opinião

Casamento LGBT



(Crónicas de um homem queer a caminhos dos 50 anos)

Este ano, em Junho, celebrámos os 15 anos do casamento entre pessoas do mesmo sexo em Portugal. É uma data da qual me recordo todos os anos, não só porque fiz parte de um dos colectivos que fez passar a lei e celebrei, então, na Assembleia da República; mas também porque foi um passo de gigante na altura. O então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, teve de engolir um sapo enorme ao promulgar a lei e anunciá-la na televisão em directo. O casamento foi, e é de facto, uma grande vitória para a comunidade. Quantos de nós estávamos numa relação há 10, 20, 30 anos, e se o parceiro morria  – muitas vezes já estava há muito morto para a família – os bens iam para a família do dito e não para o companheiro duma vida. Com o casamento conseguimos desbravar uma série de caminhos e ultrapassar uma série de questões legais, que anteriormente eram extremamente complexas.

Curiosamente, em quase 50 anos de vida nunca fui a um casamento entre duas pessoas do mesmo sexo (deixe-me aqui o leitor fazer uma pausa, para dar uma gargalhada). Nem ao meu próprio – ainda que faça parte dos meus planos, se o destino assim entender! Coincidência do destino, percepção minha ou as pessoas cada vez se preocupam menos com firmar uma relação? Será o casamento apenas um negócio, um instrumento legal para salvaguardar ambas as partes?

Seja como for, sabe o estimado leitor que apenas escrevo acerca do que observo e sobre o que me questiona e faz pensar. Como disse acima, o casamento foi algo enorme para a comunidade, mas, e ainda que me afaste da lógica heteronormativa, questiono-me porque o fazemos – deixemos a parte legal de fora, já vimos o quão importante é. Tenho muitos amigos que, como eu, fazem parte da comunidade, e vejo a dificuldade em ter, ou melhor, manter, uma relação. Parece que tem que se consumir tudo e rápido e ao mesmo tempo. Piorou tudo quando entrámos nesta desenfreada era digital com os Grindrs desta vida… E toda esta correria, todo este não parar, todo este querer tudo e muito e ao mesmo tempo cansa e desgasta. Pelo menos a mim…

Parece que tem que se consumir tudo e rápido e ao mesmo tempo. Piorou tudo quando entrámos nesta desenfreada era digital com os Grindrs desta vida…

Como disse num outro texto: “Poderei discordar do que fazes, mas lutarei sempre para que tenhas a liberdade de seres quem és.” Numa época em que vivemos um Amor líquido, como apelida o amor o sociólogo Zygmunt Bauman, os poucos casamentos que vemos na comunidade serão por amor? Fica a questão.

Há uns anos fiz uma especialização em Idade Média e estudei umas coisas sobre o casamento. Poderia estar aqui a discorrer sobre o assunto, mas estaria a fugir ao que aqui nos trouxe e terá, porventura, o leitor mais que fazer. Ora, no período mencionado, o casamento servia sobretudo o intuito de aumentar terras e selar alianças. Casamento por amor? Só se começou a falar nisso muito mais tarde, séculos XIX e XX. Claro está, e sendo que pouca documentação há sobre casais do mesmo sexo, pois eram comportamentos considerados desviantes e ficavam numa orla da sociedade, com um papel bem específico socialmente.

Mas, voltando ao que me fez escrever. Não posso afirmar as verdadeiras razões que levam duas pessoas a casar-se. Se calhar estou a ficar velho e por isso com o coração amanteigado. Mas, e embora sem referências que não as heteronormativas, sempre cresci a ver casamentos por amor, que correram ou não bem, mas que em algum momento para aquelas duas pessoas fizeram sentido… Talvez por isso – eu sei da importância legal, não batam mais no ceguinho – sonhe com um casamento por amor. Com ou sem valor legal, mas algo com o valor emocional que eu, que qualquer um, merece para a sua vida. Que nunca a vida nos roube a capacidade de sonhar.

Foto: depositphotos.com/pt

António S.um homem queer a caminho dos 50 anos

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