(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)
Algures no tempo falei da confusão que me faz a utilização de chemsex e de todas essas drogas sintéticas e que existem agora, para efeitos recreativos, aparentemente. Quando escrevi acerca do tema, não quis criticar quem o faz, continuo a acolher de braços abertos todos aqueles que me procuram, me pedem ajuda. No fim de contas, quem melhor que um adicto para acolher e ajudar outro adicto.
Há bem mais de 20 anos, quando queria ser gay e não podia, por imposições sociais e familiares, a droga mais à mão – e ainda hoje muito bem socialmente – era o álcool. Submisso como era à vontade alheia, cedo arranjei uma namorada, com quem desperdicei – não só a mim, claro está, a ela também e muito – sete anos da minha juventude. Até chegar ao ponto de não retorno. Bebia para conseguir estar com ela, bebia para ter sexo contra natura, bebia. Afinal estava ali à mão, porta sim, porta sim. Quando me decidi começar a relacionar com homens e frequentar locais de engate, não tenho dedos nas mãos para contar quantas vezes ia com ela para o Bairro Alto, pelas 23 horas alegava cansaço, vinha deixá-la a Sintra e depois voltava para Lisboa. Mas, até para ter coragem de ir a bares de engate e saunas, tinha de usar. Fosse álcool, droga, o que fosse.
Aos 25 anos, talvez por me encontrar numa zona bastante cinzenta, sem saber o que fazer, decidi procurar a ajuda das salas de AA. E sim, passei um ano, 365 dias, sem beber. Volvido esse tempo e por achar que estava já curado, voltei a beber, voltei a fumar drogas leves, e o caminho traçou-se. Enquanto não me assumi como era, sem medo de julgamentos, não consegui parar.
Um segundo marco na minha vida, e creio, caríssimo leitor, já ter disso falado aqui, foi quando aos 34 anos descobri ser seropositivo. A minha cabeça, formatada que estava ao estilo dos anos 1980 e 1990, decidiu que eu tinha SIDA, que ia morrer e que, portanto, o melhor seria acelerar o processo. Lembro-me no ano diagnóstico ter recebido um portátil como prenda de Natal. Foram os meus pais. E eu, ao abrir o embrulho, apenas consegui dizer:
– Mas, porque foram gastar dinheiro comigo se eu vou morrer?
E, novamente, o processo de autodestruição. Muitas noites em Lisboa. Excessos já não só de álcool, mas de poppers, haxixe, erva, cocaína. Foram tempos nocivos para mim. Na época, frequentei salas de NA, não me identificava com os bêbados. Cheguei a ir a reuniões só de pessoal LGBT. Acham que resultou? Só pensava em usar e na melhor desculpa para recair de novo. E recaí. O que me salvou? O activismo. Ajudar pessoas LGBTQIA+, acompanhar pessoas seropositivas como eu, lutar para que, um dia, quando chegar a minha hora de partir, vá na certeza de ter deixado este mundo um bocadinho melhor.
Se estou curado? Uma pessoa adicta, nasce adicta. Não há curas milagrosas. Tenho momentos bons, tenho momentos menos bons. E se me perguntarem, mas afinal qual é a tua adicção? Que poderei responder senão: TUDO. Há alturas em que bebo demais, há alturas em que como demais, há alturas em que trabalho 14 horas por dia, só pela adrenalina. A adicção não é isto ou aquilo, não. Acaba por ser tudo. Se tivermos uma personalidade adictiva, podes passar de não ter sexo nenhum, a ter sexo várias vezes por dia e com várias pessoas. É sempre um tudo ou nada que desgasta.
Preocupo-me muito com os praticantes de chemsex, no meu percurso tenho visto muitas vidas destruídas por algo que começou como uma brincadeira. E sim, preocupo-me de verdade.
O que a vida me ensinou a mim? Estar sempre alerta. Alerta para comportamentos exagerados ou desajustados, que, facilmente, me pode levar para o fundo do poço de onde, a pulso, saí. Sei de onde venho, sei para onde não quero voltar.
.
Foto: https://depositphotos.com/pt/
Antonio S., um homem queer a caminho dos 50 anos


