opinião

As marcas do preconceito ou as dores de crescimento 



(Crónicas de um homem gay a caminho dos 50 anos)

Comecei a ser gay aos 30 anos, na prática. Sim, na prática. Aos 22 anos, com a graça de Deus e de todas as entidades divinas (substitua o leitor pelo adequado) -, e após episódio triste de violação, lá vivi um romance tórrido, com um professor de literatura em Toulouse. Mas, foi sol de pouca dura, assim que pus os pés no aeroporto de Lisboa, outro remédio não tive que voltar a ser heterossexual.

E assim se passaram mais uns anos. Filhos? Queria três, todos rapazes. Igreja? São Sebastião da Pedreira! Porquê? Sei lá eu. Talvez por ser o padroeiro dos gays. A verdade é que depois de um período atribulado, pancada daqui, pancada dali lá me assumi como era. Meio a medo, com medo de tudo e de todos, mas lá fui nesta aventura que dura até hoje e da qual não estou de todo arrependido. Sim, porque sair do armário é um trabalho diário, mais a mais quando és VIH+. A luta é constante. Não pára nunca.

Juntei-me, de verdade, já tinha 30 anos. E o mundo gay era toda uma novidade para mim. Tanto o bom, como o mau. Isso será mais adiante. Para mim era fascinante viver com alguém, sair à rua de mãos dadas, beijar, poder ser, então, quem era. Mas ou o mundo não estava preparado para mim ou eu não estava preparado para ele. Não sei bem que dizer. Passados 15 anos, quando observamos os governantes, vemos cegos a guiar cegos.

Um dia houve, véspera de feriado, em que saí com o meu namorado de então e com os meus amigos. Era dia 9 de Junho. De noite. Lá sabia eu o que me esperava ou que grupos de extrema direita, à semelhança de nosso senhor Salazar, consideram dia da raça. Pergunto agora ao caríssimo leitor. Sou louro – pouco, porque os brancos abundam, com olhos azuis como o céu, uns dias, verdes como o mar, outros -, em que é que isso me torna diferente duma pessoa negra, muçulmana, asiática, quoi que ce soit ? Digo-vos… Nada.

Ainda assim, naquela noite, e porque já estava muito cansado disse ao meu companheiro de então e amigos: – Espero por vocês no café ao lado do Trumps, quando chegarem, vamos dançar. Estava eu no dito café, à espera das ditas pessoas, quando um grupo me rodeia e pergunta: – Que fazes aqui? Nem tempo tive para responder. A única coisa que senti foi a minha testa esmagada contra o vidro de um carro. Se alguém me ajudou? Claro que sim! Acabou, primeiro no hospital, depois na esquadra, comigo.

Aconteceu alguma coisa aos agressores? Não, claro que não. Isto não é um filme da Disney, é a vida real.

Aconteceu alguma coisa aos agressores? Não, claro que não. Isto não é um filme da Disney, é a vida real

Continuei BAU, business as usual, como quem diz, nunca a ter vergonha de mim ou de ser quem sou. Se a sociedade não me aceita, que me mate já. E longe, não estou certo que esteja, com este governo direitista de merda.

2024. Um ano terrível para mim a nível pessoal. Primos com quem cresci a darem tiros na cabeça, perder o emprego, avó a morrer no dia de Natal, ainda assim… O activismo foi o que me manteve à tona. E um dia sei que os meus camaradas vão-me enterrar com carinho e com o Arco-íris por cima. Um dia, Maio, Junho, fui ao Café Suave, no Bairro Alto, com um amigo, estávamos a beijar-nos (sim, na boca), apareceu um menino do Chega, deu-me um estalo e disse: queres fazer essas coisas, vai para casa. Saberá o leitor a esta altura do campeonato que não tenho sangue de barata, ao que lhe respondi:

– O amor é livre, mas a homofobia é crime. Queres que chame a polícia, filho da puta.

A polícia não chamei, porque o animal fugiu, mas chamei a gerência que interditou a sua entrada naquele bar.

Ainda o ano passado, porque uma desgraça nunca vem só. Tive um Arraial Pride maravilhoso, em representação para quem trabalho e já agora em minha, também mereço. Após os meus amigos partirem para casa, fui dançar para uma tenda. Tive logo a censura em cima de mim: um velho da sua idade não devia estar aqui. Ao que respondi, se não fosse o velho quem não estava aqui eras tu. Mas isso nem foi o pior. Decidi ir para casa e fui para a Rua da Escola Politécnica apanhar um táxi. Só porque tinha uma t-shirt a dizer Pride, partiram-me uma garrafa de cerveja de litro cheia em cima…

Agora pergunto: é este o mundo que queremos para nós? Não creio. Nem eu, nem as pessoas da comunidade LGBTQIA+, ainda assim, de quando em vez, vejo peitos cheios a dizer: Nunca passei por isso! E isso é bom, muito bom. Se calhar sou eu que sou muito escandaloso, mas se o faço, não é só por mim. Se um dia apanharem, venham falar com o tio.

Nunca se esqueça ninguém da linhagem de homens e mulheres que sempre resistiram, para que vocês nunca tivessem que passar por isso. A luta não se faz sozinho/sozinha . Por mim, por ti, por todes, serei sempre resistência, ainda que me possa custar a vida.

Foto: https://depositphotos.com/pt/

António S.um homem queer a caminho dos 50 anos

Lista de contactos úteis LGBTI+ em Portugal

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