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(Olhem para o título da crónica a denunciar a idade… e se não perceberam vão lá ao YouTube que eu espero.)

Hoje decidi escrever acerca duma ideia ou, se quisermos, interrogação que tem ocupado algum espaço na minha cabeça há já algum tempo.  

 

Quantos amigos são demasiados amigos? 

Esta questão não pretende tornar esta crónica num manifesto Pró-comportamento isolacionista ou anti-social, pelo contrário. No entanto, as minhas visitas diárias ao Instagram mostram-me invariavelmente um padrão de comportamento que deixa o introvertido em mim num estado que é um misto de curiosidade e ansiedade. 

O meu feed é povoado por pessoas que passaram pela minha vida em diferentes circunstâncias: amigos, familiares (poucos - porque a última coisa que preciso na minha vida é a minha mãe a ver-me a soltar a franga no Trumps), colegas de trabalho (imensos), e parceiros sexuais ocasionais (num número algures entre os números anteriores). Obviamente, a maioria destas pessoas é gay e é entre estes que eu vejo o padrão “agora estou no lugar X com o meu amigo André/João/Miguel”. Os amigos, além de terem quase sempre um destes três nomes, são também na esmagadora maioria das vezes extremamente bem parecidos (o que me faz esperar que sejam pelo menos fuckbuddies, porque seria um desperdício se não o fossem). A cada semana é também um lugar e um amigo diferente e eu questiono-me acerca da profundidade destas relações. Coloco a questão talvez por ter um círculo de amigos muito restrito, mas composto por pessoas com quem eu sei que posso contar para o que seja porque são relações que foram construídas lentamente ao longo dos anos. 

A cada semana é também um lugar e um amigo diferente e eu questiono-me acerca da profundidade destas relações. 

Será que rodear-se de um batalhão de ‘amigos’ giros por todo o mundo não é só um mecanismo de fuga a uma solidão provocada pelo próprio comportamento de se rodear de ‘amigos’ giros por toda a parte?

Passo a explicar-me (e sempre com a ressalva que eu vejo isto condicionado pela minha própria experiência de vida e pela forma como me relaciono com os meus amigos): eu gosto de estabelecer ligações a sério em que os meus amigos sabem que podem contar comigo para o que quer que seja e para a minha natureza seria extenuante, se não mesmo virtualmente impossível, estabelecer esse género de relação com um número muito grande de pessoas. 

Será que rodear-se de um batalhão de ‘amigos’ giros por todo o mundo não é só um mecanismo de fuga a uma solidão provocada pelo próprio comportamento de se rodear de ‘amigos’ giros por toda a parte?

No entanto, talvez o novo normal seja mesmo ter dezenas daquilo a que eu chamaria ‘colegas’ e passar cada fim de semana com um colega diferente. Claro que estas palavras se baseiam também naquilo que eu vejo como sendo a vida destas pessoas através da lente do Instagram onde toda a gente tenta parecer a Madonna nas Caraíbas, mas agarrado aos sombreros de palha da praia do Samouco. Mas eu nutro uma curiosidade genuína acerca destas “relações” e questiono-me se não será este lifestyle o responsável pela praga de serial-dating que não leva a nada na comunidade gay.

Voltamos mais uma vez ao Variações e à espera pelo melhor que já não vem. Só que, se calhar, neste caso já veio, mas veio na forma do “meu amigo André que vive neste loft lindo com vista para a Ribeira. #Amigos #FriendsForever”. Se calhar, estas pessoas olham para o acto de arranjar namorado como algo que é percebido como um obstáculo à vivência desse lifestyle. Parece que decidiram viver para o insta-content em vez de viver para uma felicidade genuína e sustentável e que não seja medida por content engagement (por muito que eu compreenda que toda a gente precise de descansar os olhos da paisagem dos baldios de Santa Cona do Assobio…). 

Muito francamente, todos nós andamos à procura de maneiras de colmatar a solidão e o isolamento (especialmente agora, depois dos confinamentos), mas eu questiono-me genuinamente acerca de quantas destas pessoas é que passam algum tempo a reflectir sobre a efemeridade deste género de relação e das consequências a longo prazo que isso pode ter.

Posso estar errado, e se calhar estou mesmo. Na volta, existe todo um masterplan em marcha para os Insta-gays envelhecerem todos ao mesmo e, de repente, quando chegam acima dos 40, vão percorrendo os ‘amigo João’ para ver qual deles estará disponível para assentar. No entanto, chamem-me pessimista mas acho que o que acontece a maior parte das vezes é o síndrome de Peter Pan do qual falei na última crónica. 

Muito francamente, todos nós andamos à procura de maneiras de colmatar a solidão e o isolamento (especialmente agora, depois dos confinamentos), mas eu questiono-me genuinamente acerca de quantas destas pessoas é que passam algum tempo a reflectir sobre a efemeridade deste género de relação e das consequências a longo prazo que isso pode ter. É através da vivência social e afectiva com outras pessoas que vemos as nossas próprias crenças acerca do mundo questionadas e interpretadas de outra forma. Quando nos isolamos dentro de uma câmara de eco em que convivemos sempre com pessoas exactamente iguais a nós e que pensam e olham para o mundo da mesma forma, há todo um amadurecimento que fica por acontecer, mas também percebo que entre tantos amigos e viagens, circuitos, etc. não sobre muito tempo para introspecções.

Mas lá está… se calhar para o insta-gay, a introspecção é o vídeo de ‘Olá pessoal! Muitos de vocês têm escrito a perguntar acerca da minha rotina de limpeza facial!’ (Será que alguém escreve mesmo? Mais uma dúvida existencial…)

 

R. J. Ripley

 

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