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"Atlas da boca" no Alkantara Festival 21

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"Atlas da boca" é exibido nos dias 20 e 21 de Novembro no Teatro Nacional Dona Maria II, no âmbito do Alkantara Festival.

 

"Atlas da Boca" é uma investigação de dois corpos trans acerca da boca como lugar de intersecção entre a palavra, a identidade e a voz, o público e o privado, o erotismo e a política. Busca novas narrativas, explorando os verbetes que se abrem da boca para fora e que se lêem da boca para dentro.

Gaya de Medeiros , produtora e encenadora deste espectáculo, junta-se a Ary Zara para dar vida a “Atlas da boca”, um espectáculo sobre a exploração da boca através de dois corpos trans. Estreou-se no Palácio Pancas Palha nos passados dias 4 e 5 através do apoio da plataforma Interferências e, agora, associado à plataforma Braba, fundada pela própria Gaya, é exibido pela segunda vez no Teatro Nacional Dona Maria II ao abrigo do Festival Alkantara. Os leitores do dezanove.pt já conhecem ambos, Gaya dá corpo à personagem Babaya Samambaia. Ary Zara faz parte da dupla TGuysCuddleToo.
Em conversação com Gaya, perguntamos a motivação, o conceito e o que o público poderia esperar deste espectáculo.
“Tudo começou em um encontro com João Emediato e seu “Breve Atlas do Trabalho” que é uma publicação que brinca entre a palavra, a imagem e o gesto. Nesse atlas, os deslocamentos de significado acontecem por meio de combinações inusitadas entre esses elementos. Pessoalmente, sou uma entusiasta da palavra e das manobras que a linguagem cria diante do que nos é estranho. Passei minha infância e parte da adolescência muito calada, sempre no receio de ser lida com voracidade, sem carinho, e ainda hoje sou muito sensível àquilo que me dizem e a forma como escolhem me dizer essas coisas. Vivi incontáveis dias a ler as pessoas e, principalmente, suas “não-palavras”. Uma palavra-gesto, uma palavra-olhar, uma palavra-respiração contém tanta verdade e segredo que passo minha vida a tentar ler os caminhos que o pensamento inscreve no corpo. Acho que o espectáculo se instala aí. O "Atlas da Boca" discute sobre esse espaço simbólico onde a boca se torna a interface entre o público e o privado, entre o erótico e o político, entre o silêncio e a palavra que dura. São nessas situações que a palavra se torna identidade, afecto, fé e riso. Como bebés que descobrem o mundo colocando o mundo na boca: saber o gosto do chão, das chaves de casa e dos cabelos da mãe. Crescemos e a boca vai se tornando um lugar mais longe da mão, mais rebuscado, sóbrio e soberbo. Nessa colecção de palavras que transitam da boca para fora e da boca para dentro, eu e o Ary vamos nos permitindo transbordar algumas palavras. Ambos transicionamos muito tarde e, agora, começamos a vivenciar/ser outras palavras e experienciar o mundo em posições novas. Apesar de sermos duas pessoas trans, nosso trajecto dentro do espectáculo tenta abarcar porções “reduzidas em fogo alto” das experiências que qualquer pessoa pode se defrontar ao amar, ao perder e ao encontrar-se com o desconhecido. O trabalho se pergunta sobre as palavras-gestos que performamos nos encontros, sobre as línguas familiares e estranhas que passam pelo nosso corpo e sobre os momentos em que a boca se enrijece deixando a palavra sair urrada. Temos curiosa insistência na nossa capacidade de ouvir com outras partes do corpo e com aquilo que a boca tenta tornar eterno. Deixamos nos levar pelas histórias que a língua inventa e rebolamos em direcção ao sagrado que existe no céu da boca. Somos como bebés passando a boca na existência e sentido alguns sabores pela primeira vez.”
De momento, os bilhetes já se encontram esgotados. Mesmo assim, nunca está posta de parte uma eventual reposição noutra sala do nosso país.

 

 

Rita Oliveira

 

Direção e produção: Gaya de Medeiros
Criação: Ary Zara e Gaya de Medeiros
Provocação e concepção do Atlas: João Emediato
Vídeos: Ary Zara
Fotografia: Fernando Santos