eu que conheço a publicação, mas parece que a maior parte das pessoas se entretém a utilizá-la para racionalizar ser um estupor para os outros.

Entretanto, vou sugerindo ao leitor que vá acompanhando a saga… pode ser que o próximo capítulo tenha um final feliz, mas sinceramente aquele All by Myself não augurou nada de bom...

 

R. J. Ripley

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