Novas investigações e surtos recentes têm reforçado que a gonorreia continua a ser uma preocupação central para a saúde sexual, especialmente dentro da comunidade gay e bissexual. De facto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu recentemente um alerta, sublinhando que a capacidade desta infecção sexualmente transmissível (IST) de resistir aos antibióticos está a evoluir a um ritmo preocupante, tornando o tratamento cada vez mais complexo.
O que se passa?
O principal destaque das últimas informações é a crescente resistência da bactéria Neisseria gonorrhoeae aos antibióticos de última linha, particularmente à azitromicina. Em alguns locais, estirpes com resistência muito elevada já estão em circulação, o que levanta um alerta global sobre a possibilidade de a gonorreia se tornar, em breve, intratável.
O problema da resistência
Historicamente, a gonorreia foi tratada com diferentes classes de antibióticos (como penicilina e ciprofloxacina), mas a bactéria desenvolveu resistência a todas elas. O protocolo de tratamento actual, geralmente uma injecção de ceftriaxona combinada com azitromicina oral, está sob pressão. Se a resistência à ceftriaxona também aumentar, as opções terapêuticas ficam perigosamente limitadas.
Impacto na comunidade LGBTQ+
Estatisticamente, homens que têm relações sexuais com homens continuam a ser o grupo mais afectado pela gonorreia em Portugal e noutros países europeus.
1. Locais de infecção
Uretra e órgãos genitais: os sintomas mais comuns em homens incluem disúria (dor ou ardor ao urinar) e um corrimento uretral espesso, geralmente amarelado ou esverdeado. Se não tratada, a infecção pode levar a complicações graves como a epididimite.
Olhos (conjuntivite gonocócica): caracteriza-se por vermelhidão acentuada, dor e um corrimento purulento (pus) de rápida progressão. É uma emergência médica pelo elevado risco de causar lesão da córnea e potencial cegueira se o tratamento não for imediato.
Infecção gonocócica disseminada (DGI): ocorre quando a bactéria entra na corrente sanguínea. Os sintomas podem incluir febre, calafrios e manifestações articulares como artrite gonocócica. Em casos muito raros, pode causar complicações cardíacas ou neurológicas.
1.1 Locais de infecção “silenciosos”
A gonorreia pode também infectar sem causar sintomas, como na:
Garganta (faringe gonocócica): frequentemente assintomática, sendo mais difícil de diagnosticar. É um dos locais onde a bactéria mais facilmente desenvolve resistência.
Recto (gonorreia rectal): pode causar dor, corrimento ou prurido, mas muitas vezes também é silenciosa.
A ausência de sintomas nestes locais significa que a transmissão pode ocorrer sem que a pessoa se aperceba, e a falta de tratamento adequado contribui para o aumento da resistência.
O que fazer: três passos essenciais
Apesar da resistência crescente, a gonorreia continua a ser tratável quando detectada precocemente. A prevenção e o diagnóstico atempado são fundamentais.
1. Preservativo sempre
O uso consistente do preservativo (interno ou externo) é a forma mais eficaz de prevenção.
2. Rastreio regular e completo
Rastreio triplo: se pratica sexo oral ou anal, a análise não pode ser apenas por urina. Deve incluir colheita da uretra, garganta e recto. Periodicidade: a cada 3 a 6 meses em caso de múltiplos parceiros ou contactos casuais.
Locais possíveis para realizar o rastreio incluem: GAT Checkpoint LX, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) para jovens adultos, além de centros de saúde ou laboratórios privados (por exemplo, Germano de Sousa e Better2Know).
3. Seguir o tratamento correctamente
Protocolo recomendado: normalmente ceftriaxona injectável + azitromicina oral.
Teste de cura: repetir análises 7 a 14 dias após o tratamento é crucial para confirmar a eficácia.
Manter a conversa aberta sobre IST e priorizar o rastreio regular é a melhor defesa. Informação é protecção e a prevenção é um acto de cuidado individual e colectivo.



Um Comentário
Vitor Grade
Nunca é demais alertar para uma série de infeções que podem surgir através de relações sexuais, principalmente em quem tem múltiplos parceiros e neste momento M que a utilização indevida é incorreta de antibióticos leva ao aumento das resistências aos mesmos. A prevenção e deteção precoce são as melhores armas e este género de artigos são extremamente úteis também para isso… Parabéns!