opinião

Amigos, amigos, vida íntima à parte



(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)

Nunca fui desconfiado. Nunca pensei, ah e tal as pessoas ouvem o que tenho para dizer e vão usá-lo contra mim. Acho que não devo partilhar apenas o mau com amigos, familiares, etc. Mas, e sobretudo, as coisas boas que vão acontecendo ao longo do meu percurso de vida. Deveria ser o normal e o expectável.

Há tempos tive uma situação que me fez mudar de postura. Estava envolvido emocionalmente com alguém, partilhei o facto com um “amigo”, porém a sua atitude não foi de amigo. Veio com conversas que teriam evitado não só mal entendidos e discussões entre mim e a pessoa de quem gostava, como me deixou num terrível estado de: eu não posso confiar em ninguém.

Os antigos diziam, de forma muito sábia, o que ninguém sabe, ninguém estraga. E cada vez trago mais para a minha vida estas palavras tantas vezes repetidas pelas minhas falecidas avós. Ah, só fiz o comentário porque te quero proteger. Mas serei um ser humano tão inapto, que sou incapaz de resolver as minhas questões?

Desculpem o meu francês, mas vão para o …! Passei 30 anos no armário, tive relações abusivas, lidei sozinho com o facto de, ao ser diagnosticado com VIH já estar em estado de Sida. E aqui estou eu. Um António forte e resiliente. Nunca ninguém esteve ao meu lado. Agora, do nada, para me porem em pé de guerra com alguém já têm o direito de intervir? De dar opiniões, sob a desculpa de: “- Só te quis proteger!”

Não me vou estar a gabar, mas, e apesar de ter 46 anos, tenho amigos há 40. Amizades sinceras, coesas, que estão sempre lá para mim, nos bons e maus momentos. E muitas vezes me dão na cabeça, por acharem que estou a tomar decisões erradas. Ainda assim, apoiam-me, independentemente daquilo que decida. Se tiver de me magoar, não é uma “chamada de atenção” de sentido dúbio que vai impedir que aconteça.

Mas, infelizmente, este tipo de situações fazem-me questionar quem são os de verdade. Uma mensagem maldosa colocou em questão uma coisa bonita entre duas pessoas. Não direi se foi um namoro, uma amizade, o que seja, pois, tenho direito à minha privacidade. Fica o aviso para os que, como eu, não veem mal  em ninguém. Palavras erradas, à hora errada, ainda que debaixo duma alegada amizade, podem destruir coisas bonitas.

Foto: https://depositphotos.com/pt/

António S.um homem queer a caminho dos 50 anos

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