Na semana em que me preparava para contar à minha mãe que me ia casar com uma mulher ela chegou-se à frente e contou-me – surpresa! – que sofria de uma doença raríssima e incurável, que a ia matar a qualquer momento, fosse dali a 10 minutos ou dali a 10 anos. O nome da tal doença nunca foi capaz de me dizer, por muito que eu perguntasse. Quase um ano depois, quando soube a data do meu casamento, contou-me que ia ser operada no mesmo dia. Ia dar entrada num determinado hospital (que por acaso até nem estava a fazer internamentos nesse fim de semana, por falta de médicos) e ia ser enviada ou para a Inglaterra (Brexit? Qual quê!) ou para a Alemanha (afinal este SNS tem dinheiro…) para ser transplantada ou ao fígado ou aos rins (ainda não tinham decidido…). Mais tarde vim a saber, por vias e travessas, que a tal doença rara não passava de um fungo nas unhas. Haja milagres!
Este podia ser um texto para falar sobre a culpa. A culpa que a sociedade nos impõe quando fugimos da caixinha onde os nossos pais nos querem meter. A culpa que nos é criada pelas mentiras e pelos boatos que contam, ou simplesmente por decidirmos ser quem somos, por muito que isso vá contra as ideias preconceituosas e egoístas deles. Mas não é. É sobre abuso.
Fala-se muito hoje em dia – e ainda bem! – sobre o abuso nos relacionamentos amorosos. Mas e quando o abuso vem, não da pessoa com quem escolhemos estar, mas das pessoas que nos trouxeram ao mundo?
Nos últimos 3 anos a minha mãe já inventou uma doença rara fatal, espalhou mentiras sobre mim a familiares, amigos e conhecidos, chantageou e ameaçou de todas as formas que lhe vieram à mente.
Olhando agora para trás, eu consigo perceber os sinais. Devia ter 5 ou 6 anos a primeira vez que a minha mãe me disse que eu era uma puta. Estava dentro de uma tenda de brincar, a chorar porque não queria arrumar os brinquedos. Foi mais ou menos nessa altura que começou a ameaçar-me que se matava ou desaparecia quando eu não obedecia. Das minhas tias e das vizinhas, ela dizia que eram bruxas, que lhe tinham inveja e lhe faziam bruxarias. Dela e do meu pai, eu quase só me lembro de gritos. Os meus amigos, nenhum prestava na sua boca. Quando comecei a namorar então, foi um verdadeiro inferno. Que era burra, que só queriam sexo, que era uma puta. Depois, estava dias e dias sem falar comigo.
Hoje, eu não vim aqui para falar sobre culpa e dor. Vim para alertar para a importância de reconhecer que os abusos — venham eles da família, de parceiros ou da sociedade — não são amor, não são cuidado e não são destino. São correntes que nos querem prender ao medo e à culpa. O perigo está em normalizá-los, em aceitarmos a roda de rato onde corremos até à exaustão, sempre a tentar merecer um afecto que nunca chega.
Romper esse ciclo não é simples, mas é possível — e é urgente. Escolher afastar-se do abuso é escolher a vida, é abrir espaço para relações saudáveis, para o amor verdadeiro e para a dignidade que cada um de nós merece. Não somos obrigados a carregar correntes que não nos pertencem. Eu não sei onde esta estrada, fora da roda de rato, me vai levar. Mas é uma estrada de liberdade, e é a minha estrada. Aconteça o que acontecer, venha o que vier, eu só sei que não vou voltar para a roda. E se há algo que quero deixar a quem lê isto, é que existe uma saída.
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Anabela Risso


