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“Além da Pele”, de Sílvia Federici: A política do corpo no capitalismo



Além da Pele: Repensar, refazer e reivindicar o corpo no capitalismo contemporâneo, de Silvia Federici, foi recentemente publicado na sua versão traduzida pela editora Orfeu Negro. 

Este livro vem na sequência de três conferências sobre o significado e as políticas do corpo no Instituto de Estudos Integrais da Califórnia (2015). Apoiando-se em referências basilares como Karl Marx, Angela Davis e bell hooks, a autora reflecte sobre temas como a categoria de “mulher”, a reconstrução dos nossos corpos e a mecanização dos corpos num contexto capitalista. 

As tentativas de mecanização e reconstrução do nosso corpo, argumenta Federici, inserem-se num contexto capitalista de construção de indivíduos atomizados, previsíveis e controláveis. Esta desconexão crescente de uma vivência corporal intuitiva é potenciada por longas, repetitivas e solitárias jornadas laborais, pela crescente digitalização da conexão e pela glorificação constante de um desenvolvimento pessoal desconectado e egoísta. 

Nas suas palavras, “O capitalismo fez-nos perder a visão da magia da vida” e é por isso que no capítulo “Elogio do corpo que dança” a autora relembra-nos que o nosso corpo é resistente ao capitalismo por natureza (precisa de apanhar sol, de descansar, de cheirar flores, de fazer sexo…).

Além da Pele traz-nos uma reflexão completa, histórica e multifacetada das formas como o sistema capitalista e misógino procura desconectar-nos do nosso corpo, da sua sabedoria e das suas necessidades de forma a construir o trabalhador perfeito. 

No entanto, não podemos deixar de salientar que há uma conotação de transfobia presente em alguns dos argumentos tecidos. Por exemplo, os procedimentos de reafirmação de género são aglutinados num conjunto desconexo de formas de “reconstrução do corpo” alvos de reprovação, tais como a cirurgia plástica e a maternidade de substituição (barrigas de aluguer). Este foco excessivo nas cirurgias de afirmação de género é recorrente, ignorando o contexto mais amplo das vivências de pessoas trans.

Esta abordagem foi alvo de várias críticas. Primeiramente, a autora não examina os factores económicos, políticos e sociais da opressão das pessoas transgénero que, embora distinta, existe também no âmbito da discriminação de género. A visão biológica sobre a categoria de mulher é esta faca de dois gumes. Por um lado, minimiza a contribuição do feminismo queer na desconstrução do binário de género. Por outro, parece amalgamar as experiências e graus de opressão vividos dentro desta categoria de mulheres (cis), subvalorizando a desunião que dentro dela também existe, nomeadamente quando vemos o feminismo de uma perspectiva interseccional.

A leitura de Além da Pele oferece perspectivas valiosas sobre o controlo explícito e implícito de que o corpo é alvo, especialmente o feminino, e traz-nos uma visão optimista sobre como nos reconectarmos connosco, com quem nos rodeia e com o planeta que nos sustenta. Ainda assim, a visão ambígua sobre a denominada “ideologia de género” e a análise incompleta da pertença de mulheres trans no movimento de mudança merecem igualmente destaque na análise.

Tradução: Pedro Morais

Concepção gráfica: Rui Silva

1.ª edição: 2025

Páginas: 216

EAN 9789899225213

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Cláudia Almeida

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