opinião

Amores de Verão



(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)

Pretendia começar por dizer ao estimado leitor: – Com a chegada do Verão, lembrou-se o tio de vos falar de amores de Verão. – Não fosse dar-se o fenómeno de há mais de três meses Portugal apresentar temperaturas acima dos 30°. Mas deixemos a meteorologia para os entendidos e vamos ao que nos trouxe aqui.

Todos nós, acho que acontece quando somos mais novos, temos tendência, talvez devido ao calor, às idas à praia, aos passeios no jardim ao fim da tarde, de ter as nossas paixonetas de Verão. E costumam ser boas e leves como uma comédia romântica ou um romance cor de rosa. 

Pelo menos foi o que ouvi dizer, pois eu nunca vivi um amor de Verão, pelo menos que me lembre – bom, talvez um, lá chegaremos. – Se só saí do armário aos 30 e comecei logo a viver junto, tive lá tempo para essas aventuras (será?). Mas, ainda assim… Sempre fui alguém, até há bem pouco tempo, de se apaixonar facilmente. E como tal, aconteceu-me o mesmo que aos outros, apenas nunca o concretizei. Mas recordo as horas passadas na praia a apreciar os rapazes e a imaginar um sem número de histórias: que vinham falar comigo, que me convidavam para sair, enfim, coisas de garotos. 

O mais parecido que tive de um amor de Verão foi há já muitos anos. Muitos de vós, possivelmente, não seriam nascidos. Teria os meus 13 ou 14 anos, no longínquo ano de 1993, e os rapazes do meu grupo de catequese convenceram-me – a mim e aos meus, anticlericais ferrenhos pais – a ir a um encontro vocacional. Não era preciso ir para padre ou o que fosse. Nós, miúdos que éramos, queríamos eram as actividades prometidas: praia, piscina, jogos de pistas. Eu meio a medo, com os meus pais muito a contragosto, lá fui. E no momento que cheguei ao local da actividade, os meus olhos bateram num dos monitores, 8 anos mais velho que eu, e foi amor à primeira vista. E digo amor à primeira vista, mesmo numa idade em que não sabia que homens podiam amar homens e mulheres podiam amar mulheres. Como é óbvio, nada aconteceu entre nós – pelo menos naquele ano -, mas recordo com saudade aquelas férias e aquele amor de Verão.

O pior / melhor (decida o leitor) estava para vir 

Por motivos que agora não são relevantes fiz o meu percurso em igreja. Saí por não me sentir aceite enquanto homem queer e voltei a encontrar o tal rapaz na véspera do meu exame de condução (coincidência? Quem sabe). Desde esse dia nunca mais voltámos a perder contacto.

Claro que cresci, casei, descasei, dei as minhas cabeçadas, mas ele foi sempre alguém que esteve presente na minha vida. Nesta altura terá o leitor já adivinhado que ele, quando nos reencontrámos, era padre ordenado.

Um dia, mais tarde, estava eu com uns 35, 36 anos. Pouco tempo após o diagnóstico de VIH, muito revoltado com a vida, com o emprego e decidi ligar-lhe. Acalmou-me ao telefone e convidou-me para sua casa. Curiosamente, era Verão e selámos o nosso amor. O meu primeiro amor, o meu amor de Verão, o meu amigo de todas as horas foi meu e eu fui dele. E aconteceu várias vezes. Se me arrependo? Sim. De não ter acontecido antes ou mais vezes.

O que veio a seguir foi o que foi. Pediu que vivesse uma relação secreta com ele, não aceitei por estar a ir contra todos os valores que havia começado a defender. Hoje questiono se fiz bem e não encontro uma resposta. Apesar de não ter aceitado uma relação formal, continuámos amigos e a encontrar-nos.

Pouco antes da pandemia de COVID-19, o meu amor de Verão, o meu amor de uma vida, foi diagnosticado com uma estirpe extremamente agressiva de cancro. Perdi-o numa madrugada fria de Inverno, sem um abraço, sem uma despedida. Foi a primeira vez que me senti de luto por um “cônjuge”, talvez por termos partilhado 30 anos de vida. Ficam as maravilhosas lembranças e, quem sabe um dia aborde o tema do luto 

O amor. Os amores. Os amores calmos e descontraídos do final da Primavera e do Verão, das férias grandes e do cheiro a mar. Caminho para os 50, já não consigo sentir nada disso, mas guardo memórias ternas de outros tempos, outra vida. Mas, seja qual for a idade, amemos, pois vivemos num mundo carregado de solidão e carente de amor.

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Foto: depositphotos.com/pt

António S.um homem queer a caminho dos 50 anos

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