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A Puta Ética – Guia prático do amor livre



Escrito por Janet Hardy e Dossie Easton, e publicado originalmente em 1997, A Puta Ética conta agora com uma edição portuguesa revista e actualizada, publicada pela Lua de Papel.
O impacto da palavra “puta” no título não é acidental — é uma afirmação política que antecipa o espírito provocador e transformador do livro, sendo usada como uma apropriação consciente do insulto, num gesto de ressignificação. Como explicam as autoras, “a nossa abordagem a uma linguagem sexo-positiva é reivindicar as palavras originais e, ao usá-las como descritores positivos, lavá-las.” Esta escolha linguística revela, desde logo, uma posição clara dentro do movimento sexo-positivo, que defende uma visão do sexo livre de culpa e vergonha, em contraste com o discurso dominante, muitas vezes marcado pela repressão e pelo moralismo.
Também a palavra “ética”, presente no título, merece destaque. Ao contrário de alguns discursos sobre não monogamias que impõem regras rígidas sobre o que é ou não “correcto”, Hardy e Easton propõem uma ética relacional viva, baseada na construção de acordos entre pessoas, com as suas necessidades, limites e contextos específicos. Essa abertura e aceitação da diversidade de formas de se relacionar é, aliás, uma das grandes forças do livro: desde que assentem no consentimento, na honestidade e na autenticidade, todas as configurações são válidas — e nenhuma é eticamente superior às outras.
Nem mesmo a própria monogamia é totalmente rejeitada: “A única objeção que temos à monogamia não é a prática em si, mas a crença difundida de que é a única escolha moral”, escrevem as autoras.
Partindo dessa base ética, as autoras propõem alternativas concretas ao modelo monogâmico tradicional. Para isso, desmontam várias ideias feitas sobre o amor romântico — como a crença de que o verdadeiro amor exige exclusividade, de que relações com sexo são mais valiosas do que as que não o têm, ou de que uma relação só tem valor se for duradoura. Convidam-nos a questionar essas narrativas construídas socialmente e a imaginar formas de amar mais conscientes, plurais e ajustadas a cada pessoa.
Reconhecem, no entanto, que o caminho para viver o amor de forma mais livre não é fácil, pois vivemos num mundo onde escasseiam referências e modelos que validem estilos de vida não normativos. Para nos ajudar nesse percurso, partilham um conjunto de princípios e práticas úteis: como abrir uma relação existente, estratégias para lidar com o ciúme, comunicar de forma eficaz ou cultivar a autonomia individual. O livro inclui ainda exercícios práticos e referências a outras obras, convidando cada pessoa a adaptar os conteúdos à sua própria vivência relacional.
Desde a sua publicação original, o universo das relações não monogâmicas evoluiu profundamente; esta edição revista e actualizada acompanha essas transformações com inteligência e sensibilidade, mantendo a obra como uma referência incontornável — uma verdadeira bíblia da não monogamia.


A Puta Ética merece, sem dúvida, ser lida do princípio ao fim.
Repleta de ideias iluminadoras e potencialmente transformadoras, desafia normas e convida à reflexão.
Para quem não se revê no modelo monogâmico tradicional, pode ter um efeito quase terapêutico: oferece validação, clareza e o alívio de perceber que não se está sozinho na procura por formas mais livres de viver o amor.
É, ainda, uma leitura que vale a pena partilhar — um presente com significado para alguém a quem queiramos abrir a porta a formas alternativas de amar.

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Daniela Alves Ferreira

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