25 de Julho. 23:30. A fila já dá a volta ao quarteirão. Hoje é um dia muito especial para o Planeta Manas. É o dia em que nos despedimos de um espaço com quatro anos de existência, o primeiro na Rua Ary dos Santos. Um canto e um recanto atrás do aeroporto de Lisboa. Quase só acessível de Uber. Uma viagem complicada, que muitos de nós juntamos paragens nestes Ubers que percorrem Lisboa para chegar a um planeta que tanto nos deu. Nesse dia dançamos desde a meia-noite ao meio-dia do dia seguinte. Uma dança que tanto nos uniu durante todo este tempo. Uma criação de comunidade onde não existe igual. The queerness. Os corpos suados que se abraçam, que se beijam, que se enrolam num espaço escuro que na realidade tinha uma luz avermelhada que jamais esqueceremos. Visibilidade. Existência enquanto resistência. Uma dança que é política, que libera corpos e existências à margem. Um espaço seguro. Que ironicamente não necessita de seguranças. Porque nós tomamos conta de nós. Damos as mãos, partilhamos garrafas de água, vamos ao tão único Ravers Corner pedir uma peça de fruta quando o estômago já pede aconchego depois de 10 horas de dança, com mais duas pela frente. Um corner que cuida de quem se sente menos bem nesta maratona, que nos informa sobre substâncias, que nos cuida. As expressões criativas são únicas. As expressões de género são únicas. Somos livres. A margem torna-se uma massa de poder.
Atacados pela polícia quatro vezes, propositadamente feito à nossa comunidade, ao nosso grupo, ao nosso colectivo, até hoje não sabendo o que motivou do mesmo. Enganam-se em quem querem atacar. Nós não somos um inimigo. Somos as margens, somos as pessoas que pouco têm de abrigo num mundo que não nos quer.

Então deixem-nos! Deixem-nos existir, deixem-nos ir para os lagos e florestas, deixem-nos ir para os escritórios e fábricas abandonados, deixem-nos pelo menos respirar um ar que é nosso e que nos é fundamental.

Dançámos doze horas. Mas não morreu o Planeta Manas. Não morreu a comunidade. Havemos de encontrar outro Planeta. Havemos de nos resguardar e reencontrar, novamente, na pista de dança. Até lá, ficam as memórias, ficam outros espaços que não nos dizem o mesmo que o Planeta mas que servem um propósito igual. Ou pelo menos, parecido.
Ganhámos? Perdemos? Ambos?
Viva o Planeta Manas!
João Caldas


